Honduras: o princípio do fim?

Atilio A. Boron*    23.Sep.09    Outros autores

Zelaya regressou às Honduras e está na embaixada do Brasil em Hondurenhos. O governo golpista decretou recolher obrigatório que não foi respeitado pelos milhares de hondurenhos que rodeia a embaixada do Brasil. São as massas mobilizadas nas ruas, não apenas de Tegucigalpa mas em todo o território hondurenho, quem está a impor a normalização constitucional naquele país latino-americano.

Zelaya já está em Tegucigalpa e a sua entrada nas Honduras, ludibriando «as medidas de segurança» colocadas ao longo da fronteira, deverá marcar o começo do fim do regime golpista. São várias as razões que, sucintamente expostas a seguir, fundamentam esta esperança.

Primeiro, porque os gorilas hondurenhs e os seus instigadores e protectores nos Estados Unidos (principalmente o Comando Sul e o Departamento de Estado) subestimaram a massividade, a intensidade e a perseverança da resistência popular que, dia após dia, sem desfalecimentos, manifestou a sua oposição ao golpe de Estado. Na verdade, tamanha rejeição não estava nos cálculos de ninguém, se nos debruçarmos sobre a história contemporânea das Honduras. Mas o novo rumo decidido por Zelaya: a sua positiva resposta às anteriores e sempre preteridas reclamações populares e a reorientação da sua inserção internacional no quadro da ALBA tiveram um efeito pedagógico impressionante e desencadearam uma reacção popular inesperada para todos, os próprios e os outros.

Segundo: o regime golpista demonstrou ser incapaz de romper um isolamento duplo. Na frente interna, ficando cada vez mais evidente que a sua base social de sustentação se reduzia à oligarquia e a alguns grupos subordinados à sua hegemonia, incluindo os meios de comunicação dominados sem contrapeso pelo poder do capital. Além disso, o decorrer do tempo, longe de debilitar a resistência popular o que fez foi isolar cada vez o apoio social ao regime. Internacionalmente, o isolamento de Micheletti e do seu bando é quase absoluto: salvo pouquíssimas excepções toda a América Latina e Caribe retirou os seus embaixadores, e o mesmo fizeram vários dos países mais gravitantes da Europa. A própria OEA adoptou uma linha dura contra o regime e, ao pé coxinho, o único apoio externo com que contava o governo provinha dos Estados Unidos. Este país, no entanto, seguiu uma trajectória declinante que se foi acentuando com o passar do tempo: desde a recusa de vistos ao pessoal diplomático acreditado em Washington até medidas cada vez mais exigentes contra o próprio Micheletti e os seus colaboradores.

Terceiro, porque as ambíguas políticas do governo dos Estados Unidos – fruto da pugna interna dentro da administração – que facilitaram a perpetração do golpe de Estado foram-se definindo lentamente numa direcção contrária aos interesses dos usurpadores. Se a manifestação inicial de rejeição do golpe por Obama foi depois atenuada e moderada pela sua antiga (e actual?) rival, a Secretária de Estado Hillary Clinton, o carácter indisfarçavelmente retrógrado de Micheletti e dos que o cercam, tal como a interminável sucessão de remoques [exabruptos] e insultos a Obama sempre que a Casa Branca expressava alguma crítica a Tegucigalpa e a manifesta incapacidade de criarem uma base social foram, lentamente, inclinando o fiel da balança contra as posições amadrinhadas pela Secretaria de Estado e criando uma atmosfera cada vez mais antagónica para com os golpistas.

Quarto e último: o regime instaurado em 28 de Junho constitui uma série dor de cabeça de Obama. Em primeiro lugar porque desmente enfaticamente as suas promessas de fundar uma nova relação entre os Estados Unidos e os países do hemisfério. O apoio inicial ao golpe, bem evidente na obstinada resistência de Washington em o caracterizar como um «golpe de Estado», a tibieza da resposta diplomática e a indiferença perante as gravíssimas violações dos direitos humanos perpetrada por Tegucigalpa, prejudicou seriamente a imagem que Obama queria estabelecer na América Latina e no Caribe. A continuidade do regime golpista faria aparecer Obama como um político irresponsável e demagógico ou, ainda pior, como alguém incapaz de controlar o que fazem e o que dizem os seus subordinados no Pentágono, no Comando Sul e no Departamento de Estado. E isto liga-se com outro assunto, o segundo, extremamente importante e que excede o quadro da política hemisférica: a sua credibilidade na arena internacional. Ao demonstrar a sua impotência para controlar o que acontece no «quintal das traseiras», os governantes de outros países – particularmente da China, Rússia e Índia – têm razões para suspeitar que também não será capaz de controlar os sectores mais belicistas e reaccionários dos Estados Unidos, para quem as suas promessas de incentivar o multilateralismo equivalem a uma capitulação incondicional perante os seus odiados inimigos. Isto é particularmente grave no momento em que Obama está a negociar com a Rússia um novo acordo de redução do arsenal nuclear de ambos os países, algo que Washington necessita, tanto ou mais que Moscovo, devido à hemorragia económica provocada pelas guerras do Iraque e do Afeganistão e o incontido deficit fiscal norte-americano. O fracasso deste acordo teria um enorme custo económico no orçamento estatal no momento em que esse dinheiro é necessário para afastar os riscos de um aprofundamento da crise económico que rebentou em 2008. Mas para persuadir os russos que o seu plano de redução de armamentos é viável tem primeiro que demonstrar que controla a situação e que os seus falcões no Pentágono não imporão o contrário do que ele diz.Cada dia de permanência de Micheletti no poder equivale a um mês mais de conversações difíceis com Medvedev e Putin e de dificuldades em os convencer que as suas promessas se traduzirão em factos. Porque, se não pode controlar os seus nas Honduras, como poderá fazê-lo quando tratar de uma questão estratégica e vital para a segurança nacional dos Estados Unidos?

Este texto foi publicado em www.rebelión.org

* Atílio Boron é Professor Titular de Teoria Política na Universidade de Buenos Aires e Investigador Superior do CONICET.

Tradução de José Paulo Gascão

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos