Haiti
Uma revolta popular anti-imperialista

«… Os ventos libertários de 1804 (data da independência do Haiti, 1º país negro independente do mundo) que iluminaram as lutas de independência posteriores…» na realidade começaram em 1794, com a revolta dos escravos e continuaram com sucessos e derrotas até aos nossos dias. No passado dia 7 de Fevereiro de 2016 os haitianos tiveram mais uma vitória – o presidente Michell Martelly foi obrigado a demitir-se. É assim a vida dos povos: quem luta às vezes vence, quem não luta perde sempre…

Puerto Príncipe e outras cidades do Haiti são atualmente cenário da maior revolta popular da martirizada nação haitiana nas últimas décadas. Dezenas de milhares de manifestantes lançaram-se na rua para demonstrar a sua repulsa pelo atual governo presidido por Michell Martelly, que decidiu contra o que pensa a grande maioria manter a data de domingo 24 para a realização de uma “mascarada eleitoral”, tal como a designam os partidos da oposição.

Apesar disso, começou a elevar-se uma gritaria ensurdecedora desde os recantos mais pobres da cidade que inclusivamente invadiu com inusitada violência as ruas residenciais de Petion-Ville: é o povo em toda a plenitude da sua capacidade de resistência fazendo honra às origens independentistas e anti-esclavagistas de 1804, que se pôs de pé para criar uma ofensiva anti-imperialista e escrever nas páginas da sua própria história um descomunal “Basta!”.

• Basta de utilizar o território haitiano como laboratório de invasões por parte dos Estados Unidos e dos seus aliados.

• Basta de tropas invasoras da Minustah (Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti – N.T.), que, muito ao contrário do que dizem os seus promotores quando falam de “ajudar o povo haitiano e exercer uma missão humanitária”, tudo o que deixou pela sua ação foi repressão, ocupação, violação de crianças por parte de soldados treinados para matar e transmissão da cólera, cuja epidemia causou dezenas de milhares de mortos.

• Basta de cumplicidade latino-americana com as tropas invasoras das Nações Unidas.

• Basta de engano e de hipocrisia internacional provenientes das vergonhosas “missões de ajuda”, encabeçadas pelo genocida norte-americano Bill Clinton, que só procuram apertar ainda mais os laços de dependência e dominação do povo haitiano.

É por isso que durante as últimas semanas o Haiti se foi convertendo num cenário claramente pré-revolucionário, produzindo-se nestes últimos dias uma esmagadora revolta popular. Frente à teimosia criminosa de Martelly e seus sequazes de quererem que o ato eleitoral se realize de qualquer maneira e frente à tíbia resposta epistolar dos partidos da oposição (salvo honrosas exceções), milhares de jovens decidiram tomar o futuro nas suas mãos e começaram a percorrer as ruas em grandes vagas, primeiro pacificamente, levando palavras de ordem contra o Conselho Eleitoral e pedindo a renúncia do Presidente. Frente à brutal repressão policial e das tropas da Minustah que foram mobilizadas, começaram a exercer em resposta a lógica e necessária violência popular. Essa mesmo, que quando surge em circunstâncias-limite (e esta, se o era) provoca sempre reações de repúdio nos setores oligárquicos e pequeno-burgueses (incluindo nalguns setores de certa esquerda tola) que não conseguem compreender que a paciência dos povos tem limites muito claros.

No Haiti de hoje, tudo o que o povo fizer em sua autodefesa frente a políticos venais e invasores fardados está mais que justificado.

Os exemplos destas últimas horas são contundentes: estudantes, trabalhadores e lutadores de todas as gerações atravessaram a rua da avenida La Saline e irromperam no bairro Bel-Air e na estrada Delmas aos gritos de “Martelly tem que sair. Nós somos o governo”. Na praça Saint-Pierre, a polícia e não poucos capacetes azuis da Minustah atacaram a multidão com gases, balas de borracha e jactos de líquido irritante da vista e da pele, mas os jovens não cederam e começaram a levantar barricadas e a deitar fogo a pneus nos cortes de ruas. As bombas molotov, as pedras e outros objetos semelhantes eram a resposta à violência dos fardados que converteram em poucos minutos o ambiente irrespirável dos gases num verdadeiro pandemónio. Carros incendiados, sedes do partido oficialista destruídas e o passa-palavra avisando que “ninguém abandona as ruas, somos o poder popular”.

Quando uma quantidade de manifestantes invadiu com os seus cantos e protestos o bastião “martellista” de Petion-Ville, os comerciantes fecharam as portas e alguns energúmenos ligados ao partido de Martelly bateram num jovem, rapidamente defendido por outros, enquanto a fúria popular se libertou com toda a força contra veículos e alguns estabelecimentos oficiais.

Foi nesse preciso momento que una notícia percorreu cada uma das manifestações como um rastilho de pólvora: “o governo decidiu realizar os comícios dia 24 por razões de segurança”. A explosão de alegria ecoou em todo o território e redobraram-se as palavras de ordem exigindo o abandono do cargo por Martelly. “Enquanto não renunciar, ninguém vai para casa”, gritou de repente no tejadilho de um carro um dos lutadores haitianos. E milhares de braços levantaram-se fazendo o V da vitória.

Assim está o panorama por esta altura, apesar do alheamento e da tergiversação mediáticas, num país a que a América Latina e as Caraíbas tanto devem. Entre outras coisas: os ventos libertários de 1804 que iluminaram as lutas de independência posteriores. Agora, o que faz falta é que cada um dos países onde os maus governos impulsionaram a invasão do Haiti com tropas latino-americanas se faça todo o possível para que essa vergonha acabe de vez. E que, em vez disso, as organizações populares do continente aumentem a sua solidariedade concreta com quem nas ruas está lutando por todos os meios ao seu alcance pela independência definitiva.

Tradução: Jorge Vasconcelos

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