Guerra social e guerra imperialista

Rémy Herrera    23.Abr.18    Colaboradores

Um novo ponto da situação em França. As lutas prosseguem em várias frentes, e pode abrir-se alguma perspectiva da sua convergência. Macron responde com a repressão e com a tentativa de encenação de um «diálogo directo com o povo». Ao mesmo tempo que promove a guerra social contra trabalhadores e estudantes, intervém activamente na agressão imperialista contra a Síria. Duas faces da mesma moeda.

A França está habituada a greves e manifestações. Mas neste início de primavera a atmosfera está invulgarmente pesada, tensa. Os discursos presdenciais e mediáticos afirmando que a ordem está em vias de ser reestabelecida são demasiado frequentes para que possamos estar seguros de que nada de sério esteja em preparação. Os descontentamentos subiram de tom nas últimas semanas. Graças a Macron, principalmente, que diz estar a ouvir os protestos e aparece a dialogar com os que o interpelam em particular, mas que faz espancar tudo o que mexe.

Em meados de Abril enviou 2500 militares para evacuar uma centena de activistas da «zona a defender» (ZAD) em Notre-Dame-des-Landes, no oeste do país. Esses militantes, ligados a movimentos ecologistas e autónomos (extrema-esquerda) tinham aí impedido a construção de um aeroporto e permaneciam no local, transformado em ocupação a céu aberto, procurando espaços agrícolas alternativos, colectivos, e recusando a propriedade individualizada. No dia seguinte à intervenção os «zadistas» tinham multiplicado por cinco o número dos que afrontavam as forças da ordem. Na mesma altura, Macron lançava a polícia de choque para desalojar os estudantes que ocupavam a Sorbonne e Tolbiac para protestar contra a «reforma educativa». Foram de imediato ocupas, ou reocupadas, outras universidades, como em Nanterre – e mesmo Sciences Po, grande escola em que o Presidente da República se diplomou. Em Lille, os estudantes tiveram que encaminhar-se para os exames entre duas alas de polícias.

Os manifestantes parisienses da jornada de acção interprofissional de 19 de Abril – organizada pela CGT e mobilizando 300 000 pessoas em todo o país – tiveram direito a canhões de água e granadas lacrimogéneas quando nada de grave o justificava. À falta de apoio popular, o Presidente entende demonstrar a sua força enviando a tropa contra as resistências pacifistas. Apoiado pela alta finança, tem razões para se sentir forte. Tão forte que pôde declarar a guerra social. E pode desafiar o povo, em nome das «reformas necessárias», e desprezando o diálogo social. Hoje o que Macron quer é quebrar a coluna vertebral do movimento operário; a começar pelos ferroviários, na primeira linha de defesa do serviço público, e que proporcionaram uma cristalização das contestações.

Tal como Thatcher, na sua altura, tinha quebrado os mineiros. Entretanto, no 3 de Abril passado, primeiro dos 36 dias de «greve intermitente» na SNCF anunciados a nível nacional pelos sindicatos de ferroviários, a direcção da Eurostar (empresa ferroviária anglo-francesa que tem a seu cargo os comboios de alta velocidade entre a França e o Reino Unido, através do túnel sob a Mancha), tentou deslocar funcionários do depósito de Leyton (leste de Londres) para Paris. Por meio de uma acção conjunta entre a CGT e o RMT (sindicato britânico dos transportes), os operários franceses e britânicos organizaram-se e impediram os patrões de quebrar – ilegalmente – a greve em França com recurso a trabalhadores britânicos. Ficou feita a demnstração da eficácia da solidariedade internacional entre trabalhadores.

No momento presente o que está é causa é de vulto. Confrontam-se duas visões da sociedade: uma, apresentada como «ultrapassada», é a da solidariedade, da justiça social, da esperança reencontrada para a juventude, de um futuro em comum; a outra, neoliberal, estratégia das elites, tem o falhanço garantido e lança a maioria da população num beco sem saída. Por quanto mais tempo irá esta maioria – o mundo do trabalho – recuar face a esta minoria de privilegiados que a esmaga?

No dia 19 os sectores da química, da electricidade e do gás entraram na batalha. Será uma guerra de resistência. A questão colocada neste 19 de Abril é a que é necessária: como encontrar nas lutas as condições para a sua convergência? Apesar das divisões sindicais – nas quais as jovens gerações descobrem aquilo que os mais velhos sabem há muito: que as franjas social-democratas traem os trabalhadores – está em vias de se desenhar uma frente do trabalho. É certo que, de momento, as forças da esquerda política não estão à altura dos desafios. Para todos, a recusa de discutir o colocar em causa o euro e o colete-de-forças europeu entrava o futuro. Apenas esta inorganização da esquerda permite ainda aos burgueses dormir mais ou menos tranquilamente. Emboscada, a extrema-direita observa.

E, tal como a França monárquica conquistou a Argélia esmagando as suas revoluções de 1830 e 1848, faltava uma guerra imperialista para acompanhar a guerra social. Cantando-nos a canção das «armas químicas» antes entoada por Bush, Macron foi para a guerra, docilmente, atrás de Trump e May, para bombardear a Síria. As duas faces guerreiras do capitalismo.

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