Informação e Desinformação

Correia da Fonseca*    30.May.10    Colaboradores

“… É pelo menos um pouco em termos de catástrofe simultaneamente temida e desejada que as estações tratam a crise e os seus efeitos presentes e futuros. O governo já uma ou outra vez fez sentir que não gosta disso, que assim os media lançam o óleo do pessimismo sobre a fogueira das realidades já em brasa, mas quem é que dá importância ao que o governo diz?”

O tema permanente, espécie de cinzento pano de fundo de toda a informação televisiva, continuou a ser, é certo, a crise económico-financeira que persiste.

Não por ser mundial, mas por também nos ferir: apesar de tudo, no plano da mundialização o que mais continua a apaixonar as estações portuguesas de televisão é a cada vez mais próxima realização do Mundial de Futebol. Se não, repare-se: estava a decorrer em estúdio uma interessante conversa acerca das ameaças que a crise implica para cada cidadão quando o programa teve de ser interrompido para dar lugar a uma ligação directa ao exterior. Era Cristiano Ronaldo que chegava, não a descer das nuvens montado num cavalo branco, como bem se podia esperar, mas em helicóptero especialmente fretado, o que nos tempos actuais deve ser o equivalente do antigo mito.

Mas a crise continua lá, como tema praticamente constante por todas as razões óbvias e também pelo fascínio que sempre a TV tem por todas as desgraças.

Com razão ou sem ela, diz-se que a felicidade não tem história, isto é, não dá para em torno dela tecer enredos e sustos que mobilizem as atenções, ao passo que não há nada como uma boa catástrofe para gerar as grandes audiências com que todos os canais sonham. Assim, é pelo menos um pouco em termos de catástrofe simultaneamente temida e desejada que as estações tratam a crise e os seus efeitos presentes e futuros. O governo já uma ou outra vez fez sentir que não gosta disso, que assim os media lançam o óleo do pessimismo sobre a fogueira das realidades já em brasa, mas quem é que dá importância ao que o governo diz?

A crise continuava, pois, lá, na TV. Porém, na passada semana um outro assunto irrompeu com força nos telenoticiários e seus anexos: o PCP anunciara que ia apresentar na Assembleia da República uma moção de censura ao governo. Veio a informação e naturalmente vieram os comentários, todos ou quase todos desfavoráveis, tanto e de tal modo que não dei por nenhum que não o fosse. O governo e o Partido Socialista não gostaram, decerto pela razão primaríssima de ninguém gostar de que digam mal de si, isto na vida política como fora dela. Os outros partidos em geral, não o Bloco que se coibiu de comentários, reprovaram a anunciada iniciativa porque isso do Partido Comunista apresentar uma moção de censura era uma disparatada inutilidade, sendo bem sabido que o governo não seria derrotado por essa via.

Os comentadores e analistas rigorosamente independentes que, como se sabe, abundam às mãos-cheias na televisão portuguesa, viram na apresentação da moção uma prova mais de que o PCP está ferido de total irrealismo. Se perguntado, o que aliás não ocorreu, talvez o engenheiro Sócrates respondesse que os comunistas continuam em 1917, como dias depois disse na AR, não lhe ocorrendo nesse caso que a Revolução de Outubro foi um pouco mais que uma moção de censura. E, com tudo isto, a moção antecipadamente condenada à inutilidade foi muito falada na TV durante dias seguidos.

Percebeu-se então que o Partido Comunista Português existe. Afinal. A questão era inegável: se a TV falava dele, era porque existe. Bem se sabe, pois até é uma antiga sabedoria cujo âmbito se alarga muito para lá das nossas fronteiras, que para o cidadão/telespectador comum só existe o que “passa” na TV e o resto não existe. Ora, a televisão portuguesa fala tão pouco do PCP (como aliás foi em tempos honestamente confirmado perante as câmaras por Augusto Santos Silva) que é como se ele não existisse pelo menos como partido político aceitável e respeitável como qualquer outro, não como um minguado grupo de amigos só caracterizado por extravagâncias e maus costumes.

Por acaso, a gente do PCP até tem a mania do trabalho, o hábito de fazer coisas, de promover realizações não só de natureza política mas também de ordem cultural. Mas, pelos vistos, as estações portuguesas de televisão não sabem de nada, e por isso a generalidade dos portugueses também fica sem saber. O mesmo é dizer que o PCP fica sem existir. Por vezes, nos tais eventos promovidos pelo PCP, até aparecem equipas de reportagem que gravam imagens e sons mas que, ao que tudo indica, perdem tudo isso no caminho de regresso, e lá fica o PCP na condição de inexistente. Ora, foi neste quadro que, durante uns dias e depois na cobertura televisiva do debate parlamentar, o PCP apareceu a existir. A sério.

A ter voz, imagem, argumentos, razões ou sem-razões. E não era milagre, era apenas a apresentação de uma moção de censura.


* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info.

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