Guerra de classe: a “esquerda” entra no jogo a perder! Porquê?

Luniterre    14.Nov.19    Outros autores

O que se passou recentemente com a iníqua resolução anticomunista no Parlamento europeu deixou de novo em evidência que não pode existir anti-comunismo ou anti-sovietismo «de esquerda». Que se trata de opções ideológicas inculcadas pela classe dominante. E que transigir com elas é, desde logo, aceitar a derrota.

“Há uma guerra de classes, é um facto. Mas é a minha classe, a classe dos ricos, que está a travar essa guerra e está em vias de a vencer.” Ninguém esqueceu realmente essa afirmação “chocante” do multimilionário Warren Buffet. Foi no canal CNN dos EUA, em 2005. Após a crise de 2008 e sua “solução” financeira exponencial, ele afirmava mesmo o carácter definitivo dessa vitória …!

Até há pouco tempo, quase 15 anos depois, a história, apesar da violência exacerbada dos vários conflitos no planeta, parecia ainda dar-lhe razão. Nos últimos tempos, no entanto, as múltiplas e massivas revoltas em todo o mundo reintroduziram de certa forma uma séria dúvida sobre essa afirmação. Porque sucede que, apesar de sua aparência maciça, todas essas lutas parecem sistematicamente encalhar em impasses, por falta de uma perspectiva política realmente alternativa ao sistema em vigor, que assim parece permanecer inamovível. E isso apesar da gritante evidência de desigualdades gigantescas que ele continua a cavar e das aberrações económicas e ecológicas que gera.

O gerador desta catástrofe planetária está no entanto perfeitamente identificado, e em particular precisamente desde a crise de 2008: é claramente a dominação planetária do capital financeiro sobre praticamente todas as formas de expressão do poder.
A “democracia” liberal deixou de ser o campo delimitado onde os diferentes lobbies se confrontam pela partilha de influências lucrativas, através de seus fantoches políticos cada vez mais confrangedoramente agitados no palco e dos quais Trump parece ser o arquétipo, caricatural ao extremo.

E a guerra de classes, no domínio ideológico e cultural, nunca parou realmente, muito pelo contrário! A burguesia não deixou de perseguir a menor reminiscência do período em que uma alternativa ao capitalismo parecia possível, e era-o realmente assim, em certa medida.

Por um lado, o absurdo do sistema actual é tão flagrante que uma parte substancial da intelligentsia e das classes médias ao seu serviço regularmente se declara mais ou menos “anticapitalista”, mesmo que isso não tenha outras consequências senão movimentos de contestação puramente formal rapidamente recuperados sob as diferentes formas de reformismo da sua classe política. Mas, por outro lado, o verdadeiro medo que ainda parece afectar a burguesia é o possível ressurgimento do “espectro comunista” que ele não cessa de perseguir onde quer que pudesse retomar forma.

Ao contrário das esperanças que fundou na “queda do muro” e no período 1989-92, é o chamado “fim da história” que pertence já claramente ao passado e, se um “fim” parece estar a aproximar-se novamente a grandes passos, é de facto o” fim” possivelmente apocalíptico do próprio sistema, não necessariamente devido a sabe-se lá qual hipotético” inimigo “, mas muito simplesmente pelas suas próprias contradições. Nestas condições, o sistema mantém constantemente um olho alerta sobre todos os vestígios de memória, sejam eles quais forem, do período soviético. Foi o que vimos por ocasião do centenário de Outubro em que toda uma bateria de “especialistas” e “historiadores” entrou em cena, por vezes muito oficialmente designados e, se não, indirectamente, por para garantir um sono profundo a este terrível fantasma …

Mas o sistema, à falta de resolver a sua própria crise, tem todo o interesse em alimentar ele mesmo o “messianismo” milenar de um fim apocalíptico próximo, seja ele “ecológico” ou não, e contra o qual possa portanto apresentar-se como “baluarte da humanidade”, e assim tentar prolongar-se, através de algumas fórmulas “choque”, como única “alternativa” possível … ao desastre que ele próprio engendrou!

Para a burguesia, tudo o que não é ela própria ou diretamente dependente dela mesmo é “apocalíptico”. Desde o nascimento da URSS, esforçou-se para forjar uma visão “apocalíptica”, a ponto de tentar torná-la um mito de pesadelo federador da sua própria classe, e até mesmo passando por cima dos seus próprios conflitos internos de interesses. . É assim que o verdadeiro monstro nazi, potencialmente criado em 1919 pelo Tratado de Versalhes pôde ser chocado como um antídoto potencial a esse pesadelo, apesar dos seus desmandos no próprio coração do capitalismo europeu e internacional.

Mas a burguesia tinha claramente subestimado a bulimia desse monstro gerado no seu seio, e cuja natureza profunda não era, portanto, diferente dela mesma. Ela esperava simplesmente que essa bulimia apenas fosse orientada para leste …

Esse “erro de perspectiva” acabou por levá-la a uma inversão, mesmo que muito provisória, na atribuição do papel dos monstros a exorcizar …

É isso que nos lembra um filme notável recentemente encontrado por um de nossos camaradas e que apresentamos no TML. Este filme foi realizado no essencial em 1943, pouco depois da vitória soviética de Estalinegrado. Realizado por encomenda para as autoridades dos EUA, foi manifestamente pensado por cineastas que tinham já uma visão histórica espantosamente pertinente do conjunto da “Frente Oriental”, tendo em conta a reduzida distância temporal em relação a acontecimentos muito recentes para eles e para o mundo dessa época!

A Batalha da Rússia pelo governo dos EUA em 1943 !!!
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Evidentemente, esses cineastas tinham portanto acesso a fontes em primeira mão, o que o torna ainda hoje um documento histórico excepcional. Mas o que é mais característico relativamente aos pontos de vista “oficiais” actuais sobre aquela época é a importância que atribuem à vida social das infraestruturas económicas soviéticas, que tornaram precisamente possível e eficaz o esforço de guerra.

Fica claro neste filme que a vitória desse esforço de guerra é de facto a vitória do conjunto da sociedade socialista soviética, e não a de um tirano maquiavélico secundado por um punhado de generais e burocratas despóticos. É a vitória dos soviéticos que se mobilizaram na ordem dos milhões, seja na linha de frente ou como guerrilheiros, por detrás das linhas inimigas, ou simplesmente nos seus postos de trabalho, todos eles essenciais para o esforço de guerra .

É um vislumbre da realidade soviética, neste filme norte-americano de 1943, que é, portanto, concretamente a antítese da visão supostamente “histórica” ​​que nos é dada nos manuais escolares actuais, nos registos Wikipédia, nas emissões de televisão etc.

E, é claro, é também a antítese da desde agora votada “oficialmente” no Parlamento Europeu por sua “resolução” sobre a “memória” da 2ª Guerra Mundial, que atribui sem rodeios à URSS a responsabilidade pelo desencadeamento da guerra! (*)

E é nesse sentido que este filme é hoje particularmente significativo!

De facto, o Parlamento Europeu, ao endereçar directamente a sua “resolução” assimilando o comunismo ao nazismo ao parlamento da Federação Russa, ordena expressamente ao governo russo que na prática cesse de comemorar essa vitória soviética.
E por que razão real, se não para tentar novamente apagar a memória, não apenas dessa vitória, mas da sociedade socialista soviética que a tornou possível?

De facto, porquê tantos esforços e sacrifícios da parte dos cidadãos soviéticos, se não para defender este país, a URSS, que vinham de reconstruir quase inteiramente numa dezena de anos, desde o final da NEP e o início da colectivização?

Porque teriam eles feito tanto esforço e sacrifícios, se o seu país correspondesse de algum modo à visão de pesadelo que dela dão hoje os manuais escolares, a Wikipédia e outros media?

Porquê tanto esforço e sacrifício por este país, se a “resolução” de 19/09/2019 do Parlamento Europeu não passa simplesmente de uma manipulação enganosa da história?

Através da memória nacional russa, o que ainda hoje é massivamente comemorado, em todas as ocasiões possíveis e com o apoio efectivo do governo da Federação Russa, não é apenas a festa da vitória, mas é precisamente a memória desse esforço colectivo e de todos os sacrifícios que foram necessários para construir, passo a passo, essa vitória.

É nesse sentido que essas comemorações se tornaram uma comunhão nacional popular que constitui ainda hoje uma parte essencial da alma russa.

E acontece que essa memória coletiva da Rússia coincide completamente com a realidade filmada em 1943 pelos cineastas norte-americanos, e não com a actual caricatura ocidental de pesadelo que o Parlamento Europeu vem de “legalizar” pelo seu voto.
Este voto é, no campo da “memória” em que pretende situar-se, uma declaração de guerra ideológica, nem mais nem menos.

O que o Parlamento Europeu procura expressamente, nas expectativas do seu voto, é todo o conjunto do período socialista soviético que permitiu a construção dessa capacidade de derrotar o fascismo. É um momento histórico particularmente emocionante deste período que nos é dado a entender no filme de 1943, e ele mostra-nos precisamente o que o socialismo real significava na URSS, para a classe operária e o conjunto das classes populares desse país. Este acto de guerra ideológica fomentado pelo Parlamento Europeu é, portanto, também, e acima de tudo, um acto de guerra de classe.

Agora, como é que a “esquerda” francesa se situa face a este acto de guerra de classe? Situa-se verdadeiramente do lado do proletariado e das classes populares? É ela é capaz de conduzir uma contra-ofensiva?

Na realidade, desde há décadas que ela não cessa de denegrir a URSS, seja durante a sua vida seja após sua queda! E autoflagela-se pelo o período em que a apoiou.
Orgulha-se de “antifascismo” mas é incapaz de assumir o desafio deste confronto, quando é atacada a memória da URSS que é realmente o país que fez o essencial do esforço de guerra contra o nazismo, infligiu-lhe a primeira derrota às portas de Moscovo em Dezembro de 1941 e finalmente o derrotou em Estalinegrado antes de o vencer finalmente em Berlim!

Uma boa parte da esquerda encaixa-se mesmo directamente nos apoios a esta “resolução”, e se uma outra parte esboça protestos, é sempre de maneira a de algum modo caucionar o anti-sovietismo fundamental, directamente ou não. Nenhum desses “esboços” retóricos, por mais alambicados e sofisticados que sejam, assume o essencial daquilo que exacta e realmente fazia a força da URSS na época: a construção do socialismo e o desenvolvimento das forças produtivas que ele tornou possível, na década anterior à guerra.
A vitória da URSS sobre o nazismo não é simplesmente a vitória do exército de uma nação sobre outra, mas antes de tudo a vitória da construção do socialismo, a vitória do proletariado e das classes populares, precisamente, na guerra de classes!

E certamente a maior vitória histórica do proletariado nesta guerra de classes da qual hoje os financeiros multimilionários, como Warren Buffet, que estão a acabar de destruir o planeta, ousam proclamar-se vencedores!

Reduzir a responsabilidade da vitória histórica proletária da URSS à de um só homem, seu líder político, Joseph Stalin, e tentar fazer dele ao mesmo tempo uma espécie de demiurgo, concentrando na sua pessoa toda força de um país do tamanho de um continente e apresentá-lo como um burocrata despótico irresponsável e paranoico, uma caricatura de diabo de opereta, é essa a estratégia de comunicação conduzida em todas as direcções pelo Ocidente, da direita à «esquerda», desde há décadas, como contra-ofensiva nesta guerra de classe, para mascarar a mais do que culpável tolerância que a burguesia demonstrou em relação à sua própria e verdadeiramente monstruosa descendência, o nazismo!

Não podendo apagar historicamente o comportamento criminoso desse avatar ideológico da sua própria classe, a burguesia negou-o oficialmente como ela sabe fazer de qualquer descendência indigna, escorraçando-o pela grande porta das suas proclamações humanistas, para o deixar entrar pela pequena janela das suas necessidades urgentes, como continua a fazer na Ucrânia, por exemplo.

É o que normalmente emerge desta resolução de 19 de Setembro de 2019, que de facto cauciona os regimes europeus legalizando e incentivando o anticomunismo, o anti-sovietismo e a russofobia.

Pretendendo embora equiparar o comunismo ao nazismo, trata-se de facto de uma tentativa de apagar a responsabilidade do Ocidente “liberal” e a sua complacência de Munique em relação ao nazismo, ou seja, a sua responsabilidade real na génese da Segunda Guerra Mundial, a mais mortífera de todas, e que assassinou mais de 25 milhões de cidadãos soviéticos em quatro anos!

Como pode a actual esquerda pretender afirmar-se antifascista ao caucionar, directa ou hipocritamente, essa mentira da burguesia europeia e sentar-se, de facto, sobre essa montanha de cadáveres proletários?

Como pode ela, por um único segundo, falar em nome das revoltas proletárias e populares que se levantam, um pouco por toda a parte, hoje, ao redor do mundo?
Não apenas não pode, mas é muito natural que se veja rejeitada pelo proletariado pelo que realmente é: uma emanação do pensamento “liberal” escravizada ao sistema que destrói o planeta e condena cada dia para novos retrocessos sociais, e em muitos países a uma miséria cada vez mais negra.

Se alguns raros elementos sinceramente de esquerda, sinceramente decididos a acabar com este sistema ainda estão nessa esquerda, este filme pode constituir para eles matéria de reflexão sobre a realidade histórica da guerra de classe.

E perante a ofensiva ideológica da burguesia expressa nesta “resolução europeia”, deve ser para eles logicamente o tempo de uma escolha política essencial: a do campo em que realmente querem estar na guerra de classe.

Já em 1941, apenas seis meses após a sua entrada “triunfal” na URSS, o exército nazi era detido às portas de Moscou e obrigado a recuar 200 km. Para o nazismo, era o verdadeiro começo do fim.

Na guerra de classe, não há derrota que seja irremediável. Mas sem uma contra-ofensiva adequada, a vitória permanece com os Warren Buffet e seus zeladores políticos, direita e “esquerda” misturados. Eles são o campo determinado a manter o sistema mortífero no seu lugar.

Eles são o campo dos destruidores do planeta, o campo dos financeiros imperialistas para os quais a memória da URSS e da sua vitória antifascista é intolerável. A mentirosa resolução europeia de 19 de Setembro de 2019 é o culminar da sua ideologia na guerra de classe.
A vitória antifascista do proletariado na Segunda Guerra Mundial não repousa obviamente sobre os ombros de um único homem, Joseph Stalin, mas sobre os de todo um país socialista reconstruído em dez anos com base na sua ideologia de classe, o legado da Revolução de Outubro, o legado de Marx e Lénine: o Marxismo-Leninismo.

Enquanto a esquerda continuar a rejeitar os fundamentos que permitiram a histórica vitória do proletariado permanecerá no campo dos inimigos do proletariado, no campo da burguesia e, enquanto se proclamava “antifascista”, no campo dos neonazis, no fim de contas. E a sua derrota não será senão a demolição de um dos muitos palermas descartáveis ​​do sistema, e não a do proletariado que tenta hoje levantar a cabeça por meio das suas múltiplas revoltas no planeta.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/guerre-de-classe-la-gauche-joue-desormais-perdant-pourquoi.html.

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