Transcrição da entrevista inédita que El Pais fez ao autor do Tambor de Lata na sua casa de Lübeck a 21 de Março

Günter Grass: «A dor é a principal razão para me fazer trabalhar e criar»

Juan Cruz    30.Abr.15    Outros autores

Com a publicação desta entrevista odiario.info evoca não apenas a uma grande figura da literatura e da poesia, mas um homem que em muitos aspectos se tornou uma referência moral. Por várias tomadas de posição corajosas que assumiu, nomeadamente em defesa da paz. Pela reflexão que a sua obra e a sua intervenção pública desenvolvem em torno de aspectos centrais de um século XX cuja tragédia histórica e humana viveu intensamente enquanto cidadão alemão.

Günter Grass, testemunha incómoda do século XX, autor do Tambor de Lata, morreu num hospital de Lübeck, cidade onde residia. Nasceu em Danzig, que pertence agora à Polónia, há 87 anos, obteve o prémio Nobel de Literatura e o Príncipe das Astúrias das Letras em 1999, pelo  conjunto de uma obra em que ofereceu a sua incómoda memória de um século de guerras numa das quais, a Segunda Guerra Mundial, participou como soldado das SS. Este episódio, confessado quando publicou as suas memórias, (Descascando a Cebola, 2007), ensombrou a sua vida a partir daí. Apesar de noutras obras suas ter contado que pertenceu às forças armadas de Hitler quando tinha 17 anos, foi esta última revelação que agitou a Alemanha e o mundo. Despertou desse estado de inquietação e continuou a escrever e a pintar. Agora estava para publicar um livro de poemas, desenhos e contos.
 
Vimo-lo pela última vez na sua casa de Lübeck, junto da esposa, Ute, a 21 de Março último, numa tarde em que se mostrava alegre e espirituoso, não queria falar de política, mas depois começou a falar de política, sob os quadros escuros de Goya que ordenavam a sua cabeça quando se punha a cumprir a sua velha vocação de artista de todos os géneros que se cumprem em sociedade. Grass já necessitava de uma máquina para respirar, mas fumava cachimbo, como nos seus auto-retratos, mostrava-se jovial e alegre, preocupado com o estado do mundo, com o regresso do mal em situações que lembravam o pior da Idade Média, e convencido que só a união da Europa, o conhecimento comprometido da realidade dos outros iria levantar o ânimo de uma humanidade cujo século XX, que ele retratou com melancolia no Meu século  (1999), tinha sido alimento cruel ou gozoso da sua alma que às vezes era, também, a de um menino que viveu dependente da mãe e que no final da vida contava esse desprendimento com ternura e sentimento de solidão. Na conversa que tivemos há menos de um mês, e que aqui se publica na íntegra, ajudou-nos Grita Lobsack, intérprete e sua amiga, esposa de Miguel Sáenz, académico e tradutor da maior parte das suas obras.
 
Quando acabou a conversa Grass voltou connosco para a sua casa solitária, onde a sua mulher Ute, que nos últimos meses teve uma saúde mais frágil que ele, nos tinha preparado alguns doces cuja receita lhe havia deixado o primeiro marido, que acabava de estar com eles. Ele achou muito divertido que lhe tivéssemos levado presunto serrano, cujas peças grandes lhe lembravam as mandolinas italianas; (na verdade, quando estavam inteiros, ele fingia tocá-los como se fossem instrumentos musicais), e riu como se fosse viver para sempre. Fez planos hipotéticos, como por exemplo voltar ao Círculo de Belas Artes de Madrid, para expor os seus quadros, mas uma pneumonia que o levou ao hospital acabou com uma vida cheia de factos e de livros e igualmente cheia da incerteza geral que tornou tão triste o Século XX. Antes de esta conversa que ora transcrevemos continuasse sob os quadros escuros de Goya, o escritor mais político do Século XX alemão disse-nos: «Mas vamos continuar a falar de política?». Ele próprio tinha iniciado uma conversa sobre a actualidade política quando ainda estávamos na saleta de sua casa, mas respondemos Não, tínhamos vindo falar de poesia e dois minutos depois o próprio Grass regressou ao território em que a sua vida se desenrolou, a mistura angustiante de política e poesia.
 
Pergunta: Como ser humano, que lhe dá a escrita diária de poesia?
Resposta: O meu primeiro livro saiu nos anos cinquenta e foi um livro de poesia com desenhos. Só mais tarde comecei a escrever a novela O Tambor de lata. Naquela época estava em Berlim a estudar escultura. Escrevia uma novela e quando acabava tinha de mudar de meio. Nesse momento era a poesia, porque me dava conta de que ao identificar-me com tantas figuras das novelas me afastava de mim mesmo. E queria voltar para mim, e medir-me também comigo mesmo num certo sentido.
 
P. E desenhava
R: Quando desenhava muito tempo tinha de voltar às palavras e à poesia. Procurava voltar e reencontrar-me e encontrar também o lugar em que estava porque toda a minha actividade anterior me afastava de mim próprio.
 
P.: Que encontra quando volta para si?
R Nos anos 60 tive de usar óculos e escrevi um poema em que aludia ao assunto… Nesse poema disse que tudo é mais belo mas está em oblíquo, que as impurezas se vêem com mais exactidão. E ao longo dos anos também me dei conta do processo de envelhecimento, de que há uma certa fadiga dos materiais do corpo e que é necessário fazer algumas reparações. Também adquiri a consciência de que tudo é finito.
 
P. Sempre teve essa impressão, mesmo na juventude?
R. Para mim logo se tornou claro, porque filosoficamente não estava sob a influência de Heidegger mas sim de Camus. Ou seja, vivemos agora e temos a possibilidade de fazer alguma coisa agora com a nossa vida. O mito de Sísifo, que conheci depois da guerra. Com o decorrer dos anos dei-me conta que temos a possibilidade da autodestruição, algo que antes não existia, dizia-se que era Natureza que produzia as fomes, as secas, algo cuja responsabilidade estava noutro lado. Pela primeira vez somos responsáveis, temos a possibilidade e a capacidade de nos autodestruirmos e nada se faz para eliminar esse perigo do mundo. Ao lado da miséria social que existe em todo o lado temos agora o problema da mudança climática, cujas consequências nem levamos em conta. Há uma reunião após outra e a problemática continua a mesma e nada se faz.
 
P E os problemas aumentam.
 R. Devemos acrescentar a isso o problema da sobrepopulação. Tudo junto obriga-me a ver que as coisas são finitas, de que não temos um tempo indefinido, Se pensarmos no tempo de existência do nosso planeta, só podemos reconhecer que somos convidados, que passamos um tempo curto e muito determinado neste mundo e que a única coisa que deixamos atrás de nós é o lixo atómico. Se algum dia alguém quiser saber o que temos feito, o que nos caracteriza é o lixo atómico… Nos anos 70 e 80 escrevi duas novelas épicas, O rodovalho e A ratazana, a capacidade do homem para se autodestruir de que falo está reflectida nessas novelas.
 
P. Não há um só livro de prosa seu que não vá para o centro da sua própria vida, desde o Tambor de Lata até Descascando a Cebola ou A passo de caranguejo… A ficção serve-lhe para contar a sua realidade por dentro…
R. Sim, e por isso quero dizer que este novo livro que vai sair no Outono é de textos breves em que quero mostrar a relação intensa entre a prosa e a lírica. Os germanistas normalmente separam os géneros. Eu quero vê-los juntos porque acho que estão relacionados os limites entre a prosa e a lírica, para mim não estão definidos, estão diluídos.     
 
P. Essa combinação permite-lhe dizer melhor o que se passa?
R. De minha mãe herdei dois talentos: para mim nunca foi um problema seguir uma coisa e abandonar a outra. Entendi que tenho dois talentos, e que com muito trabalho tenho de desenvolvê-los e tentar expressar-me partindo dos dois. Escolher entre uma coisa e outra não foi uma alternativa mas sim um enriquecimento. Por exemplo, se escrevia durante muito tempo tinha a sensação de que a escultura me fazia muito bem porque sentia que expressava algo de todos os lados em simultâneo, algo que estava dentro do espaço. Muitos poemas começam com um desenho, quando tenho a ideia de uma metáfora plasmo-a sobre o papel e tento logo passá-la a desenho para ver se ela se aguenta ou não. Em Achados para não leitores pintava umas aguarelas e quando ainda não estavam secas já começava a escrever poesias de quatro ou cinco linhas. Isso é um bom exemplo de como as disciplinas (a pintura, a escrita) se mesclam e se enriquecem mutuamente.
 
P. Humanamente, que significa para si o trabalho?
R. Leu os meus livros e sabe, como conto em Descascando a cebola, que aos 16 anos pude sobreviver por mera casualidade no prazo de três ou quatro semanas, na guerra tive cinco ou seus possibilidades de sucumbir como muitos da minha idade. Tenho consciência disso até hoje. O facto que trabalhar o máximo possível serve-me para provar a mim mesmo que sobrevivi, que existo e que continuo a viver, que estou vivo.
 
P. Falou há pouco de Camus. A obra de Camus é uma explicação ou expiação da dor, uma busca da sobrevivência através da literatura. Aprecia Camus pela mesma atitude?
R. O ensaio sobre o mito de Sísifo descreve o trabalho, o horrível que é levantar a pedra sabendo que não serve para nada, porque a pedra vai voltar a cair; mas Sísifo não tem outra possibilidade para além de erguê-la porque senão ficaria sem função. Camus acaba este ensaio afirmando que se pode considerar que Sísifo era um homem feliz… Isso para mim era muito importante, uma nova interpretação do mito realmente muito estimulante; toda a causa no fundo é a dor. Cada pessoa tem a sua própria situação e dei-me conta de que não só podia expressar-me artisticamente mas que tinha de tratar uns determinados temas, o da minha juventude, o da capitulação absoluta da Alemanha, com a destruição total de todas as casas mas também com o desmoronamento das pessoas…
 
P. Uma história de dor…
R. Durante toda a minha vida e até hoje, isso continua igual. E o incrível é que a Alemanha é uma história sem fim, porque o Holocausto e o genocídio, esses crimes horríveis constituem uma história interminável. Vemo-lo agora na Grécia; enfrentamos outra vez o problema dos horrores causados pelos soldados alemães durante a ocupação… Essa história continua a seguir-nos… Assim volto outra vez ao tema da dor de Camus; a dor é a principal causa que me faz trabalhar e criar.
 
P. Camus tem esta frase: «O sol que reinou na minha infância privou-me de todo o ressentimento…» A sua infância também foi essencial para desenvolver a sua obra literária posterior?
R. Em Descascando a cebola há um obituário sobre a minha mãe. Morreu de cancro aos 75 anos. Voltei a ver os meus pais e a minha irmã dois anos depois de a guerra acabar. Minha mãe tinha sido expulsa de Danzig, quando a vi era uma mulher quebrada e velha… Quando menino contava-lhe muitas histórias que saíam da minha imaginação, a imaginação das crianças é muito fértil. Ela dizia: «Mentiras de crianças». Mas no fundo gostava das mentiras. Dizia-lhe sempre que quando fosse maior e tivesse dinheiro ia levá-la a terras maravilhosas e tudo isso, mas como morreu tão depressa nunca lhe pude mostrar que queria fazer mesmo isso. Nunca pude fazer nada por ela… Ela sofreu quando lhe disse que queria ser artista; o meu pai era completamente contra e ela apoiava-me sempre, mas sofria. E eu continuo a sofrer porque não pude provar-lhe nada do que lhe prometi. Tenho um grande complexo materno; nunca fui ao psiquiatra e essa é a fonte de toda a minha criatividade.
 
P. Disse que em Descascando a cebola narra a história de um jovem (você) que pode ter morto ou desaparecido. Não aconteceu, está aqui. De certo modo aquela guerra não o marcou para sempre a si e à sua geração?
R. Claro que sim, fomos marcados pela II Guerra Mundial. E o pior são os efeitos a longo prazo, que permanecem para sempre. Por isso a minha geração está mais atenta aos problemas do presente enquanto em volta parece agora que estamos a entrar na III Guerra Mundial sem conseguirmos dizer quando começou. A II Guerra Mundial começou com a entrada da Alemanha na Polónia, mas no fundo já se iniciara antes com a Guerra Civil de Espanha. Para a Alemanha, Itália, a URSS e outros a Guerra Civil espanhola foi uma ocasião para testar o armamento num caso concreto. Quando acabou, em 39, começou a II Guerra Mundial. Em 38 o Japão começou a meter-se na Manchúria e daí para a China, com aquela matança horrível ou seja havia também outro foco de guerra na Ásia… Agora temos por um lado a Ucrânia, cuja situação não melhora, em Israel e na Palestina está cada vez pior, o desastre que os americanos nos deixaram no Iraque, as atrocidades do Exército islâmico e o problema da Síria, onde as pessoas continuam a matar-se mas quase desapareceram as informações… Há guerra em todo o lado, corremos o perigo de tornar a cometer os mesmos erros anteriores, e sem nos apercebermos podemos meter-nos numa guerra mundial como se andássemos sonâmbulos.
 
P. Escreveu O Meu Século sobre o Século XX e os males do mesmo. Este século XXI prolongou a maldade e o lugar-comum é o fanatismo. É esse o mal humano do século XXI?
R. Tenho dúvidas. Nunca digo que isto é bom e aquilo é mau, seria simplificar demasiado as coisas. Bush foi um problema…Bush falava do mal e isso não ajudou a encontrar uma solução, levava ao maniqueísmo, ao branco e ao preto… O que há a fazer é recordar os inícios desta história. Por exemplo, o que aconteceu depois da I Guerra Mundial? Cai o Império Otomano, repartem-se os Balcãs e o petróleo transforma-se num elemento muito importante. O Iraque ainda não existia, foi uma invenção dos poderes coloniais vitoriosos dessa guerra mundial… A Palestina era um protectorado inglês, do mesmo modo que a Síria era um protectorado francês… E o Holocausto gerou o problema da Palestina. No fundo é tudo anexações de terras e até hoje a causa do problema tem sido a atitude dos vencedores da I Guerra Mundial.
 
P. Temos esperança de que o homem seja melhor no século XXI? Regressa ao passado e ao predizer a III Guerra Mundial vê o futuro com pessimismo?
R. Não é pessimismo. Baseio-me na experiência e nas falhas que temos cometido, algo que se pode comprovar historicamente. Portanto tenho dúvidas de que o homem vá melhorar. Outra coisa é se o homem aprende com os erros do passado. Por exemplo, vejamos o conflito com a Rússia. Desde o desmoronamento da URSS, que tem sido um desastre, chegaram Yeltsin
 e Putin e depois Putin e mais Putin. O que Putin quer é reconstruir o país que é a Rússia… Putin vê em 88 e 90, quando tudo se desmorona que, apesar das promessas ocidentais, a NATO se aproxima cada vez mais. E há traumas russos, desde Napoleão, desde a II Guerra Mundial, com 27 milhões de mortos quando chegaram os alemães… e agora voltar a ter medo de estarem rodeados pelo inimigo. Não digo que se justifique o que fizeram na Crimeia, é injustificável, mas temos de entendê-lo e é o que temos de fazer, entender a Rússia.
 
P. E não a entendemos.
R. Perdemos a capacidade de entender os erros que temos cometido depois de 1989. Após o desmoronamento da URSS dissolveu-se o pacto de Varsóvia, mas a NATO continuou tão dura como antes. Não houve tentativas sérias de criar uma nova aliança de segurança incluindo a Rússia, e isso são falas tremendas. Promete-se à Ucrânia que fará parte da União Europeia e da NATO e é lógico que um país como a Rússia fique nervoso. Todas essas reacções de Putin 
têm as suas causas e apesar de na Europa estarmos acostumados a colaborar no campo económico e financeiro não conseguimos criar uma política externa comum, embora dependamos demasiado dos desejos dos americanos e os Estados Unidos estão muito longe de nós e do que temos de fazer. Se os republicanos chegam ao poder teremos um novo rearmamento e de repente estará uma potência militar perante a Rússia.
 
P. Criou muitas metáforas. A mais forte foi a de Óscar Matzenrath. Dava a impressão de que essa personagem que não queria crescer nem misturar-se com o mundo adulto hoje também não quer crescer…
R. A diferença entre o século XX e o XXI é que o XX estava caracterizado pelas ideologias, e não só pelo fascismo italiano, pelo nacionalismo alemão ou o comunismo, mas também pelo american way of life e pelo capitalismo dominante. O único que ficou de todas essas ideologias foi o capitalismo e o capitalismo é capaz de mudar. Mas o capitalismo está a autodestruir-se, todas essas quantidades irracionais de dinheiro que passam pelo mundo inteiro já nada têm a ver com a economia real. Esta irracionalidade não estava tão marcada no Século XX…. Óscar seria hoje uma pessoa diferente, teria que lutar contra resistências distintas, e até mover-se-ia em ambientes completamente diversos. No século XX vinha de um ambiente proletário e pequeno-burguês e tinha de reagir. Agora seria um computer freak, um hacker ou coisa no género, e teria de vencer outras resistências.
 
P.: Foi Óscar Matzenrath?
R. Não consegui parar o meu crescimento!
 
P.: Gostaria de não ter crescido?
R. Não, no fundo não… Não sou igual a Óscar, acontece que a figura de Matzenrath tem a sua raiz no picaresco, representa um género de espelho que tem uma lupa capaz de provocar um incêndio, capaz por outro lado de expressar o infantilismo do século XX, de que não queria participar nem defender-me.
 
P.: Trabalha junto de quadros de Goya. Que lhe dá Goya?
R.; Com efeito trabalho tendo por cima de mim uma série de gravuras de Goya. De cada vez que celebro um aniversário importante, dos que vão de 0 a 5, a minha mulher oferece-me uma que ainda se vende no mercado… Para mim é como a medida do artista, o critério da verdade. É de imaginação impressionante, como a demência deste mundo ilustra! Tenho várias gravuras dos Caprichos em que nos mostra que está contra a Inquisição, com a demência da Igreja Católica por um lado e com a vida tal como é por outro… Goya é para mim o grande exemplo, o que me dá a medida de se algo é bom ou mau.   

Tradução: Manuela Antunes 

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