Inteligência e vontade para avançar

Marcos Domich*    11.Feb.11    Colaboradores

Marcos DomichSão muitas as dificuldades que principalmente o experiente imperialismo e também a derrotada direita e conservadorismo colombianos colocam ao processo de mudanças em curso na Bolívia. E a resposta nem sempre é a mais adequada, por falta de uma direcção política unificada do processo de mudanças em curso.

“Só uma direcção político-partidária, um centro com métodos partidários, isto é uma vanguarda política - não falamos de unicidade partidária, mas de uma conjunção baseada num programa - é capaz de redireccionar o processo e torná-lo na revolução que construa uma nova ordem social. Nisto não nos move nenhum exclusivismo vanguardista e negador do enorme potencial revolucionário das organizações sociais orientadas com métodos, disciplina e concepção científica.”

A aprovação do Decreto nº 748 em 26 de Dezembro passado e a sua ulterior derrogação em 30 do mesmo mês, quatro dias depois da sua publicação, foi um dos erros mais graves do governo de Evo Morales. O decreto - com o objectivo de nivelar o preço de alguns hidrocarbonetos (gasolina e diesel), através da supressão das subvenções como forma de evitar o contrabando - provocou uma enorme perturbação económica e social e uma grande movimentação da situação política do país. É óbvio que o decreto foi inoportunamente aprovado, sem qualquer preparação e ignorando a reacção dos cidadãos que, se houvesse memória, se sabia ter de rebenta.

O decreto tinha boas intenções e fundamentos sérios. É verdade que o Estado perdia muito dinheiro com os hidrocarbonetos contrabandeados para os países vizinhos. Mas o decreto teve muitos efeitos indesejáveis. A economia em geral, mas também a economia popular foram abaladas. Deu-se uma alta dos preços, sobretudo dos artigos de primeira necessidade e, apesar das tentativas de voltar aos níveis anteriores, isso não se verificou. Por outro lado, não escondemos que essa alta dos preços é fruto do açambarcamento e da especulação que, lamentavelmente, são uma conduta «normal» que circula até entre os pequenos comerciantes. Hoje, é pacífico que isso é estimulado pelos grandes empresários produtores desses artigos, como aconteceu com o açúcar que é preferencialmente exportado, o que provocou já a quase duplicação do seu preço no consumidor. A tudo isto, há que acrescentar o nefasto papel dos meios de comunicação nas mãos da direita. Acenam com a vaga altista para alarmar a população.

Outro efeito negativo é carência de determinados produtos, o que também contribui para aumentar o trabalho precário e o desemprego. Um factor externo que está a turvar o horizonte é este ser um ano difícil, de acordo com as previsões feitas para os produtos de primeira necessidade. A Bolívia tem uma insuficiente produção de graníferos, produtos lácteos e outros, o que afectará muito os bolsos do consumidor popular.

Ocorrerão reacções populares. Obviamente, à margem das reacções que poderão ser espontâneas e compreensíveis, está a acção da direita, da oligarquia e do imperialismo. Este, sobretudo este, tem organismos de propaganda e inteligência experimentados na montagem de provocações, cuja finalidade é apenas a indispor a população contra o governo, estimular a desordem e até o vandalismo.

Também se não pode ignorar que estas acções aparecem num contexto internacional. Onde quer que existam governos populares e revolucionários ou simplesmente progressistas e insubmissos observa-se este tipo de acções. É cada vez mais perceptível a presença e a acção de órgãos de espionagem do imperialismo que inspira e coordena os procedimentos contra-revolucionários. O imperialismo não pode «perdoar» a opção pela mudança social avançada adoptada por alguns governos da América latina. O imperialismo está a cair no campo do desespero porque vai perdendo a batalha decisiva da economia. Por outro lado, todo o seu sistema de alianças e a sua política, tanto externa como interna, são derrubadas e questionadas como nunca o foram. A convulsão revolucionária que agita nestes dias o mundo árabe não trava, de forma alguma, os cálculos do imperialismo e pode provocar uma mudança brusca na correlação de forças a nível internacional.

O imperialismo e a direita estão a infiltrar organizações sociais e vicinais de povos originários. Também actuam sobre grupos juvenis, organizando seminários, mesas redondas, colóquios, etc. Escondem-se atrás de organizações supostamente defensoras dos recursos naturais, de empresas estatais, etc., etc..

Naturalmente utilizam, como já temos dito, os meios de comunicação controlados ou pertencentes na sua grande maioria à direita e ao conservadorismo. Fazem verdadeiras campanhas que contribuem para a especulação e a alta dos preços, para desorganizar a economia. Aproveitam alguns elementos como o «vídeo do velho» (Villa Vargas, um sujeito ao comando terrorista de Rózsa Flores) para montar uma feroz operação de desinformação. Utilizam uma suspeita divulgação deste tipo de materiais (a nosso ver pela inteligência), o que só favorece a oposição. Lançam dúvidas sobre a conspiração separatista e contra-revolucionária debelada e derrotada em 2009, com o desmantelamento do comando terrorista de Rózsa Flores em Santa Cruz [1].

É óbvio que toda esta perturbação económica e social alterou o panorama político. A direita, apesar de carecer de quadros e de objectivos construtivos, tudo isto a favorece e incentiva ao recurso aos seus planos desestabilizadores. E não se pense que abandonaram o campo da luta política. Seria uma ingenuidade pensá-lo. A direita, a reacção e o conservadorismo nunca deixaram campo livre ao avanço das mudanças e à construção de uma nova sociedade. Nunca abandonarão os seus planos revanchistas enquanto não estiverem resolvidas as contradições principais e fundamentais, tanto no plano internacional como no plano interno. Apesar da sua debilidade e das suas disputas internas continuam a agir e o imperialismo continua a investir grandes recursos na desestabilização e no derrube do governo da mudança.

Por último há que assinalar que no campo da Mudança e da Revolução há uma lamentável desarticulação orgânica; falta de precisão nos objectivos e nas suas linhas mestras, e até há anarquia nas suas acções. Não existe uma condução política homogénea, sobretudo nos níveis médios e intermédios. Há organizações como o MAS que apresentam múltiplas fissuras em diversas regiões do país. Desencadeou-se uma luta oportunista por cargos de direcção e de direcção de diversas entidades públicas. Também há organizações como a Coordenadora Nacional para a Mudança (CONALCOM, na sua sigla em castelhano) que não funcionam, não aperfeiçoaram os seus organismos de direcção democrática, nem os seus documentos fundamentais.

Há casos de manifesta corrupção e inclusive algum aproveitamento de aproveitamento de situações de direcção para actividades ilícitas. Há brandura na exigência do cumprimento dos deveres e burocracia que impedem a aplicação dos planos e medidas absolutamente necessárias e propostas ao povo há vários anos. Pelo contrário, há perda de tempo e recursos em actividades secundárias ou meramente simbólicas. Tanto o Presidente como o Vice-presidente [2] - nas suas mensagens de 22 de Janeiro - delinearam a única linha possível de desenvolvimento do processo de Mudança e da sua transformação num real processo Revolucionário. Apesar disso, observamos que inclusivamente a nível do gabinete ministerial não se interpreta da mesma forma essa profunda mensagem.

É cada vez mais evidente a necessidade de um centro de direcção política. A teoria de que um processo revolucionário pode não só descansar, mas estar debaixo da direcção dos movimentos sociais entrou em choque com a necessidade de ordem, disciplina consciente e clareza político-ideológica. Só uma direcção político-partidária, um centro com métodos partidários, isto é uma vanguarda política - não falamos de unicidade partidária, mas de uma conjunção baseada num programa - é capaz de redireccionar o processo e torná-lo na revolução que construa uma nova ordem social. Nisto não nos move nenhum exclusivismo vanguardista e negador do enorme potencial revolucionário das organizações sociais orientadas com métodos, disciplina e concepção científica.

Nesta etapa do processo de mudanças da Bolívia é imprescindível a aplicação da análise de classe dos fenómenos sociais, políticos e económicos. Obviamente, isto implica o desenvolvimento de uma luta ao mais alto nível da luta de classes: a luta ideológica, cujas dificuldades e possíveis tropeções são conhecidos. Há que ter sempre presente os ensinamentos de Lenine sobre o desenvolvimento dos processos revolucionários, quando dizia que a revolução não corria em linha recta pela avenida Nevsky. Quanta verdade encerra esta frase! O importante é não se enredar perante as dificuldades, os buracos e os tropeções no caminho. Faz falta mais lucidez e vontade de vencer.

Notas do tradutor:

[1] Ver sobre este assunto de Marcos Domich: «Sobre a ligação Ustacha da rede fascista» em www.odiario.info/?p=1165 e «Outras conexões por analisar» em www.odiario.info/?p=1205,

[2] Garcia Linera, Vice-presidente da Bolívia, por muitos visto como o ideólogo do governo.

* Marcos Domich, professor na Universidade de La Paz, é amigo e colaborador de odiario.info.

Este texto foi escrito especialmente para odiario.info.

Tradução de José Paulo Gascão

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