Iraque em movimento: o factor Muqdata Al-Sadr

As eleições de Maio no Iraque podem ter aberto uma nova situação política, cujo desenvolvimento está, entretanto, ainda por definir. As principais forças políticas (na sua maioria, político-religiosas) partilham uma posição fundamental: querem ver os EUA fora do seu país. Que os EUA estejam dispostos a isso, é outra questão.

Os recentes desenvolvimentos na sequência das eleições de 12 de Maio de 2018 no Iraque colocaram potencialmente o país numa nova trajectória. Qual será a natureza e a direcção dessa trajectória é grande questão.
Agora com 44 anos, Muqtada Al-Sadr tinha apenas 25 anos quando o seu pai Ayatollah Mohammad Mohammad Sadeq Al-Sadr foi vítima de uma emboscada e morto juntamente com dois dos seus filhos, irmãos de Muqtada, e o legado recebido por Muqtada era demasiado grande para um jovem com a sua idade. https://en.wikipedia.org/wiki/Mohammad_Mohammad_Sadeq_al-Sadr , todavia, duas décadas passadas, parece estar a aprender a preencher o lugar que o seu pai ocupou; e o seu estatuto exige dele mais.
‘Sairoon’, o partido de Al-Sadr (que significa literalmente “estamos a andar;” ou seja, avançamos) conseguiu um grande resultado nas eleições de Maio de 2018 para o Parlamento, o suficiente para atribuir a Al-Sadr o título de “fazedor de reis,” tal como alguns analistas fizeram. https://www.rt.com/news/427266-iraq-elections-sadr-kingmaker-us-iran/
É certo que essa vitória não lhe atribuiu as condições para formar só por si um governo de maioria, mas a sua recentemente anunciada - em 22 de Junho - aliança com o partido de Al-Abadi cerca de quarenta dias após as eleições, apresenta uma aliança agora em condições de formar o novo governo do Iraque e, formulando a questão de forma moderada, isto irá provavelmente resultar numa revisão das relações Iraque-EUA.http://www.almayadeen.net/news/politics/887932/تحالف-بين-بين-كتلتي-العبادي-والصدر-في-البرلمان-لتأليف-الحكوم/
A formação da aliança era inevitável, mas aparentemente tanto Abadi como Muqtada tiveram antes que confrontar entre si alguns aspectos da realidade.
Pouco transpirou das negociações entre os dois líderes que conduziram ao anúncio da formação da aliança mas Abadi, um diplomata mais experimentado, deverá ter tido uma ou duas coisas a dizer ao seu novo parceiro acerca do papel da Rússia e da intocável posição do Presidente Assad. Reciprocamente, o líder e fundador do Exército Al-Mehdi, ou seja Muqtada, terá também dito uma coisa ou duas sobre qual a posição que o novo governo iraquiano deverá assumir relativamente à presença norte-americana no Iraque.
As mais prováveis confluências que os dois homens terão acordado são uma posição mais dura relativamente aos EUA por parte de Abadi, e uma posição menos rígida por parte de Muqtada em relação à Rússia e ao Presidente Assad. Na realidade, qualquer outro entendimento não terá grande base de apoio público e estará condenado a falhar.
Dito isto, e por uma questão de justiça relativamente a Abadi enquanto Primeiro-Ministro “Parte I”, ele revelou claramente a sua moderada posição antiamericana em diversas ocasiões, e não é esta a altura nem o lugar para a discutir. É provável que a nova aliança Al-Sadr-Al-Abadi volte a colocar este último como Primeiro-Ministro, mas o Al-Abadi Primeiro-Ministro “Parte II” terá uma base de apoio político alargada e um mais forte mandato para agir com resolução e dureza em relação aos EUA.
O mínimo que este novo governo-a-haver fará e solicitar formalmente uma retirada dos EUA do Iraque. Esta solicitação irá requerer uma resposta formal por parte dos EUA, e a questão é o que irá acontecer se esta retirada não é pacificamente aceite por consentimento norte-americano?
Com isto colocado, não pode separar-se a presença militar dos EUA no Iraque da sua presença militar na Síria. No fim de contas, não existem barreiras nem fronteiras entre os dois Estados vizinhos e, em segundo lugar e mais importante ainda, os EUA estão a utilizar o Iraque para entrarem ilegalmente na Síria. É desnecessário dizer que, se os EUA respondessem positivamente à altamente provável solicitação do novo governo iraquiano para abandonarem o Iraque, teriam de reconsiderar a sua presença na Síria, pelo menos no plano logístico.
Se os EUA saem completamente de toda a região, isso poupará muito derramamento de sangue em vários lados, incluindo o dos EUA. Contudo, se os EUA recusarem uma solicitação iraquiana para saírem do Iraque, ou se decidirem sair do Iraque e permanecer apenas na Síria, as forças dos EUA poderão ver-se confinadas entre muitos adversários, dois dos quais são os governos de Síria e Iraque e potencialmente os seus respectivos exércitos, bem como por outros voluntários que certamente irão coordenar esforços.
Por outro lado, enquanto não existir uma ameaça real e no presente da criação de um estado curdo independente, a Turquia inclinar-se-á para observar e não se manter muito envolvida, sem efectuar qualquer escalada das suas actuais intervenções e incursões; pelo menos até novos dados que alterem a situação. Contudo, no caso de os EUA darem resposta positiva a uma solicitação iraquiana e saírem de solo iraquiano, e como tal situação implica a perda da porta iraquiana para a Síria, Trump poderá jogar a carta de trunfo curda e convencer Erdogan a autorizar a utilização da Turquia como nova porta de acesso; com a justificação de procurar derrotar a criação de uma Estado curdo – o que estaria em total contradição com o objectivo inicial dos EUA de apoiar essa criação. Falta ver como irá Erdogan interpretar esse potencial truque.
Mas com este mais do que especulativo cenário estamos a adiantar-nos demasiadamente. Não é provável que as primeiras linhas de combate político envolvem a Turquia. Elas irão ser traçadas entre os EUA por um lado, e Iraque e Síria e seus apoiantes por outro.
As antecedentes hostilidades políticas entre as facções síria e iraquiana do partido Baas deixaram de existir. No fim de contas, deixou de existir no Iraque qualquer coisa que se pareça com um partido Baas legal e em funcionamento. A Síria e o Iraque estão agora estreitamente ligadas na sua luta contra o ISIS e organizações afins, e no desejo de verem os EUA ir-se embora.
Se os EUA não saem tanto do Iraque como da Síria, seja por sua própria iniciativa seja em resultado de uma solicitação formal do governo iraquiano irão provavelmente, em última análise, ver-se perante uma nova resistência armada e lutas de guerrilha. Isto contém o potencial de outro pântano militar, idêntico ao do Vietnam, como um responsável iraniano recentemente indicou.
https://www.timesofisrael.com/top-iranian-official-syria-will-be-americas-second-vietnam/
Como se encaixa o Irão neste quadro?
Muqtada Al-Sadr é “tecnicamente” um clérigo Shiita, mas é ferozmente independente e iraquiano no seu posicionamento. Um nacionalista? Talvez não, mas claramente um patriota. O seu partido é portanto independente do Irão, mesmo apesar de a hierarquia da Dodecacia Shiita, à qual pertence, ser representada e encabeçada pelo Supremo Líder do Irão, Khomeini. Isto não torna também Muqtada anti-iraniano, e é indubitável que, se se encontrar perante a escolha de uma aliança com os EUA ou com o Irão, poderá presumir-se que optará pelo segundo; mas não é um “fantoche dos iranianos” como outros líderes Shiitas são acusados – pelos seus adversários políticos e religiosos - de ser.
Efectivamente, Muqtada Al-Sadr constitui por várias razões uma preocupação para os iranianos, a menor das quais não será o facto de ter recentemente visitado a Arábia Saudita para se encontrar com o príncipe real Muhamed Bin Salman. http://www.mei.edu/content/article/io/influential-iraqi-cleric-sadr-s-saudi-visit-triggers-worries-tehran
Regressando às tropas no terreno.
Ao contrário da presença norte-americana na Síria, a presença iraniana, seja em que capacidade for, corresponde a um pedido do Governo Sírio, ou seja, é legal. Quanto mais os EUA reclamam a retirada iraniana da Síria mais pressionam, sem dar conta disso, a sua própria presença e tornam a presença iraniana em moeda de troca para o lado sírio, russo, iraniano e potencialmente iraquiano, trazendo desse modo para a mesa das negociações um possível acordo na base de uma retirada simultânea tanto do Irão como dos EUA.
Ao longo da guerra a Síria tem sido pressionada a abandonar as suas ligações ao Irão como condição para a cessação das hostilidades lideradas pelos sauditas, e o Presidente Assad falou sobre isso numa entrevista recente. https://www.youtube.com/watch?v=OghUmbc_i3I . Contudo, uma negociação que vise a saída do Irão da Síria em troca de uma retirada dos EUA não é algo que tenha sido discutido, não até agora e pelo menos não abertamente.
A presença dos EUA em solo iraquiano e sírio cria um dilema muito complicado para os próprios EUA, não só porque os EUA não sabem o que fazer a seguir, mas também porque não sabem como alcançar um vitória estrondosa, ou mesmo modesta que seja, já para não falar de que também não sabem com quem negociar uma saída barata e que lhes salve a face.
A perspectiva de a Guerra na Síria entrar numa nova fase inteiramente nova está a tornar-se mais perigosa e, como o chefe do Hezbollah Nasrallah afirmou recentemente, em vez de os inimigos da Síria estarem dependentes de serventuários para combater em seu lugar - uma opção que tentaram e que falhou - estão agora perante a situação de terem que utilizar as suas próprias tropas.
Uma avaliação, pessimista mas realista, é a de uma guerra tornando-se incontrolável, atraindo novos participantes e atascando-os no processo. Este cenário apenas pode ter início com uma obstinação e recusa dos EUA em sair de Iraque e Síria. Novamente, este cenário abre uma larga janela para ataques de guerrilha contra tropas norte-americanas, e existem notícias não confirmadas que alegam que esses ataques começaram já. Desta vez, estes ataques terão como alvo bases norte-americanas tanto no Iraque como na Síria e os intervenientes não serão apenas os anteriormente referidos sobretudo como “insurgentes” sunitas que se levantaram após a invasão do Iraque em 2003. Como a história mostra, uma vez que ataques deste tipo começam tendem a ampliar-se e, à medida que se ampliam, adquirem o potencial de envolver mais forças intervenientes, e como é provável que um maior envolvimento iraniano daí decorra, apenas poderemos esperar mais envolvimento directo de Israel.
Isto não significa que Israel se torne o primeiro interveniente a elevar a intervenção. A história militar de Israel tem sido no fundamental baseada na tomada de iniciativas militares. É isto que as potências militares que estão na mó de cima têm historicamente feito ao longo dos séculos. Mas mesmo apesar de os militares israelitas já não possuírem a necessária vantagem militar, os seus decisores políticos parecem continuar a viver na fantasia da euforia dos dias pós-Guerra dos Seis Dias. E mesmo que a maior parte das aventuras militares que têm empreendido tenham falhado, a lição não foi suficientemente forte para lhes ensinar que os tempos mudaram.
Em qualquer caso, qualquer cenário de escalada pode potencialmente conduzir a um alargamento do envolvimento iraniano directo no apoio ao Iémen devastado pela guerra e a uma confrontação directa entre o Irão e Arábia Saudita, Irão e Israel, não esquecendo Hezbollah, com enormes consequências para todos os envolvidos, mesmo que alguns acabem por vencer.
E no que diz respeito ao envolvimento dos EUA, uma pergunta pertinente a colocar é se sim ou não os EUA podem sustentar financeiramente uma nova grande guerra. E se dão início a um pequeno fogo que cresce e se desenvolve fora de controlo, seja intencionalmente ou por outra razão, irá uma tal guerra grande e dispendiosa acelerar o seu colapso económico?
A questão de fundo aqui é que, a não ser que todos os intervenientes decidam avançar para uma guerra de autodestruição e aniquilação mútua, necessitarão de um mediador, e a Rússia é a única entidade que está em condições de falar com todos os interessados: Iraque, Síria, Irão, Turquia, Arábia Saudita, Israel e os EUA.
Voltando a Muqtada Al-Sadr; o seu posicionamento como um líder “fundamentalista” shiita que não está alinhado com o Irão e que tem, por outro lado, alguns laços com a Arábia Saudita, coloca-o num a posição demográfica peculiar e única. Ele é talvez para o Iraque aquilo que a Rússia é para as potências regionais e internacionais envolvidas no beco sem saída do Médio Oriente. Tal como a Rússia tem contactos com todas as partes envolvidas, Muqtada encontra-se em razoáveis condições de diálogo com todas as diferentes forças no Iraque, com a óbvia excepção dos curdos separatistas.
Deverá recordar-se que não são apenas os iraquianos shiitas que querem a imediata e incondicional saída dos EUA do seu país. Todos os iraquianos, com excepção de alguns colaboracionistas curdos, querem que os EUA saiam, mas não encontraram ainda uma bandeira iraquiana que os una.
Muqtada não e definitivamente um santo, e o facto de ter iniciado a sua “carreira” baseando-se numa busca Hamletiana de vingança da morte do seu pai é algo agourento. Isto para não mencionar o estigma das suas fotos, que o representam como um homem enfurecido com uma face enrugada como se pode constatar facilmente através do Google. Mas este homem, ainda novo com 44 anos de idade, também não é nenhum demónio. Deparou com muitos desafios muito cedo na sua vida adulta. Foi catapultado para o lugar de liderança do seu pai quando tinha vinte e poucos anos, teve de encontrar uma forma de lidar com a invasão dos EUA em 2003 sem se tornar um alvo para os norte-americanos como sucedera com Saddam e, por último mas não menos importante, foi capaz de sobreviver e de se reforçar depois de tudo isto.
Talvez Muqtada Al-Sadr venha a ser o líder que empunhe essa bandeira que una os iraquianos e, embora se trate de um clérigo, ele é possivelmente a coisa realisticamente mais próxima em que podemos hoje depositar esperanças na busca para encontrar um líder iraquiano secular que tenha alguma consistência e potencial. Reparem na ironia.
Muqtada parece ter aquilo que é necessário para inspirar recrutas a juntar-se às tropas que vão combater. Mas conseguiu igualmente apresentar-se a si próprio como um defensor dos pobres e homem que empreenderá reformas https://www.aljazeera.com/indepth/features/muqtada-al-sadr-iraq-militia-leader-turned-champion-poor-180517053738881.html . Com uma agenda desta natureza e calibre, se jogar as suas cartas de forma acertada, e se conseguir provar às diferentes massas iraquianas que é genuíno e sincero, tem uma bastante boa oportunidade de superar os estigma do traje que enverga, da seita com que o identificam, e conseguir unir uma ampla base de apoio de iraquianos de diferentes religiões, seitas e etnias.
Se o consegue ou não ainda está para se ver.
O significado literal de “Sairoon,” o nome do seu partido, talvez seja apreendido de forma auspiciosa uma vez que o Iraque se situa num ponto de decisão, enfrentando o dilema de como avançar e para onde.
O que é igualmente interessante é que agora que ele é o eleito “Fazedor de Reis” do Iraque, conquistou para o seu lado uma posição formal na mesa de negociações com os EUA. Isto irá indubitavelmente atribuir-lhe uma posição negocial com um ramo de oliveira numa mão e uma espingarda na outra, tal como Yasser Arafat descreveu a sua posição quando se dirigiu à UNGA em 1974.
Uma vez mais, a chave para a paz ou para mais guerra na região está nas mãos dos EUA. Irão os EUA atender os sinais de aviso e salvar-se a si próprios e o Médio Oriente de outro desnecessário desastre?

http://thesaker.is/iraq-on-the-move-the-muqdata-al-sadr-factor/

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