Israel: Selvajaria Tolerada

Não podem continuar os dois pesos e duas medidas. O terrorismo de Estado de que Israel dá sobejos e constantes exemplos não pode continuar impune.
“Se Washington e os países União Europeia permitem que fique impune a criminosa agressão, perpetrada em águas internacionais, contra embarcações civis que se dirigiam para Gaza numa missão humanitária, anularão com isso os seus discursos a favor de uma legalidade internacional, dos direitos humanos e da justiça, e o mundo avançará não para a civilização, mas para a selvajaria.”

O cruel assalto feito anteontem por militares israelitas contra uma flotilha de seis embarcações que se propunham levar ajuda militar humanitária à população cercada de Gaza – e que deixou um saldo de 19 activistas mortos e dezenas de feridos – é consequência das inaceitáveis margens de impunidade que os Estados Unidos e a Europa ocidental deram ao regime de Telavive para que cometa toda a espécie de crimes de guerra, atropelos e violações dos direitos humanos, não só contra os palestinos, prisioneiros na sua própria terra, mas também contra qualquer expressão de solidariedade para com esse infortunado povo. Os governantes israelenses sabem que podem cometer qualquer delito, em qualquer lugar do mundo, sem que isso lhes acarrete consequências negativas.

Foi nestas circunstâncias que se deu a agressão, em águas internacionais do Mediterrâneo, contra a Flotilha da Liberdade, em que viajavam uns 700 membros de organizações humanitárias de várias nacionalidades – turcos principalmente – e que transportavam cerca de 10 mil toneladas de ajuda humanitária (alimentos, remédios, material educativo e de construção) para a Faixa de Gaza, que sofre um desapiedado bloqueio por parte de Telavive.

Como é seu costume, a propaganda oficial israelense apresentou os agredidos como agressores e acusou-os de terem «atacado, golpeado e apunhalado os efectivos castrenses que tomaram de assalto as embarcações e dispararam indiscriminadamente contra os que ali estavam.

Tais falsificações propagandísticas mostram claramente que o ataque contra embarcações humanitárias não foi um caso isolado de descontrolo, mas consequência de uma decisão de Estado onde não se pode ver outro propósito que o de descarrilar os esforços diplomáticos que vinham tendo lugar com vista a aliviar, mesmo que minimamente, a ocupação depredadora na Cisjordânia e o cerco israelense a Gaza, cuja população tem vindo a sofrer actos de genocídio que evocam, de forma inevitável, a circunstância terrível em que os judeus foram chacinados e massacrados pelos nazis no gueto de Varsóvia.

Nestas perspectiva, as balas que ceifaram a vida de mais de uma dezena de activistas pró-palestinos, em última instância, foram dirigidas e de uma forma certeira, contra a política do Médio Oriente começada pela administração Barack Obama.

A indignação mundial provocada pela agressão contra a Flotilha da Liberdade, caracterizada por governos e organizações sociais como um acto de terrorismo de Estado, não basta, no entanto, para pôr um fim à impunidade com que desde sempre se conduziu o governo israelense. As manifestações e as demonstrações de repúdio contra as acções criminosas daquele regime parecem ter criado um limiar de tolerância que permite a Telavive prosseguir com os seus crimes de guerra, inclusive no meio da rejeição planetária.

Este fenómeno torna necessário redirigir os esforços sociais de solidariedade para com os palestinos e reformular as exigências concretas dirigidas aos governos dos Estados Unidos e da Europa ocidental: as notas diplomáticas devem ser substituídas por sanções políticas e económicas concretas, assim como por acções judiciais orientadas a levar os governantes de Israel às instâncias internacionais de justiça. Neste ponto, cabe recordar a duas rasouras que caracterizaram a conduta das nações ricas do ocidente, que arrasaram o Iraque e a Sérvia, e submeteram a julgamento os seus ex-governantes., por atrocidades não muito diferentes das que Israel cometeu na palestina ocupada e noutras partes do mundo.

Se Washington e os países União Europeia permitem que fique impune a criminosa agressão, perpetrada em águas internacionais, contra embarcações civis que se dirigiam para Gaza numa missão humanitária, anularão com isso os seus discursos a favor de uma legalidade internacional, dos direitos humanos e da justiça, e o mundo avançará não para a civilização, mas para a selvajaria.

Este Editorial foi publicado no diário mexicano La Jornada de 1 de Junho de 2010.

Tradução de José Paulo Gascão

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