Herr Tomás*

Manuel Gouveia    30.Dic.19    Outros autores

Mais uma vez o governo apresenta um OE que não contempla as verbas necessárias à ferrovia portuguesa. Costa e Centeno dizem que são orientações da UE. Uma UE que a Alemanha comanda e que, no seu país, não aplica as regras que manda aplicar aos outros. Aí, investe. Na expectativa de que, mais dia menos dia, se aproprie do que resta em Portugal, onde já controla 33% da Fertagus.

Mais uma vez, o Orçamento do Estado não contempla as verbas necessárias à ferrovia portuguesa. O Governo justifica essa falta de investimento com as orientações recebidas da UE, ou seja, da Alemanha. Mas essas orientações que o Governo português segue tão obedientemente são as mesmas que essa Alemanha olimpicamente ignora.

O Governo português continua a recusar a contratação de trabalhadores para a CP e para a EMEF, empurrando-as para a subcontratação, originando sucessivas supressões, degradando a oferta. Noutra União Europeia, a Alemanha anunciou a contratação, até ao final de 2020, de 50 mil (sim, cinquenta mil) trabalhadores para a Deutsche Bahn (DB), a empresa ferroviária pública alemã.

O Governo português continua a adiar a aquisição de comboios. Tem apenas prevista a aquisição de 22 comboios para o serviço regional e para daqui a quatro anos, enquanto que para o serviço urbano da CP e para o Longo Curso nenhum investimento está previsto. Diz o Governo que mandam as regras da UE, que é preciso poupar no investimento. Noutra União Europeia, o Governo alemão anunciou o investimento de 86 mil milhões de euros na DB, nomeadamente com um audacioso programa de investimento em material circulante produzido na Alemanha.

O Governo português continua a manter a separação entre a exploração e a infra-estrutura ferroviária, porque a tal estará obrigado pela União Europeia (processo que o Governo de Passos Coelho só tornou mais cretino quando fundiu a REFER com a EP). Noutra UE, na Alemanha, a DB, além de operar os comboios, gere a infra-estrutura ferroviária, o transporte de mercadorias (por cá já oferecido a uma multinacional suíça) e transporte rodoviário.
Daqui a uns anos, a DB, que já detém 33% da Fertagus, virá com os seus comboios fazer-nos o favor de explorar os sectores lucrativos que a CP está a ser impedida de assegurar. Tal como um frei Tomás neocolonial.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2404, 27.12.2019

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