Imperialismo. A nova geopolítica da energia.

Michael T. Klare*    23.Jun.08    Outros autores

Neste texto, Michael T Klare, analisa os perigos de novas guerras e debruça-se sobre a perigosa e agressiva, mas pouco noticiada, corrida armamentista já em curso. Tudo isto, “num momento em que as reservas mundiais de petróleo, gás natural, urânio e minerais industriais chave, como o cobre e o cobalto, começam a diminuir e a demanda desses mesmos recursos está a crescer, as maiores potências mundiais desesperam por conseguir o controle sobre o que fica das reservas por explorar”.

Os estrategas militares norte-americanos preparam-se para guerras futuras que terão lugar, não por questões de ideologia ou política, mas sim em luta crua por recursos cada vez mais escassos.

Enquanto a atenção diária do exército norte-americano se centra no Iraque e Afeganistão, os estrategas norte-americanos olham cada vez mais para além destes dois conflitos com o objectivo de prever o meio em que se produzirá o combate global nos tempos futuros. E o mundo que vem é um no qual a luta pelos recursos vitais, mais do que a ideologia ou a política de equilíbrio de poder, domina o campo de Marte. Achando que os Estados Unidos devem reconfigurar as suas doutrinas e forças para prevalecer em semelhante configuração, os oficiais mais veteranos dão os passos necessários para melhorar a planificação estratégica e capacidade de combate. Embora muito pouco de tudo isto tenha chegado ao domínio público existe um número de indicadores-chave.

Desde 2006 o Departamento de Defesa, no seu relatório anual Capacidade militar da República Popular da China, colocou ao mesmo nível a competição pelos recursos e o conflito em torno de Taiwan como a chispa que poderia desencadear uma guerra com a China. A preparação de um conflito com Taiwan permanece como «uma razão importante» na modernização militar chinesa, segundo indica a edição de 2008, mas «uma análise das recentes aquisições do exército chinês e do seu actual pensamento estratégico sugere que Pequim está a desenvolver também outras capacidades do seu exército para outro tipo de contingências, como por exemplo o controle sobre os recursos». O relatório considera até que os chineses estão a pensar melhorar a sua capacidade para uma «projecção do seu poder» nas zonas que lhes proporcionam matérias primas, especialmente combustíveis fósseis, e que semelhantes esforços suporiam uma significativa ameaça para os interesses da segurança norte-americana.

O Pentágono este ano também pede fundos para o estabelecimento do Comando África (Africom), o primeiro comando unificado transatlântico desde que em 1983 o presidente Reagan criara o Central Command (Centcom) para proteger o petróleo do Golfo Pérsico. A nova organização centrará os seus esforços supostamente na ajuda humanitária e na «guerra contra o terrorismo». Mas numa apresentação na Universidade Nacional de Defesa, o segundo comandante do Africom, o Vice Almirante Robert Moeller, declarou que a «África tem uma importância geo-estratégica cada vez maior» para os Estados Unidos — o petróleo é um factor chave — e que entre os desafios chave para os interesses estratégicos norte-americanos na região se encontra a «crescente influência na África» da China.

A Rússia também a vê através da lente de competição mundial pelos recursos. Embora a Rússia, ao contrário dos Estados Unidos e da China, não precise de importar petróleo nem gás natural para satisfazer as suas necessidades nacionais, procura dominar o transporte de energia especialmente para a Europa, o que alarmou os oficiais veteranos na Casa Branca que receiam uma restauração do estatuto da Rússia como superpotência e temem que o seu aumento no controle da distribuição do petróleo e do gás na Eurásia debilite a influência norte-americana na região. Em resposta à ofensiva energética russa, a administração Bush está a tomar contramedidas. «Tenho a intenção de nomear… um coordenador especial de energia que dedicará especialmente todo o seu tempo à região da Ásia Central e do Mar Cáspio», informou em Fevereiro a Secretária de Estado Condolezza Rice ao Comité de Assuntos Externos do Senado. «É uma parte verdadeiramente importante da diplomacia». Um dos principais trabalhos deste coordenador, segundo declarou Rice, será o de fomentar a construção de oleodutos e gasódutos que circundem a Rússia com o objectivo de diminuir o seu controle sobre o fluxo energético regional.

Considerados no seu conjunto, estes e outros movimentos semelhantes sugerem que houve um deslocamento da política: num momento em que as reservas mundiais de petróleo, gás natural, urânio e minerais industriais chave como o cobre e o cobalto começam a diminuir e a demanda desses mesmos recursos está a crescer, as maiores potências mundiais desesperam por conseguir o controle sobre o que fica das reservas sem explorar (para mais provas sobre a escassez de combustíveis fósseis, vejamos Klare, «Preparativos para uma vida depois do petróleo,» 12 de Novembro de 2007, e Mark Hertsgaard. «Ficamos sem gasolina», 12 de Maio). Estes esforços implicam geralmente uma intensa guerra de lanços nos mercados internacionais, o que explica os preços recorde que estão a alcançar todas estas mercadorias, mas também adoptam uma forma militar quando começam a realizar-se as transferências de armamento e o multiplicar de missões e bases transatlânticas. Para reafirmar a vantagem dos Estados Unidos — e para deter movimentos semelhantes da China e outros competidores pelos recursos — o Pentágono situou a competição pelos recursos no próprio centro da sua planificação estratégica.

Alfred Thayer Mahan, revisitado

Não é a primeira vez que os estrategas norte-americanos dão a prioridade máxima à luta global pelos recursos. Em finais do século XIX um atrevido grupo de pensadores militares liderados pelo historiador naval e presidente do Colégio Naval de Guerra, Alfred Thayer Mahan, e o seu protegido, o então secretário assistente da Marinha, Theodore Roosevelt, fizeram uma campanha reclamando uma Marinha norte-americana forte e a aquisição de colónias que assegurassem o acesso aos mercados do ultramar e às matérias-primas. Os seus pontos de vista ajudaram pontualmente a fomentar o apoio da opinião pública à Guerra Hispano-americana e, ao conclui-la, ao estabelecimento de um império comercial norte-americano na América Central e no Pacífico.

Durante a Guerra-Fria, a ideologia governou inteiramente a estratégia norte-americana de contenção da URSS e derrota do comunismo. Mas até agora não se abandonaram por completo as considerações sobre os recursos. A doutrina Eisenhower de 1957 e a doutrina Carter de 1980, apesar de se terem acomodado à retórica habitual anti-soviética da época, pretendiam sobretudo assegurar o acesso dos Estados Unidos às prolíficas reservas petrolíferas do Golfo Pérsico. E quando o presidente Carter estabeleceu em 1980 o núcleo do que seria mais tarde o Centcom, a sua principal preocupação era a protecção do fluxo petrolífero do Golfo Pérsico e não a contenção das fronteiras da União Soviética.

Ao terminar a Guerra-Fria, o presidente Bush tratou — e falhou — de estabelecer uma coligação mundial de estados de ideologias afins (uma «Nova Ordem Mundial») que manteria a estabilidade mundial e permitiria aos interesses empresariais (com as companhias norte-americanas à frente) alargar o seu alcance por todo o planeta. Este enfoque, embora suavizado, foi adoptado depois por Bill Clinton. Mas o 11-S e a implacável campanha contra os «estados canalha» (sobretudo contra o Iraque de Saddam Hussein e Irão) da actual administração Bush, reinventou o elemento ideológico à planificação estratégica dos Estados Unidos. Tal como o apresenta George W. Bush, a «guerra contra o terrorismo» e os «estados canalhas» são os equivalentes contemporâneos às anteriores lutas ideológicas contra o fascismo e o comunismo. Examinados mais de perto estes conflitos, no entanto, tornam-se impossíveis de do separar o problema do terrorismo no Oriente Médio ou do desafio do Iraque e Irão da história da extracção de petróleo naquelas regiões, por parte de empresas ocidentais.

O extremismo islâmico do tipo que propaga Osama Bin Laden e Al Queda na região tem muitas raízes, mas uma das mais importantes garante que o ataque ocidental e a ocupação de terras islâmicas — e a resultante profanação das culturas e povos muçulmanos — deve-se à sede de petróleo dos ocidentais «Recorde-se também que a razão mais importante que os nossos inimigos têm para controlar as nossas terras é a de roubar o nosso petróleo, declarou Bin Laden aos seus simpatizantes numa gravação datada de Dezembro de 2004. Portanto façam tudo o que puderem para deter o maior roubo de petróleo da história.»

De modo semelhante, os conflitos dos Estados Unidos com o Iraque e o Irão têm sido modelados pelo princípio fundamental da doutrina Carter de que os Estados Unidos não permitirão o aparecimento de uma potência hostil que possa obter num dado momento o controle do fluxo petrolífero no Golfo Pérsico, e com isso, em palavras do vice-presidente Cheney «ser capaz de ditar o futuro da política energética mundial». O facto de que estes países estão possivelmente a desenvolver armas de destruição massiva só complica a tarefa de neutralizar a ameaça que representam, mas não altera a lógica estratégica subjacente no fundo dos planos de Washington.

A preocupação sobre a segurança da administração de recursos tem sido, assim, uma característica central na planificação estratégica há algum tempo. Mas a atenção que agora se presta a este assunto representa uma mudança qualitativa no pensamento norte-americano só igualável aos impulsos imperiais que levaram à Guerra Hispano-americana há um século atrás. No entanto nesta ocasião o movimento está motivado não por uma fé optimista na capacidade norte-americana para dominar a economia mundial, mas por uma perspectiva francamente pessimista sobre a disponibilidade dos recursos vitais no futuro e a competição intensa que a China e outros motores económicos emergentes realizam por eles. Perante este desafio duplo, os estrategas do Pentágono acham que assegurar a primazia norte-americana na luta pelos recursos mundiais deve ser a prioridade número um da política militar norte-americana.

Regresso ao futuro

Em linha com este novo enfoque, a ênfase coloca-se agora no papel mundial que há-de jogar a marinha norte-americana. Utilizando uma linguagem que teria soado surpreendentemente familiar a Alfred Mahan e ao presidente Roosevelt, a Marinha, os marines e a guarda costeira deram a conhecer em Outubro um documento intitulado Uma estratégia cooperativa para o poder naval no século XXI, que ressalta a necessidade dos Estados Unidos dominarem os oceanos e assegurar as principais rotas marítimas que ligam o país com os seus mercados do ultramar e reservas de recursos.

Nas últimas quatro décadas o comércio marítimo mundial quadruplicou: 90% do comércio mundial e dois terços do petróleo são transportados por mar. As rotas marítimas e a infra-estrutura costeira que as apoiam são a tábua de salvação da economia global actual. Uma expectativa de crescimento cada vez maior e o aumento da competição por recursos unidos à escassez podem ajudar as nações a exercer cada vez mais reclamações de soberania sobre parcelas cada vez maiores do oceano, vias fluviais e recursos naturais, resultando de tudo isso potenciais conflitos.

Para encarar esse perigo, o Departamento de Defesa empreendeu uma modernização actual da sua frota de combate, o que supõe o desenvolvimento e a obtenção de novos porta-aviões, destruidores, cruzadores, submarinos e um novo tipo de nave de «combate litoral» (armamento de costa), um esforço que levará décadas a completar e que consumirá centenas de milhares de milhões de dólares. Alguns dos elementos deste plano foram desvendados pelo presidente Bush e o Secretário de Defesa Gates na proposta de orçamento para o ano fiscal de 2009, apresentada no passado mês de Fevereiro. Dos artigos mais caros do orçamento destacam-se os seguintes:
• 4,2 mil milhões de dólares para a nave principal de uma nova geração de porta-aviões de propulsão nuclear.
• 3,2 mil milhões de dólares para um terceiro missil para o destroyer classe «Zumwalt».
• Estas naves de guerra de camuflagem avançadas servirão também como banco de provas para um novo tipo de míssil cruzeiro, os CG(X),
• 1,3 mil milhões de dólares para as duas primeiras naves de combate litoral.
• 3,6 mil milhões de dólares para um novo submarino classe Virgínia, o navio de combate subaquático mais avançado do mundo, actualmente em produção.
• Os programas de construção naval propostos custarão cerca de 16,9 mil milhões no ano fiscal de 2009, depois dos 24,6 mil milhões de dólares votados para o ano fiscal 2007 e 2008.

O novo enfoque estratégico da Marinha reflecte-se não só na obtenção de novos navios, como também na disposição dos já existentes. Até há pouco a maioria dos activos navais estavam concentrados no Atlântico Norte, o Mediterrâneo e o Pacífico Noroeste em missões de apoio às forças da OTAN norte-americanas e em virtude dos pactos de defesa com a Coreia do Sul e o Japão. Estes vínculos figuram de maneira muito importante nos cálculos estratégicos, mas aumenta cada vez mais a importância da protecção das ligações comerciais no Golfo Pérsico, Pacífico sudoeste e Golfo da Guiné (dos maiores produtores de petróleo em África). Em 2003, por exemplo, o chefe do Comando Europeu dos Estados Unidos declarou que os porta-aviões de combate sob o seu comando estariam menos tempo no Mediterrâneo e a «metade do tempo desceriam a costa oeste da África».

Um enfoque semelhante guia a reestruturação das bases do ultramar, que tinha permanecido em grande medida intacta nos últimos anos. Quando a administração Bush tomou o poder, a maioria das bases principais encontrava-se na Europa ocidental, Japão e Coreia do Sul. Por insistência do então Secretário de Defesa Donald Rumsfeld, o Pentágono começou a transferir forças da periferia da Eurásia para as suas regiões centrais e do sul, especialmente a Europa central e oriental, o centro da Ásia e o sudoeste asiático, assim como no norte e centro da África. É verdade que estas zonas são o lar da Al Qaeda e dos «estados canalhas» do Médio Oriente, mas também têm 80% ou mais de reservas mundiais de gás natural e petróleo, assim como reservas de urânio, cobre, cobalto, e outros materiais industriais cruciais. E como já afirmei antes, é impossível separar um do outro nos cálculos estratégicos norte-americanos.

Outro ponto a levar muito em conta é o plano norte-americano para manter uma infra-estrutura básica para apoiar as operações de combate na bacia do Mar Cáspio e Ásia Central. Os vínculos americanos com estados desta região foram estabelecidos anos antes do 11-S para proteger o fluxo do petróleo do Mar Cáspio para ocidente. Julgando que a bacia do Mar Cáspio seria uma nova fonte valiosa de petróleo e gás natural, o presidente Clinton trabalhou aplicadamente para abrir as portas à participação norte-americana na produção energética da zona, e embora avisado dos antagonismos étnicos endémicos da região, tratou de reforçar a capacidade militar das potências aliadas do local e preparar uma possível intervenção das forças norte-americanas na zona. O presidente Bush redobrou esses esforços, aumentando o fluxo da ajuda militar norte-americana e estabelecendo bases militares nas repúblicas centro-asiáticas.

Uma mescla de prioridades governa os planos do Pentágono para reter uma constelação de bases «duradouras» no Iraque. Muitas dessas instalações serão sem dúvida utilizadas para continuar a dar apoio às operações contra as forças insurgentes, para actividades de inteligência militar e para treino do exército e unidades de polícia iraquianas. Mesmo que todas as tropas de combate norte-americanas fossem retiradas de acordo com os planos anunciados pelos senadores Clinton e Obama, algumas dessas bases seriam com toda a probabilidade mantidas para actividades de treino, que tanto Clinton como Obama afirmaram que continuarão. Por outro lado, pelos menos algumas das bases estão especificamente dedicadas à protecção das experiências de petróleo iraquiano. Em 2007, por exemplo, a Marinha revelou que tinha construído uma instalação de direcção e controle sobre e ao longo de um terminal de petróleo iraquiano no Golfo Pérsico, com o fim de supervisionar a protecção dos terminais de extracção de maior importância na zona.

Uma luta global

Nenhuma outra das principais potência mundiais é capaz de igualar os Estados Unidos na hora de deslocar a sua capacidade militar na luta pela protecção das matérias-primas de vital importância. No entanto, as outras potências estão a começar a desafiar o seu domínio de várias maneiras. A China e a Rússia em especial estão a proporcionar armas aos países em desenvolvimento produtores de petróleo e gás, e estão também a começar a melhorar a sua capacidade militar em zonas-chave de produção energética.

A ofensiva chinesa para ganhar acesso às reservas estrangeiras é evidente em África, onde Pequim estabeleceu vínculos com os governos produtores de petróleo da Argélia, Angola, Chade, Guiné Equatorial, Nigéria e Sudão. A China também procurou acesso às abundantes reservas minerais africanas, perseguindo as reservas de cobre na Zâmbia e no Congo, cromo no Zimbawué e um leque de diversos minerais na África do Sul. Em cada caso os chineses atraíram o apoio desses países provedores com uma diplomacia activa e constante, ofertas de planos de assistência para o desenvolvimento e empréstimos a baixo juro, vistosos projectos culturais e, em muitos casos, armamento. A China é agora o maior fornecedor de equipamento de combate básico para muitos desses países, e é especialmente conhecida pela sua venda de armas ao Sudão, armas que têm sido empregues pelas forças governamentais nos seus ataques contra as comunidades civis do Darfur. De resto, como os Estados Unidos, a China complementou as suas transferências de armas com acordos de apoio militar, o que levou a uma presença constante de instrutores, conselheiros e técnicos chineses na zona, competindo com os seus homólogos norte-americanos pela lealdade dos oficiais militares africanos.

O mesmo processo está a ter lugar em grande medida na Ásia Central, onde a China e a Rússia cooperam sob os auspícios da Shanghai Cooperaion Organization (SCO) para proporcionar armamento e assistência técnica aos «istanes» da Ásia Central (Casaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Taiquistão e Kirguizistão), de novo em competição com os Estados Unidos para conseguir a lealdade das elites militares locais. Nos anos 90 a Rússia esteve demasiado ocupada com a Chechénia para prestar atenção a esta zona, e a China por seu lado, estava concentrada noutros assuntos a que dava mais prioridade, assim Washington desfrutou de uma vantagem temporal. No entanto, nos últimos cinco anos Moscovo e Pequim concentraram os seus esforços para conseguir influência na região. O resultado de tudo isso foi uma paisagem geo-política muito mais competitiva, com a Rússia e a China, unidas através da SCO, ganhando terreno na sua ofensiva para minimizar a influência norte-americana na região.

Uma mostra clara desta ofensiva foi o exercício militar que a SCO levou a cabo no último verão, o primeiro desta natureza, em que participaram todos os estados membros. As manobras envolveram 6.500 membros no total, procedentes do pessoal militar da China, Rússia, Cazaquistão, Kirguisistão, Taiquistão e Uzebequistão, e indicativo dos esforços chineses e russos para melhorar as suas capacidades militares, pondo forte ênfase no que se refere às suas forças de assalto a longa distância. Pela primeira vez, um contingente de tropas chinesas aerotransportadas foi deslocada fora do território chinês, um sinal claro da crescente autoconfiança de Pequim.

Para se assegurar que a mensagem destes exercícios não passasse inadvertida, os presidentes da China e da Rússia aproveitaram a ocasião para organizar uma cimeira da SCO no Quirziguistão e advertir os Estados Unidos (embora não se mencionasse) de que não se permitiriam intromissões de nenhuma espécie nos assuntos da Ásia Central. Na seu apelo a mundo «multipolar», por exemplo, Vladimir Putin declarou que «qualquer tentativa para resolver problemas mundiais e regionais de maneira unilateral será em vão.» Por seu lado Hu Jintao fez notar que «as nações da SCO conhecem com clareza as ameaças que a região enfrenta e devem assegurar a sua protecção por si mesmas».

Estes e outros esforços da China e da Rússia, combinados com a escalada de ajuda militar norte-americana a alguns estados da região, são parte de uma maior, embora ainda oculta, luta pelo controle do fluxo de petróleo e gás natural a partir da bacia do Mar Cáspio para os mercados da Europa e da Ásia. E esta luta, por sua vez, faz parte da luta mundial pelo controlo da energia.

O maior risco desta luta é que algum dia se exceda os limites a competição económica e diplomática e entre em cheio no terreno militar. Não acontecerá, desde logo, porque algum dos estados implicados tome a decisão deliberada de provocar uma guerra contra um dos seus competidores, porque os lideres de todos estes países sabem de certeza que o preço da violência é demasiado elevado tendo em conta o que obteriam de outro modo. O problema, é, pelo contrário, que todos eles estão a tomar parte em acções que fazem com que o começo de uma escalada involuntária seja cada dia mais plausível. Estas acções incluem, por exemplo, a deslocação de um número cada vez maior de conselheiros e instrutores militares americanos, russos e chineses, em zonas de instabilidade nas quais se possam ver presos algum dia em lados opostos em conflito.

O risco é ainda maior se levarmos em conta que a produção intensificada de petróleo, gás natural, urânio e minerais é já em si mesmo uma fonte de instabilidade, que actua como um imã para as entregas de armamento e a intervenção estrangeira. As nações implicadas são quase todas elas pobres, portanto quem controlar os recursos controlará as únicas fontes seguras de abundante riqueza material. Esta situação é um convite à monopolização do poder para que as elites cobiçosas empreguem o seu controle sobre o exército e a polícia para eliminar os seus rivais. O resultado de tudo isso, é, quase sem excepção, o da criação de uma camarilha de capitalistas instalados no poder que utilizam com brutalidade as forças de segurança e acabam rodeados por uma massa ingente de população desafecta e empobrecida, a miúdo pertencente a um grupo étnico diferente, um caldo de cultivo idóneo para os distúrbios e a revolta. Esta é hoje a situação na zona do delta do Níger na Nigéria, no Darfur e no sul do Sudão, nas zonas produtoras de urânio do Níger, no Zimbabué e na província de Cabinda de Angola (em que se encontra a maior parte do petróleo do país) e muitas outras zonas que sofrem o que se denominou já como a «maldição dos recursos».

O perigo encontra-se, deve dizer-se, em que as grandes potências se vejam imersas nestes conflitos internos. Não se trata de nenhum cenário extemporâneo: Estados Unidos, Rússia e China estão a proporcionar armamento e serviços de apoio militar às facções de muitas das disputas anteriormente mencionadas: os Estados Unidos estão a armar as forças governamentais da Nigéria e Angola, a China proporciona ajuda às forças governamentais no Sudão e no Zimbabué, o mesmo acontecendo com o resto dos conflitos. Uma situação inclusivamente mais perigosa é a que existe na Geórgia, onde os Estados Unidos apoiam o governo pro-ocidental do presidente Mijail Saakashvili com armamento e apoio militar, enquanto a Rússia dá o seu apoio a legiões separatistas de Abkazia e Ossétia do Sul. A Geórgia joga um papel estratégico importante para os dois países porque alberga o oleoduto Baku-Tbilisi-Cheyan (BTC), um conduto apoiado pelos Estados Unidos que transporta petróleo do Mar Cáspio para os mercados ocidentais. Actualmente há conselheiros e instrutores militares norte-americanos e russos nas duas regiões, nalguns casos têm até contacto visual uns com os outros. Não é difícil, portanto, conjecturar um cenário no qual um choque entre as forças separatistas e a Geórgia conduza, queira ou não, a um choque entre soldados russos e americanos, dando lugar a uma crise muito maior.

É essencial que a América inverta o processo de militarização da sua dependência da energia importada e diminua a sua competição com a China e a Rússia pelo controle de recursos estrangeiros. Fazendo-o, poderia canalizar o investimento para as energias alternativas, o que levaria a uma produção energética nacional mais efectiva (com uma descida de preços a longo prazo) e uma fantástica oportunidade para reduzir a alteração climática.

Qualquer estratégia tendente a reduzir a dependência da energia importada, especialmente o petróleo, deve incluir um aumento do gasto em combustíveis alternativos, sobretudo, fontes renováveis de energia (solar e eólica), a segunda geração de biocombustíveis (feitos a partir de vegetais não comestíveis), a gaseificação do carbono capturando as partículas de carbono no processo (de modo a que nenhuma dioxina de carbono escape à atmosfera, contribuindo para o aquecimento do planeta) e células de combustível de hidrogénio, juntamente com transportes públicos avançados. A ciência e a tecnologia para aumentar esses avanços encontra-se já disponível na sua maior parte, mas não as bases para conduzi-la do laboratório ou da etapa de projecto-piloto para o seu desenvolvimento completo. O desafio é, então, o de reunir os milhares de milhões – talvez biliões — de dólares que são necessários para isso.

O principal obstáculo a esta tarefa hercúlea é que a sua principal razão de ser se encontra em princípio com o gasto enorme que supõe a competição militar pelos recursos do ultramar. Pessoalmente calculo que o custo actual de impor a doutrina Carter se encontra entre os 100 e os 150 mil milhões de dólares, sem incluir a guerra no Iraque. Estender essa doutrina à bacia do Mar Cáspio e África somará mais milhares de milhões à conta. Uma nova guerra-fria com a China, com a sua correspondente carreira armamentista naval, requererá biliões em gastos adicionais militares nas próximas décadas. Uma loucura: o gasto não garantirá o acesso a mais fontes de energia, nem tornará mais barato o preço da gasolina para os consumidores, nem desanimará a China na sua busca de novas fontes de energia. O que realmente fará será reduzir o dinheiro que necessitamos para desenvolver fontes de energia alternativas com que conjurar os piores efeitos da mudança climática.

Tudo isso nos leva à recomendação final: mais do que embarcarmos numa competição militar com a China, o que deveríamos fazer era cooperar com Pequim no desenvolvimento de fontes de energia alternativas e sistemas de transporte mais eficazes. Os argumentos a favor da colaboração são enganosos: calcula-se que juntos, os Estados Unidos e a China, consumirão 35% das reservas mundiais de petróleo para 2025, a maior parte do qual terá de ser importado de estados disfuncionais. Se, como se prediz amplamente, as reservas mundiais de petróleo comecem a diminuir, os nossos países estarão encerrados numa luta perigosa pelos recursos cada vez mais limitados a zonas cronicamente instáveis do mundo. Os custos disso, em termos de uns desembolsos militares cada vez maiores e uma inabilidade manifesta para investir em projectos sociais, económicos e ambientais que mereçam realmente a pena, serão inaceitáveis. Razão de mais para renunciar a este tipo de competições e trabalhar juntos com o desenvolvimento de alternativas ao petróleo, nos veículos eficientes e outras inovações energéticas. Muitas universidades e corporações chinesas e norte-americanas começaram a desenvolver projectos conjuntos dessa natureza, portanto não deveria ser difícil prever um regime de cooperação ainda maior.

À medida que se aproximam as eleições de 2008, abrem-se dois caminhos perante nós. Um leva-nos a uma maior dependência dos combustíveis importados, uma militarização crescente da nossa relação de dependência do petróleo estrangeiro e uma luta prolongada com outras potências pelo controle das maiores reservas existentes de combustíveis fósseis. A outra leva a uma dependência atenuada do petróleo como fonte principal dos nossos combustíveis, ao rápido desenvolvimento de alternativas energéticas, um perfil baixo das forças norte-americanas no estrangeiro e à cooperação com a China no desenvolvimento de novas opções energéticas. Raras vezes uma eleição política teve maior transcendência para o futuro do nosso país.

* Michael T. Klare é professor na Universidade de Hampshire.

Este artigo foi publicado em http://www.socialismo.o.barbarie.org/

Tradução de Manuela Antunes

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