Gaza: genocidio à vista

La Jornada*    27.Ene.08    Outros autores


Pese o facto de Israel já ter levantado parcialmente o bloqueio, permitindo a passagem de petróleo e alguma ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, este editorial de jornal mexicano La Jornada mantém plena actualidade.

Depois de uma série de bombardeamentos aéreos que causaram dezenas de mortes e feridos entre a população civil de Gaza, o regime israelita ordenou o bloqueio total desse território palestino, o que impediu durante vários dias a chegada de ajuda humanitária mais essencial. A medida impediu também a chegada do combustível necessário para o funcionamento das centrais termoeléctricas da faixa, o que provocou o corte de energia em toda a zona. A situação é particularmente crítica nos hospitais, onde estão internados os numerosos feridos dos ataques aéreos da semana passada. Os organismos humanitários advertiram que o bloqueio israelita provoca mais elevados graus de horror a catástrofe humanitária que se vive em Gaza, e os repórteres procedentes do lugar dizem que se esgotam os remédios, os víveres, as velas nas tendas, o pano para amortalhar os mortos e até o cimento necessário para fazer as campas.

Esta desapiedada ofensiva contra um povo praticamente inerme, bem como os astigos colectivos – proibidos pelas leis internacionais e os mais elementares princípios humanitários – que Telavive impõe contra os habitantes de Gaza , põem em manifesta evidência a completa falsidade dos discursos em que o mandatário estadunidense, George W Bush, que visitou Israel há dias, se manifestou a favor da paz e da cooperação entre israelitas e palestinos. Na verdade, não é fácil imaginar que o desígnio de aniquilação física dos palestinos em que se utilizam aviões, tanques e projécteis fornecidos ao Estado hebraico por Washington, possa ter como resultado um diálogo pacificador para a zona. De facto, até os funcionários da Fatah que exercem o controlo da Cisjordânia, repudiados de forma crescente pelos próprios palestinos e considerados por amplos sectores como títeres dos Estados Unidos e de Israel, manifestaram o seu repúdio pela acções genocidas de Telavive na Faixa de Gaza controlada pelo Hamas, o grupo fundamentalista que ganhou as últimas eleições legislativas realizados nos mártires territórios autónomos.

O governo de Ehud Olmert pretende usar os recentes ataques palestinos contra objectivos civis israelitas – indubitavelmente condenáveis e inadmissíveis – como justificação para os bombardeamentos e o cerco a Gaza, o que torna evidente a desproporção entre as acções de grupos armados terroristas e um Estado que recorre a práticas que são qualificadas pelo normativo internacional como crimes de guerra, cometidos contra o conjunto de uma população devastada, saqueada, sitiada e despojada até do seu legítimo direito de eleger representantes em eleições democráticas.

Na Palestina - como no Iraque – o suposto combate ao terrorismo desemboca com frequência em actos genocidas, para cúmulo apresentados à opinião pública internacional como medidas de pacificação. Tudo isto ocorre à vista de todo o mundo, com a complacência dos governos supostamente civilizados e democráticos dos Estados Unidos e da Europa ocidental, e perante a manifesta incapacidade dos organismos internacionais máximos. O drama que se abate sobre os palestinos é um retrocesso civilizacional que degrada todos os membros da comunidade internacional, que prometeu a si mesma, há seis décadas, impedir que se repetisse o extermínio de um povo.

*Editorial do diário mexicano La Jornada de 21 de Janeiro de 2008

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