Irão, o objectivo da transferência de Israel do EUCOM para o Centcom

Nazanín Armanian    22.Ene.21    Outros autores

A agressiva aliança EUA-Israel aumenta a ameaça militar contra o Irão. É esse o evidente significado das alterações verificadas na integração de Israel na estrutura do Pentágono, decidida no últimos dias da administração Trump. A estratégia conjunta do imperialismo EUA e do estado sionista transformou o Médio Oriente num inferno, e é de recear que a situação não se altere. Crescem os riscos de uma guerra de escala ainda mais demencial.

Os EUA acabam de transferir a protecção de Israel da área de responsabilidade do Comando dos EUA para a Europa (EUCOM) para o Comando Central dos EUA (US-CENTCOM). Esta decisão de última hora do presidente Donald Trump, que muda a arquitectura militar EUA-Israel para o Médio Oriente, ocorre quando 1) o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, acusa o Irão, sem qualquer prova, de ser a nova sede da Al Qaeda e que está a desempenhar um papel “pior” do que o Afeganistão antes dos ataques de 11 de Setembro de 2001, a mesma afirmação da CIA (a agência de que era director) sobre o Iraque e o Afeganistão antes de os converter em montanhas de cadáveres e cinzas; e 2) os media israelitas informam de três “planos de emergência” para conter o programa nuclear do Irão, incluindo ataques aéreos às instalações militares deste país, e 3) um submarino nuclear israelita e três porta-aviões dos EUA rondam o Golfo Pérsico.

Para que serve o CENTCOM?

O Comando Central dos EUA nasceu em 1980 para substituir as Forças de Desdobramento Rápido que defendiam os interesses dos EUA no Médio Oriente, Norte da África e Ásia Central e do Sul, e é um dos seis comandos dos EUA cuja missão é assumir o controle geográfico do mundo: A área de responsabilidade (AOR) do Comando do Norte, o NORTHCOM, é vigiar o próprio território dos Estados Unidos, Porto Rico, Canadá, México e Bahamas; o Comando Sul, SOUTHCOM, América Central e América do Sul; O INDOPACOM espia a região Indo-Pacífico e o AFRICOM nas nações africanas.

Entre as suas tarefas durante a Guerra Fria

• Enfrentar a possível reacção militar da União Soviética depois de os EUA e a Europa terem começado a usar a extrema-direita islâmica e cristã para cercar a URSS nas suas fronteiras com o Afeganistão (Mujahidin afegãos), com o Irão (o Khomeinismo) e com a Polónia (Lech Walesa e o seu sindicato Solidarnosc). A entrada do Exército Vermelho no Afeganistão foi o pretexto procurado pela NATO para intensificar a militarização da região. Na teocracia xiita, o massacre das forças de esquerda, iniciado em 1980 e culminado em 1986, deveria ter incitado os soviéticos a uma intervenção militar no Irão, - pensariam os EUA -, não para salvar os seus camaradas, mas para ocupar os campos. petrolíferas do país e conseguir uma saída para o Golfo Pérsico, continuaram a fantasiar. Na verdade, entre 1983 (o ano do ataque do nacional- islamismo ao Partido Comunista Tudeh, em colaboração com o MI6 britânico) e 1990, ano do fim da URSS, o objectivo dos exercícios “Internal Look” do CENTOCOM era uma rápida implantação de forças norte-americanas nas montanhas iranianas de Zagros para derrotar os intrusos soviéticos.
• Intervir no frustrado resgate dos reféns da embaixada dos Estados Unidos em Teerão: o filme Argo não contou toda a verdade.
• Organizar o bom desenvolvimento da guerra entre o Irão e o Iraque, amadrinhada pelos EUA, que armava o Iraque de Saddam Hussein, e Israel, que inicialmente enviava material de guerra para a República Islâmica. A destruição mútua de dois países que eram potencialmente capazes de questionar a hegemonia de Israel sobre a região foi desenhada na doutrina de “Dupla Contenção” de Henry Kissinger: o Iraque foi contido, com guerras sob diferentes pretextos, e agora querem dar uma “solução final” ao Irão por oito razões e não porque possua armas de destruição, tal como a guerra de 2003 contra o Iraque foi levada a cabo sob o pretexto de sete mentiras que na realidade serviram dez objectivos.
• Os últimos trabalhos do CENTCOM, cuja sede principal se encontra na Flórida - com um quartel no Catar-, também incluem a suposta luta contra o terrorismo do Daesh, a entrega do Afeganistão aos Talibã, e a participação no desmantelamento do Estado líbio e também do sírio. Neste caso, também o objectivo do Pentágono é o Irão, e não o seu Governo, com o fim de continuar a redesenhar o mapa da região à medida dos novos interesses dos Estados Unidos.

Os 14 motivos de uma inquietante decisão

1. Os EUA consideram que os ataques de Israel contra as instalações militares do Irão desembocarão numa guerra de envergadura, pelo que os dois aliados deveriam coordenar as suas estratégias militares. Pois tal guerra, iniciada por Israel ou pelos EUA ou coordenada entre ambos, acontecerá na área de responsabilidade do CENTCOM. As forças aéreas de ambos os países realizaram os exercícios Enduring Lightning III (”Enduring Beam”) com seus F-35s em Outubro de 2020. Estas aeronaves, das quais Israel possui uma dúzia e que custam US $ 100 milhões por unidade, são as mais avançados do mundo e possivelmente foram pela primeira vez usadas ​​por Israel contra o complexo de produção de mísseis em Parchin, no Irão, conforme afirma o diário kuwaitiano Al-Jareeda. Em 1981, os caças israelitas F-16I Sufa destruíram o reactor nuclear em construção no Iraque, e em 2007 fizeram o mesmo com o reactor sírio, obviamente sem que o Conselho de Segurança da ONU impusesse qualquer sanção.
2. A pressão do Instituto Judaico para a Segurança Nacional dos EUA (IJSNE), um lobby NeoCon, que desde há vários anos propõe que a inclusão de Israel no CENTCOM é a garantia da defesa dos interesses dos Estados Unidos contra o Irão.
3. Embora Israel e EUCOM realizassem manobras conjuntas semestrais chamadas Juniper Cobra, em que os EUA pratica a rápida implantação de sistemas de defesa antimísseis e de pessoal da Europa para Israel ante um hipotético ataque com mísseis balísticos a partir do Irão, esta mudança agiliza a coordenação das suas operações.
4. Alinhar os parceiros-chave dos EUA, - Israel e os árabes -, após a normalização das relações de Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Sudão e Marrocos com Israel como resultado e também a fase militar dos Acordos de Abraham. Tarefa nada fácil em países como o Iraque que, embora tenha que engolir o sapo do domínio dos EUA e a presença de milhares dos seus militares, não pode aceitar uma cooperação directa com Israel devido à opinião pública do país sobre o estado judeu. Porém, há que dar tempo ao tempo: ver soldados iraquianos, sauditas e israelitas atacando juntos, quase como irmãos, deixará de ser ficção. Tel Aviv incluiu um discurso anti-houthi no seu reportório e já considera o Iémen um sério inimigo, tal como os sauditas. Era a única coisa que faltava aos iemenitas!
5. Permitir que os EUA, Israel e seus parceiros árabes realizem exercícios de contingência em face das “ameaças compartilhadas”.
6. Enviar uma mensagem dissuasora ao Irão e outros países da região (incluindo a Turquia) que questionam a hegemonia dos EUA-Israel.
7. Dar mais protagonismo a Israel nos conflitos regionais.
8. Criar uma rede de defesa antimísseis na zona, coordenada pelo Pentágono.
9. Fortalecer a presença militar dos EUA em Israel e também instalar ali novas armas. Em 2017, Washington abriu a sua primeira base militar permanente em solo israelita.
10. Desta forma, o EUCOM poderá concentrar-se na luta contra a Rússia.
11. Os EUA temem que Israel aja contra o Irão por conta própria e sem o consentimento de Washington. Esta fusão permite que os militares dos EUA mantenham a iniciativa no planeamento das estratégias, do treinamento e das acções militares.
12. Uma maior infiltração na inteligência militar dos países árabes em quem nunca confiariam.
13. Forçar Joe Biden a trabalhar com esta nova estrutura militar no Médio Oriente, para o caso de ocorrer ao novo presidente distanciar-se da agenda de Israel para o Irão, como tentou durante o governo Obama.
14. E também, manter o controlo sobre o próprio pequeno estado que nem sempre foi um aliado leal dos EUA, devido à existência de um choque de interesses: há algumas semanas que foi libertado Jonathan Pollard, espião de Israel que passou 30 anos em prisões dos EUA.

Fonte:
https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6945/iran-el-objetivo-del-traslado-de-israel-de-eucom-a-centcom/

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