Homicídio de massas e psicopatologia

José Manuel Jara*    21.Ago.11    Outros autores

José Manuel JaraO recente assassínio em massa ocorrido em Oslo suscitou diversas explicações “psiquiátricas”. Haverá lugar para uma análise psicopatológica neste caso? Com toda a certeza! Mas tal não significa que se possa abstrair o móbil político e o seu conteúdo.

O caso do homicídio de massas ocorrido na Noruega coloca algumas questões que abrangem uma interdisciplinaridade de saberes, sob pena de se cair numa visão unilateral dos factos.
Comecemos pela abordagem política. Sem qualquer dúvida a violência homicida foi praticada contra alvos políticos, os jovens do Partido Trabalhista da Noruega, e contra os edifícios do Governo do mesmo Partido. O autor confesso dos actos foi um indivíduo que assume uma ideologia nacionalista racista de extrema-direita, identificando-se com formações políticas dessa corrente de vários países da Europa; a sua militância política decorreu num partido norueguês populista de direita ou extrema-direita. O manifesto divulgado pelo assassino informa inequivocamente o carácter ideológico extremista de direita do seu autor, numa linha neonazi, com alguns traços atípicos, como o seu apoio ao sionismo.

Abstrair estes factos, como fazem alguns analistas através de explicações “psiquiátricas” tout court? É o caso de Alberto Gonçalves nas suas crónicas do DN e da Sábado. Com uma visão diferente mas igualmente psiquiátrica procede Eduardo Cintra Torres no Público, citando uma obra de Elias Caneti, “Multidão e Poder”, sobre o tema da “paranóia” e o poder. A possível singularidade do caso, a idiossincrasia aberante do autor dos assassinatos, leva a que possa ser plausível esta abordagem. O psiquiatra Manuel Guerreiro faz uma crónica no Público em que, com toda a prudência, equaciona metodologicamente a possibilidade de uma patologia psiquiátrica no terreno da “paranóia” ou mesmo do “delírio”. Expressões como “insanidade mental”, “loucura homicída”, “a demência do Sr. Breivik”, “desequilíbrio pessoal”, entre outras tentam compreender o autor do crime insólito e atroz, difícil de conceber num país civilizado, com um alto nível cultural e de bem-estar social.

Haverá lugar para uma análise psicopatológica neste caso? Com toda a certeza! Mas tal não significa que se possa abstrair o móbil político e o seu conteúdo. A investigação psiquiátrica é importante, mas deve-se evitar a tendência para despolitizar o processo com uma alegação prévia de “insanidade mental”. O indivíduo autor dos assassinatos tem uma personalidade anormal, em que sobressaem, pela evidência do discurso e dos actos, traços de acentuada megalomania e narcisismo, sentimentos de ódio contra o outro, frieza de afectos, a par de uma elevada capacidade operativa para a violência dirigida a um alvo prédefinido. Podemos considerar que o termo apropriado para uma pessoa assim é que se trata de um tipo de psicopata. Não um “doente mental”, não uma pessoa que sofre de uma “doença mental”.

Paranóia é um termo com vários significados. É bem diferente em termos de responsabilidade a pessoa que sofre de uma psicose paranóide, com sintomas que afectam qualitativamente a possibilidade de um juízo crítico e de um controle racional dos actos, e o indivíduo com uma personalidade paranóica, megalómana, narcísica, cujas ideias sobrevalorizadas fanáticas, com as quais se identifica, o levam a pôr em prática um certo plano.

Mas em que medida ideias marcadas pelo ódio, a desumanidade, a crueldade e a violência alimentam uma personalidade assim, como um “software” ajustado a si? Teremos de considerar que certas ideias são nefastas em grau superlativo, são insanas, tóxicas, e, numa mente fanática podem levar ao crime hediondo como foi o caso. Não há diferença substantiva entre estes actos de um indivíduo e os de grupos como o do 11 de Setembro: o modus operandi mental é idêntico e “eficiente”. O conteúdo é semelhante: assassinato de inocentes como alvo político, executado por fanáticos praticantes de ideologias de um extremismo patológico, cruel e cobarde.

O contexto? Lembremos o “Ovo da Serpente” de Bergman, que retrata o período do nazismo no seu início. O crime como método, a violência total. A questão é essa: o que é singular pode ser colectivo. É possível uma “paranóia” colectiva? A história põe em evidência que sim. A prática de genocídios no período da II guerra mundial foi executada com frieza idêntica ao crime perpetrado por Breivik ou pelos atacantes do 11 de Setembro. E foi decidida e posta em prática pelo estado hitleriano.

Nos tempos que correm há uma atmosfera de violência que contribui para a perturbação psicopática, para semear ódios e estimular mentes perversas. Pensemos no predomínio do culto da violência nos filmes de horror, nos jogos de guerra e violência primária, na banalização da supremacia do agressor cobarde em ambientes escolares e outros, no culto da guerra como solução de conflitos e a sua mediatização espectacular; pensemos na indiferença fria em relação ao destino do Outro, o reacender de racismos e fundamentalismos retrógrados.

Assim, na análise deste caso ou de outros semelhantes há que procurar integrar a informação sobre a personalidade, tanto ao nível do discurso como no plano das acções, com a situação social, política e histórica.

Lisboa, 12 de Agosto de 2011

*Médico psiquiatra

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos