Ingerência externa na Guiné-Bissau*

Carlos Lopes Pereira    21.Mar.20    Colaboradores

A situação na Guiné-Bissau é grave: fortes indícios de fraude eleitoral; tomada de posse - a golpe - de um presidente enquanto decorre novo apuramento dos votos; papel activo da tropa no golpe; ingerência externa e interesses internos convergindo na acção inconstitucional. Para o PAIGC, o que está em marcha é um plano «de ocupação e exploração» do país.

Há «grandes interesses externos», associados a «ganâncias internas», numa «coligação terrível» para controlo dos recursos da Guiné-Bissau, afirma o líder do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

Numa carta aos seus compatriotas, Domingos Simões Pereira denunciou, em torno das recentes eleições presidenciais no país, a existência de «compra da consciência dos guineenses», organização de fraude eleitoral e corrupção da cúpula militar.

O dirigente guineense explica que foram mobilizadas na África Ocidental «somas colossais de dinheiro» para garantir a vitória de Umaru Sissoko Embaló mas que, como os resultados nas urnas ficaram «aquém do necessário», recorreu-se à fraude eleitoral para «assegurar que a Comissão Nacional de Eleições (CNE) divulgasse números convenientes».

Apesar disso, pormenoriza, na operação de fraude foram cometidos erros que, constatados pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ), estiveram na base da decisão daquele órgão de mandar realizar um novo apuramento dos votos da segunda volta eleitoral, decisão essa que, se fosse cumprida, levaria «à descoberta sem equívocos da verdade eleitoral».

A crise política na Guiné-Bissau, recorrente nos últimos anos, agravou-se depois de Embaló, dado como vencedor das eleições pela CNE, ter tomado posse como presidente da República quando ainda decorre um recurso no STJ, apresentado pela candidatura de Domingos Simões Pereira, que alega graves irregularidades no processo.

Empossado num hotel de Bissau pelo vice-presidente da Assembleia Nacional Popular, Nuno Nabian, seu aliado, Embaló nomeou-o horas depois primeiro-ministro – numa cerimónia apoiada pelas cúpulas militares do país –, após demitir do cargo Aristides Gomes, que liderava o governo constitucional.

O golpe de força consumou-se com tropas guineenses a ocupar e encerrar a rádio e a televisão, ministérios e outras instituições do Estado. Apesar das evidências, Embaló diz que não houve golpe de Estado no país, que não foram impostas restrições aos direitos e liberdades dos cidadãos e que aguarda pela decisão do (STJ).

Para Domingos Simões Pereira, o único caminho a seguir é o da «indignação geral e contundente contra o golpe de Estado e alteração da ordem constitucional por vias antidemocráticas, exigindo o respeito pela nossa soberania e independência».

Pede aos guineenses que se indignem contra os planos de «ocupação e exploração» da Guiné-Bissau por «forças estrangeiras movidas por intenções contrárias à vontade e interesse» do povo. Noutras ocasiões, Embaló tem sido acusado de ser apoiado pelo presidente Macky Sall, do Senegal, país vizinho da Guiné-Bissau, com o qual manteve no passado divergências sobre a definição das fronteiras marítimas para a exploração petrolífera offshore.

O líder do PAIGC critica «a inoperância da comunidade internacional que assobia para o lado e tenta nos embalar com discursos desviados de objetividade e firmeza, esperando que o tempo trate do resto».

De facto, sem grandes resultados, organizações como a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), as Nações Unidas, a União Europeia e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) têm apelado, em vão, ao diálogo e ao cumprimento da Constituição do país.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2416, 19.03.2020

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