Hong Kong, a história que não irá ler

Pino Arlacchi    28.Ago.19    Outros autores

Uma parte da opinião pública já aprendeu a ser céptica em relação aos fluxos de “notícias” transmitidas pelos media dominantes. Mas trata-se infelizmente de uma pequena parte. Tudo o que possa ser feito para contrapor factos concretos às campanhas mediáticas é necessário, sejam elas sobre ”armas de destruição massiva” no Iraque sejam sobre os “combatentes da liberdade” em Hong Kong.

Nunca referir a versão da outra parte no terreno e limitar-se a repetir a mesma história, sem o mínimo aprofundamento, tornaram-se as regras seguidas pelos media dominantes para abordar os factos internacionais. Quer se trate de China, Venezuela, guerras, massacres ou catástrofes, de cada vez que se tem de informar recorre-se a uma fórmula pré-confeccionada. Que coincide regularmente com os interesses dos proprietários dos media, dos governos ocidentais e dos 0,1% que tentam governar as coisas do mundo.

Para quebrar esta corrupção mediática, que retira sentido ao discurso democrático e nos coloca nas mãos de uma plutocracia cada vez mais restrita, precisamos de mergulhar no caos das fontes alternativas de informação ou fundar jornais independentes. Ou ser-se prémio Nobel como Paul Krugman. Que pode permitir-se, nas colunas do New York Times, elencar as formas através das quais os 0,1% distorcem a seu favor as prioridades públicas. E produzem, acrescentamos, a comunicação hiper-simplificada, falsa e omissa da qual somos vítimas. Eis a lista de Krugman: 1) Corrupção hard: suborno em dinheiro de políticos e jornalistas. 2) corrupção soft. Isto é as “portas giratórias” entre governo e negócios, subsídios para périplos de conferências, integração em clubes exclusivos. 3) Contribuições eleitorais. 4) Definição da agenda política através da propriedade dos media e dos think tanks, de modo a fazer prevalecer prioridades que frequentemente são contrárias à razoabilidade e ao bem comum (P. Krugman, NYT 22.6.2019). Quando os 0,1% decidem que um país deve ser atacado - seja porque não tem armas nucleares e é rico em recursos naturais, ou porque está em condições de competir no plano económico e geopolítico, ou porque assume posições hostis à finança neoliberal, ou por um combinação destas razões - um ataque coordenado ao seu governo é desencadeado. As outras prioridades da política externa desaparecem e avança a cruzada mediática. Como vivemos uma época de aversão generalizada à guerra, o pretexto preferido para agredir um país tornou-se o “humanitário” e a “violação dos direitos humanos”.
A corrupção mediática tomou recentemente a China como alvo, através da desinformação sobre os protestos ocorridos em Hong Kong nestas semanas, apresentados como manifestações em defesa das liberdades políticas dos cidadãos face a um tratado de extradição que permitiria à China retirar dissidentes de Hong Kong para os aprisionar na mãe pátria. Nenhuma palavra é desperdiçada para lembrar: A) que Hong Kong faz parte da China, e é uma região com um estatuto especial que voltou a fazer parte da China desde 1997, depois de ter sido por mais de um século uma colónia britânica em resultado das guerras vitoriosas da Grã Bretanha no século XIX, em nome da liberdade de vender ópio aos milhões de toxicodependentes chineses. B) que a China respeitou as instituições democráticas introduzidas em Hong Kong pelos britânicos no último minuto antes da sua partida. C) que a maioria dos eleitores da cidade é pró-China e que os partidos anti-chineses continuam a perder apoio. D) que o tratado diz respeito a crimes comuns com penas superiores a 7 anos de prisão (assassínios, roubos, violações, etc.) punidos em ambos os sistemas. E que exclui qualquer possibilidade de utilização política. E) que a China lamenta o facto de Hong Kong ter assinado apenas 20 tratados de extradição com países estrangeiros e se ter assim tornado num receptáculo da delinquência chinesa e internacional de todos os tipos: de assassinos de alto perfil a contrabandistas, de políticos corruptos a mega-vigaristas financeiros que residem no local preservando os resultados dos seus saques (Hong Kong é ainda um dos maiores paraísos fiscais). A propósito deste último ponto, foi em Hong Kong que, como vice-presidente da Comissão Anti-Máfia, quem escreve estas linhas encontrou em 1995 traços de algum dinheiro depositado em nome de Bettino Craxi. F) que o verdadeiro problema subjacente ao desconforto dos habitantes de Hong Kong é o seu declínio como centro financeiro em comparação com o crescimento impetuoso da mãe pátria e da área vizinha de Shenzhen desde de 1997. Crescimento devido ao desenvolvimento de uma vasta indústria manufactureira que está nos antípodas da finança semi-criminosa de Hong Kong. Largamente superada, entre outras coisas, na sua componente legal, pelas bolsas de valores de Xangai e Guangzhou.
Uma parte dos habitantes de Hong Kong, portanto, cultiva o sonho de um retorno ao passado que preserve um estatuto de nicho financeiro que perdeu relevância para a China. E isso não está de acordo com as políticas de Pequim viradas para favorecer a economia real em detrimento da finança privada. Mas não é uma história fácil de contar. Os 0,1% preferem fazer passar uma história mais expedita, com o tirano Xi Jinping de um lado e os heróis da democracia liberal do outro.

Fonte: http://www.marx21.it/index.php/internazionale/cina/29942-hong-kong-la-storia-che-non-leggerete

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