Inicia-se o diálogo sirio-saudíta sob mediação russa

Yusuf Fernandez    13.Ago.15    Outros autores

Parecem estar a desenvolver-se nos últimos meses iniciativas diplomáticas que visam o estabelecimento do diálogo entre vários países do Médio Oriente. Podem ou não ter sucesso. Mas representam um sinal positivo, sobretudo no sentido de abrir a possibilidade de contrariar o rumo caótico que o imperialismo tem tentado impor na região.

Tiveram lugar nos últimos dias vários acontecimentos relativos à crise síria que indicam uma aceleração dos contactos, entre os países da região e fora de ela, para procurar alcançar uma solução política para o conflito.

Estes contactos tiveram começo no passado 19 de Junho com a visita do filho do rei saudita, Mohammad bin Salman, que ocupa os cargos de ministro da Defesa e de segundo príncipe herdeiro, a Moscovo. Esta visita teve lugar no contexto de uma agudização do conflito do Iémen, que se converteu num perigoso e ruinoso atoleiro para os sauditas.

Ao mesmo tempo, alguns peritos aperceberam-se de uma progressiva perda de controlo por parte da Arabia Saudita dos terroristas que tem patrocinado na Síria, Iraque e outros países. Existe também um alto nível de frustração entre os líderes sauditas perante o fracasso dos seus planos no sentido de derrubar o governo do Presidente Bashar al Assad.

Este foi o momento escolhido pelo Presidente russo, Vladimir Putin, para promover o seu ponto de vista para uma solução global dos conflitos na região.
Putin confirmou a Bin Salmán o firme apoio da Rússia à Síria sob a liderança de Bashar al Assad e explicou-lhe como vê a realidade sobre o terreno na Síria, onde o Exército sírio mantém uma clara vantagem no campo de batalha. O presidente russo afirmou a existência de um triângulo de segurança saudita-sírio-egípcio e disse que se os terroristas conseguirem rompê-lo, invadirão toda a região e atingirão a Europa e a Asia Central. No final do encontro, o príncipe saudita expressou a sua aprovação a uma iniciativa russa para mediar entre Riad e Damasco.

Dez dias mais tarde, a 29 de Junho, teve lugar a visita a Moscovo do ministro sírio de Exteriores, Walid Muallim, do seu adjunto Faisal al Mekdad e da conselheira de imprensa do presidente Assad, Buzaina Shaaban. Foi nessa ocasião que Putin falou de uma colaboração entre os países da região, incluindo Arabia Saudita, contra o terrorismo. A delegação síria não ocultou a sua surpresa. A questão levou Muallim a dizer que para tal se precisaria de um “milagre”.

Mas Putin insistiu em que esta solicitação fosse transmitida ao seu homólogo sírio. Apenas três pessoas estavam ao corrente do assunto: Assad, Muallim e o chefe da Segurança Nacional da Síria, major general Ali Mamluk.

Segundo o jornal Al Akhbar, os serviços de informações russos foram encarregados de comunicar com Mamluk, a quem expressaram o interesse dos sauditas na realização de um encontro. Estes últimos apenas enunciaram uma condição: que a reunião tivesse lugar em Riad, algo que Damasco não rejeitou.

Ao cabo de algumas semanas, Mamluk viajou a Riad a bordo de um avião russo e ali reuniu-se com Bin Salmán na presença do chefe do serviço de Informações saudita, Saleh al Hamidan.

Al Akhbar referiu que um responsável russo abriu o encontro pronunciando um discurso sobre a conjuntura na região, o perigo do terrorismo e a necessidade de o confrontar.

Mamluk tomou a palavra a seguir. Assinalou que o terrorismo é uma ameaça para toda a região e se aproxima do território saudita.
Atribuiu também à Arabia Saudita e outros países a inteira responsabilidade pelo que se passa na Síria, pelo seu apoio ao terrorismo e seu financiamento do mesmo, e acusou o regime saudita de haver incitado a deserções no Exército sírio. Lamentou a alteração verificada na política da Arabia Saudita relativamente a épocas passadas e que este país tivesse seguido a via do Qatar, cujo papel tem sido totalmente destrutivo em países como Tunísia, Líbia, Egipto e outros estados.

A situação do Exército sírio melhora sobre o terreno e ninguém, nem sequer a Arabia Saudita, espera agora poder conseguir o derrubamento do Presidente Assad. Deste modo, o terrorismo obriga agora todos os países a colaborar frente ao inimigo comum, referiu Mamluk, que concluiu manifestando a sua esperança numa mudança de postura por parte da Arabia Saudita.

O príncipe herdeiro pareceu convencido, embora o lamentasse, de que o regime sírio vai perdurar. Isto animou o visitante a propor-lhe um encontro com um alto responsável sírio, algo que Bin Salmán pareceu aceitar.

Por sua parte, Ben Salman disse que o problema da Arabia Saudita com a Síria é que este país “tem marchado durante muito tempo atrás do Irão, contra quem mantemos uma grande confrontação a nível da região, e faz parte da aliança iraniana”. “No Líbano, haveis seguido o Hezbollah, que gravita na órbita do Irão e controla o Líbano para  fazer com que este país se converta num protectorado iraniano”, afirmou Bin Salmán. Desejou, todavia, que o seu encontro com Mamluk fosse “um preludio” e que “nos escutemos uns aos outros”.

Os dois protagonistas estiveram de acordo em prosseguir os contactos, embora sem designar de momento nenhum representante para esse fim.
Na semana passada, uma delegação dos Emiratos Árabes Unidos visitou Damasco, no que parece ser a primeira reactivação dos canais de contactos entre os governos sírio e emiratiano desde há quatro anos. Parece também, segundo Al Akhbar, que Mamluk visitou varias vezes Abu Dhabi nestas últimas semanas e tem recebido numerosos visitantes dos EAU em Damasco.

Encontro em Mascate

O passo seguinte parece agora ser um encontro tripartido em Mascate, capital de Omã, entre os ministros de Exteriores da Síria, Walid Muallim; Irão, Mohammad Yavad Zarif e Arabia Saudita, Adel al Yubeir.

Os sírios estão convencidos de que a Arabia Saudita tem mais necessidade de tais contactos do que a Síria. Neste sentido, Muallim pôs como condição para a Síria aceitar o encontro de Mascate que este seja público e que mostre a vontade dos sauditas em deter o seu apoio ao terrorismo a vários níveis. Por seu lado, a parte síria parece disposta a transmitir aos sauditas informação pertinente relativa à segurança no seu país.

O Irão, por seu lado, apoia esta iniciativa e está interessado em propor a criação de um Grupo de Soluções para a região com o fim de lutar e eliminar o terrorismo na mesma e procurar soluções pacíficas para os conflitos.

Neste contexto também, o chefe dos Serviços de Informações da Arábia Saudita poderia visitar Damasco em finais de Agosto, segundo fontes bien informadas.

Não resta dúvida de que uma das razões da visita será a de obter informação sobre os sauditas que actuam na Síria. Mais de 200 deles estão encarcerados pelas autoridades sírias e outros 700 juntaram-se aos grupos militantes que lutam contra o Exército.

Todos estes esforços diplomáticos poderão ou não ter êxito. Entretanto, parece que os norte-americanos e europeus deixaram nas mãos da Rússia os esforços de mediação entre sauditas, por um lado, e sírios e iranianos, por outro. Neste contexto, espera-se antes do fim do ano a visita a Moscovo do rei saudita, Salman bin Abdulaziz al Saúd. Isto é visto como ainda outro esforço suplementar da Rússia para favorecer o processo de acordos políticos na região.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos