PS – a caminhada acelerada para o declínio

José Paulo Gascão    17.Jul.09    Colaboradores


“A integração sistémica nas ditaduras da burguesia de fachada democrática de partidos que se fundaram e têm a sua razão de existência no combate ao sistema, provoca o desencanto e o desinteresse das classes trabalhadoras da sua base social de apoio, transforma-os em mercadoria descartável pelo grande capital, por inúteis e imprestáveis, para a defesa dos seus interesses. Os resultados das últimas eleições europeias comprovaram isso mesmo”.

A apresentação no passado dia 30 de Junho de Ben Self e Dan Thain como «os “cérebros” da campanha on-line [rede Internet] do Presidente norte-americano Barack Obama» «(n)um colóquio do PS» para «discutir a democracia interactiva, num seminário organizado (…) por um portal do PS», é o deslumbramento saloio duma mentalidade de paróquia.

A vinda dos gurus estadunidenses foi o coelho tirado da cartola do deficit cultural de Sócrates com o objectivo de cimentar as fissuras aparecidas no PS, por a classe trabalhadora da base social de apoio do partido não encontrar já argumentos que justificassem a incondicional rendição do PS à política de direita e ao capitalismo neoliberal. Um dos exemplos flagrantes é a contestação interna à imposição da candidatura fantasma de Elisa Ferreira, que começou muito antes da derrota do PS nas eleições para o Parlamento Europeu (PE).

A perda de 565.936 votos, menos 37,4% dos votos que os obtidos nas anteriores eleições para o PE!, e o facto de pela primeira vez o PS ficar abaixo do milhão de votos desataram as críticas internas. As deputadas Leonor Coutinho e Sónia Sanfona, candidatas respectivamente às Câmaras de Cascais e Alcobaça, são um dos exemplos do impensável há dois meses: criticaram a falta de lisura de Sócrates e da direcção do PS por terem «mudado as regras a meio do jogo».

Diferentes na sua origem são as razões de Manuel Alegre nas críticas a Sócrates e à direcção do PS. Homem da confiança de Mário Soares na cruzada contra-revolucionária, foi por este encarregue dos contactos com o conspirador António Spínola, tarefa que terá desempenhado a contento. Lançado pelo cambalacho entre Mário Soares e Sócrates como lebre na corrida presidencial de 2006, Alegre multiplicou-se em contactos exploratórios que o cobriram de ridículo. Sentiu-se usado. Com 75 anos em 2011, as próximas eleições serão o limite para tentar o sonho, daí as pontes lançadas num e noutro sentido e o seu último apelo a um despertar do PS. Não são de fundo nem ideológicas as razões que o afastam de Sócrates, são razões mais prosaicas, como o comprovam os últimos 33 anos da sua vida política.

Já não é a perda da maioria absoluta que permitiu a Sócrates terminar a fusão ideológica PS com a direita nem a rendição incondicional ao neoliberalismo, é o futuro político de José Sócrates e o futuro do PS que estão em causa. Cumprido o serviço e num processo de esvaziamento das classes trabalhadoras na sua base social de apoio, que utilidade tem Sócrates e este PS para o grande capital?

Numa sociedade de classes, a renúncia a princípios identitários, ou tidos pelas massas como tal, conduz sempre à perda de confiança do essencial da base social de apoio, como ficou comprovado com os partidos comunistas que na Europa aderiram ao chamado «eurocomunismo», e com os partidos socialistas europeus, nomeadamente o italiano, francês e o social-democrata alemão. Na Europa, por terem sido os únicos que resistiram e preservaram as suas razões identitárias, apenas três partidos comunistas com influência nas massas sobrevivem, o AKEL de Chipre, o grego (KKE) e o português. O KKE, partido que privilegia a luta de massas e considera o parlamento e outras estruturas de diferentes níveis de poder como tribunas da luta de classes, também viu nas últimas eleições europeias premiado o seu combate: obteve 428.238 votos, o que representa naquele país de 11,2 milhões de habitantes a percentagem de 8,35% dos votos expressos.

A integração sistémica nas ditaduras da burguesia de fachada democrática de partidos que se fundaram e têm a sua razão de existência no combate ao sistema, provoca o desencanto e o desinteresse das classes trabalhadoras da sua base social de apoio, transforma-os em mercadoria descartável pelo grande capital, por inúteis e imprestáveis, para a defesa dos seus interesses. Os resultados das últimas eleições europeias comprovaram isso mesmo.

Sócrates, zurzido pelos resultados eleitorais para o Parlamento Europeu, não aguentou o embate. Incapaz de compreender a fuga de votos um pouco para a direita assumida e fundamentalmente para a esquerda, passado que foi um breve período de desorientação e nervosismo, entrou em campanha eleitoral. Não podendo apresentar como credencial os últimos 51 meses de governação, regressou ao discurso do futuro radioso que o PS irá proporcionar…

A crise interna e internacional, o crescente desemprego que em breve atingirá os dois dígitos (só o contabilizado pelo INE), o caos que semeou com desvelo no ensino público, o deficit orçamental, a Dívida Externa Líquida que passou de 92.205,3 milhões de euros (64% do PIB) em 2004 (Sócrates tomou posse em 12 de Março de 2005) para 164.689 milhões de euros (100,6% do PIB) em fins de Março de 2009, tudo é relegado para um passado que pretende apagar da memória dos portugueses.

Se Guterres na noite da sua vitória eleitoral apresentou o publicitário brasileiro que lhe dirigiu a campanha como «o homem que ganhou as eleições», Sócrates sabe que não pode fazer o mesmo com Ben Self e Dan Thain. O PS caminha aceleradamente para a derrota.

O que importa agora é diminuir o impacte dos estilhaços.

Lisboa 13 de Julho de 2009

Este texto foi publicado no Jornal do Fundão nº 3.283 de 16 de Kulho de 2009

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