Irão:
Nova “Revolução Colorida” Orquestrada pelos EUA?

Paul Craig Roberts*    25.Jun.09    Outros autores

PAUL CRAIG ROBERTSEmbora a dúvida sobre a participação dos EUA, o autor, Paul Craig Roberts, ex-secretário adjunto do Tesouro, da administração Reagan informa-nos que a montagem da «operação secreta “negra” a fim de desestabilizar o governo iraniano», vem já desde 2007…
As declarações de Obama sobre os recentes acontecimentos no Irão, em agressividade crescente mas controlada, não só não deixam de se integrar na operação como se conjugam com a tentativa de recuperação, ao menos parcialmente, do prestígio perdido pelo império.

Há uma série de comentadores que tem vindo a exprimir a sua crença idealista na pureza de Mousavi, Montazeri, e da juventude ocidentalizada de Teerão. O plano de desestabilização da CIA, anunciado há dois anos (ver abaixo) não terá contaminado, por qualquer razão, os incidentes em curso.

Afirma-se que Ahmadinejad viciou as eleições, porque os resultados foram anunciados cedo demais após o fecho das urnas, antes de ser possível contar todos os votos. Mas Mousavi anunciou a sua vitória várias horas antes de as urnas fecharem. Isto é uma desestabilização clássica da CIA destinada a desacreditar um resultado oposto. Força uma declaração precoce sobre a votação. Quanto mais tempo durar o intervalo entre a prévia declaração de vitória e o anúncio da contagem dos votos, mais tempo tem Mousavi (e a CIA) para criar a impressão de que as autoridades estão a utilizar o tempo para alterar a votação. É de espantar que as pessoas não percebam este truque.

Quanto à acusação do grande ayatolla Montazeri de que as eleições foram viciadas, é preciso não esquecer que ele foi a escolha inicial para suceder a Khomeini, mas perdeu a favor do actual Líder Supremo, Khamenei. Encontra assim nos protestos uma oportunidade para ajustar contas com Khamenei. Montazeri tem um incentivo para contestar as eleições, esteja ou não a ser manipulado pela CIA, que tem uma bem sucedida história de manipular políticos frustrados.

Há uma luta pelo poder entre os ayatollas. Muitos deles alinharam contra Ahmadinejad porque este os acusa de corrupção, satisfazendo assim o Irão rural onde os iranianos acham que o estilo de vida dos ayatollas indica um excesso de poder e de dinheiro. Na minha opinião, o ataque de Ahmadinejad contra os ayatollas é oportunista. No entanto, torna-se esquisito para os seus detractores americanos afirmarem que ele é um reaccionário conservador alinhado ao lado dos ayatollas.

Há comentadores que “explicam” as eleições iranianas baseando-se nas suas próprias ilusões, desilusões, emoções e interesses ocultos. Quer os resultados das votações que predizem a vitória de Ahmadinejad sejam correctos ou não, até agora não há indícios que possam levar a concluir que as eleições foram viciadas. Por outro lado, há relatórios credíveis de que há dois anos que a CIA anda a trabalhar para desestabilizar o governo iraniano.

A 23 de Maio de 2007, Brian Ross [1] e Richard Esposito noticiaram no ABC News: “A CIA recebeu aprovação secreta presidencial para montar uma operação secreta “negra” a fim de desestabilizar o governo iraniano, afirmam à ABC News agentes, actuais e antigos, da comunidade dos serviços de informações”.

A 27 de Maio de 2007, o Telegraph de Londres noticiou sem reservas: “Bush assinou um documento oficial sancionando planos da CIA para uma campanha de propaganda e desinformação destinada a desestabilizar, e a fazer cair, o governo teocrático dos mullahs”.

Uns dias antes, a 16 de Maio de 2007, o Telegraph noticiara que John Bolton [2], o instigador da guerra neoconservador da administração Bush, dissera ao Telegraph que um ataque militar americano ao Irão “seria uma ‘última opção’ depois de falharem as sanções económicas e as tentativas para fomentar uma revolução popular”.

A 29 de Junho de 2008, Seymour Hersh [3] noticiou no New Yorker: “No final do ano passado, o Congresso aceitou um pedido do Presidente Bush para financiar uma grande escalada de operações secretas contra o Irão, segundo actuais e antigas fontes militares, dos serviços de informações e do Congresso. Estas operações, para as quais o Presidente pediu quatrocentos milhões de dólares, estavam descritas numa Decisão Presidencial assinada por Bush, e destinam-se a desestabilizar a liderança religiosa do país”.

Os protestos em Teerão têm sem dúvida muitos participantes sinceros. Mas os protestos têm também todas as marcas dos protestos orquestrados pela CIA na Geórgia e na Ucrânia. É preciso ser-se completamente cego para não ver isso.

Daniel McAdams sublinhou alguns pontos esclarecedores. Por exemplo, o neoconservador Kenneth Timmerman [4] escreveu, um dia antes das eleições, que “fala-se de uma ‘revolução verde’ em Teerão”. Como é que Timmerman podia saber disso a não ser que fosse um plano orquestrado? Porque é que havia de haver uma ‘revolução verde’ preparada antes da votação, principalmente se Mousavi e os seus apoiantes estavam tão confiantes na vitória como afirmam? Isto parece prova evidente de que os EU estão envolvidos nos protestos contra as eleições.

Timmerman continua, escrevendo que “o National Endowment for Democracy gastou milhões de dólares na promoção de revoluções ‘coloridas’… Parte desse dinheiro parece ter ido parar às mãos de grupos pró-Mousavi, que têm ligações a organizações não governamentais fora do Irão, que recebem fundos do National Endowment for Democracy”. A própria Foundation for Democracy, neoconservadora, de Timmerman é “uma organização privada, sem fins lucrativos, fundada em 1995, que recebe fundos da National Endowment for Democracy, para promover no Irão a democracia e padrões de direitos humanos internacionalmente reconhecidos”.

Notas:
[1] Brian Ross é um dos mais respeitados jornalistas de investigação nos EUA, correspondente
do ABC News desde 1994. (N.T.)
[2] John Robert Bolton é uma figura política conservadora que desempenhou cargos em várias
administrações presidenciais republicanas. Esteve envolvido em diversos grupos de grupos de
pensadores e institutos políticos conservadores, entre os quais o Project for the New American
Century (PNAC). É considerado como uma das figuras mais destacadas do movimento
neoconservador. (N.T.)
[3] Seymour Hersh é um jornalista de investigação, laureado com o Prémio Pulitzer dos
Estados Unidos, e escritor. Ficou conhecido mundialmente em 1969 pela denúncia do
Massacre de My Lai. Em 2006 noticiou os planos militares americanos em relação ao Irão que
aconselhavam, alegadamente, o uso de armas nucleares contra este país. (N.T.)
[4] Kenneth Timmerman é um jornalista, escritor político e activista republicano conservador.
Em 1995 fundou a Foundation for Democracy in Iran com o apoio de expatriados iranianos da
oposição para tentar derrubar o governo iraniano. (N.T.)


[*] Paul Craig Roberts foi secretário adjunto do Tesouro na administração Reagan e editor sócio do Wall Street Journal. Tem tido muitas nomeações de universidades. É co-autor de The Tyranny of Good Intentions.

Tradução de Margarida Ferreira

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