Jean Salem: um filósofo na luta para transformar o mundo

Nesta importante entrevista do filósofo marxista Jean Salem ao “Brasil de fato”, este amigo e colaborador de “odiario.info” expõe com notável lucidez opiniões sobre questões centrais do seu país, da Europa, do nosso tempo, daquilo que, nas suas palavras, representa a cruel “falta de organização revolucionária na Europa justamente agora que o sistema (capitalista) sofre abalos na sua base”.

Milton Pinheiro) Você é um filósofo que estuda os materialistas na filosofia grega e romana, marxista, tem uma profunda ligação com as lutas dos trabalhadores em seu país e no mundo, a exemplo de seu apoio às lutas dos trabalhadores sem terra no Brasil (MST), foi sempre vinculado às ideias comunistas. Quem é o intelectual orgânico Jean Salem, sua história e suas lutas?

Jean Salem) Tenho, de fato, dedicado uma dúzia de anos e mais de uma dúzia de livros a estudar de maneira intensa o materialismo antigo: aquele de Demócrito (pai do atomismo) e aquele de Epicuro e de Lucrécio (esses dois filósofos explicam, também, que o universo é composto de átomos e vácuo, e asseguram, além disso, que o prazer constitui o bem supremo). No meio dos anos 80, enquanto tudo parecia colapsar ao lado dos partidos comunistas do oeste europeu, e depois ao lado do “socialismo real”, eu decidi enfrentar os trabalhos acadêmicos sobre esse assunto. Mais que compor uma milésima tese sobre Marx, eu tentei (como o próprio Marx em sua tese de doutorado) conhecer mais de perto esses autores que ousaram enfrentar os preconceitos religiosos e que, desde essa época bastante antiga, estavam já decididos a levantar um canto do véu, ou seja, a propor uma visão racional de tudo o que nos cerca. Uma visão que, em grandes traços, permanece compatível com aquela da ciência moderna. Portanto, no que se refere a Epicuro, ele viveu, como nós, em uma época de colapso civilizacional, em uma época de crise, no fim do século IV antes de Cristo – a crise, na época, era a que decorreu da katastroica consecutiva à morte de Alexandre o Conquistador. Ademais, eu tenho igualmente dedicado leituras a Maupassant, à Renascença Italiana, à felicidade (!) , e tenho organizado diversos manuais de filosofia e de lógica matemática (de lógica muito elementar, devo dizer). Além disso, tenho tentado ser um estudante permanente. No ano passado obtive um Master de economia enquanto estudante em minha própria universidade. Para um marxista, isso pode sempre ser útil!

SALEM (J.), A Felicidade ou a Arte de Ser Feliz Quando os Tempos Vão Difíceis, Beja (Portugal), Cooperativa Cultural Alentejana, Allia, 2013.

Agora, sim. Sempre estou ligado às ideias comunistas. Por fidelidade, em primeiro lugar: meus pais, após experimentarem a clandestinidade “democrática”, à tortura “democrática”, se refugiaram em países do “socialismo real” (Tchecoslováquia, depois na URSS), enquanto a guerra da Argélia acabava de produzir seus últimos massacres.
Então fiquei ligado, também, pela razão: a demonstração que constitui “O Capital” de Karl Marx me parecia haver conservado toda sua força e toda sua atualidade. O velho mundo, o mundo do dinheiro-rei, o mundo do capitalismo nunca deixa de confirmar que ele é minado por contradições que não poderão ser resolvidas senão por sua destruição. Ou até, por guerras incessantes e devastadoras.
Agora, você me pergunta sobre minhas lutas. Eu vos diria que elas são “dromomanes” (N. do T.: viciadas em viagens): eu me encontro na Coréia, em Portugal, na América Latina, em congressos ou reuniões animadas pelos progressistas. Tomando o cuidado, sempre, de não cair no que eu chamaria de “jet-altermundismo”: muitos se perdem nele, outros ai se corrompem. Mas minhas lutas se fazem, também, e talvez, sobretudo, pela escrita: publiquei um livro sobre Lênin (Lênin e a revolução, que a editora Expressão Popular publicou no Brasil); outro sobre a caricatura que a grande imprensa francesa fazia dos países socialistas, depois de tanto tempo que esses países tiveram a audácia de existir; um mais recente, sobre a farsa que tendem a ser as eleições na Europa e em outros países, (Eleições, uma armadilha. Que resta da democracia? Paris, Flammarion, 2012). Sobre a atualidade mais imediata, me acontece de enviar artigos para diversos jornais franceses ou estrangeiros. Quanto às lutas concretas em que me envolvo, elas visam essencialmente a reconstrução de um movimento autenticamente revolucionário na França e no estrangeiro.

MP) Como você avalia a presença das ideias revolucionárias no ambiente acadêmico e intelectual da França?

JS) Durante o último quarto de século, a Universidade francesa brilhou particularmente pelo que Eric Hobsbawm chamou de “marxismo agressivo”. É extremamente difícil, quando se é conhecido como marxista, ou como comunista, de não sofrer algumas gozações inesquecíveis. A fortiori, de conseguir uma posição de professor titular. Desde 1975, de fato, o mundo intelectual francês sofreu uma intensa lavagem de cérebro que o transformou em uma massa de manobra muito permeável ao anticomunismo “de esquerda”: teve-se, sobretudo a criação de um pequeno mundo quase irremediavelmente convencido de que a política do Partido Socialista é um mal menor.
Vê-se aparecerem, sempre, com o agravamento da crise, um bom número de teses de doutorado trazendo assuntos claramente conflituosos. Um número crescente de jovens que sabem que não têm nada a perder (visto que o número de vagas em concursos se torna cada vez mais ridículo), se dão ao menos ao prazer de trabalhar de cara exposta sobre os temas que os apaixonam: Marx, o passado colonial, a degeneração da social-democracia na Europa ao longo de todo o século XX, etc..

MP) A crise do capitalismo trouxe para o contexto das lutas de classes novas contradições. Como podemos examinar o papel da burguesia, dos trabalhadores e dos partidos do campo da esquerda comunista neste processo, na França e na Europa?

JS) Não é segredo para ninguém: o sentimento de declínio invadiu a maior parte da Europa. Em nosso país, lembramo-nos sempre, hoje, com uma nostalgia não desprovida de amnésia, os “30 gloriosos” (que não foram gloriosos para todo mundo!), ou seja, os 30 anos de expansão econômica, de pleno emprego e de crescimento industrial que se seguiram ao fim da segunda guerra mundial. Até o fim dos anos 70, mesmo aos olhos de muitos comunistas, a ideia de que nos países da OCDE a classe operária poderia um dia se empobrecer pareceria constituir uma bobagem. O capitalismo ocidental parecia puxar indefinidamente para cima toda a escala das rendas.
Com a crise iniciada em 1973 essas utopias começaram a perder todo crédito. Dezenas de milhares de pessoas começaram a dormir nas ruas. O desemprego envolveu 26 milhões de pessoas na Europa: na Grécia, na Irlanda, em Portugal, a história se repete e verdadeiros fluxos migratórios começam a se formar, de fato, em direção ao Canadá ou Austrália. Falta de recursos, os serviços públicos se deterioram: os transportes urbanos, mas também os setores da saúde, da educação, etc.. Os salários são arrochados de tal forma que um de cada seis franceses vive atualmente do que se chama um “selo de pobreza”. As camadas médias são confrontadas com dificuldades que há 20 anos pareceriam impossíveis. Em síntese, a afirmação do jovem Engels segundo a qual a sociedade capitalista tende a dividir o mundo em milionários e pobres (…bis die Welt in Millionäre und Paupers geteilt ist) não mais surpreende ninguém.
Ou, do ponto de vista ideológico, é necessário constatar que, assim como em outras épocas de crise, a mobilização dos trabalhadores (ou dos não trabalhadores!) em luta pela sobrevivência econômica e social encontra dificuldades redobradas. O fim da União Soviética e a maneira como isso foi apresentado pela propaganda oficial confortaram muitos daqueles que tinham 15 ou 20 anos em 1968 em suas revoltas e protestos mais ou menos totais ao sistema em vigor. O oportunismo varreu os partidos comunistas do oeste da Europa, os quais pareceram considerar como dados intangíveis o estado de “democracia” muito relativa e a prosperidade ainda mais relativa que prevaleciam ainda na Europa nos anos 80, depois mesmo que essa prosperidade começou a marcar passo e que essa “democracia” estava a ponto de ser sistematicamente estraçalhada (votos manipulados, guerra permanente contra as liberdades públicas e direitos sindicais, crescimento exponencial das medidas de controle social e o pântano burocrático neoliberal, etc.).

ENGELS (F.), Esquisse d’une critique de l’économie politique [1844], Paris, Allia, 1998, p. 63.

E assim a Europa, no meio dos anos 80, teve até 17 governos conduzidos por partidos social-democratas, com os resultados que conhecemos: financeirização extrema da economia, afastamento sempre mais pronunciado do Estado, salvo no que toca à “guarda noturna” (exército, polícia); perfeita confusão entre “direita” e “esquerda”, que se alternam desde esta época para impor aos povos um plano de austeridade depois do outro (lembremo-nos do que disse um dia Gianni Agnelli, o dono da Fiat: “quando as coisas se complicam a esse ponto, o trabalho é feito melhor pela esquerda que pela direita”). É assim que na França, no espaço de 30 anos, a parte da riqueza produzida que ultrapassou a remuneração do trabalho, ou seja, os salários, sobre a remuneração do capital, correspondem a 10% do PIB.

MP) A França no governo Sarkozy estava completamente enquadrada na ação imperialista pelo mundo, em especial no norte da África. Na política interna agiu para retirar direitos dos trabalhadores e defender os interesses da burguesia. O projeto Sarkozy foi derrotado eleitoralmente, mas como ficou a França a partir da era François Hollande?

JS) É evidente que Sarkozy encarnou um estilo de chefe de Estado de cultura medíocre, vulgar até, rompendo com a tradição de uma França onde, durante longo tempo, se quis crer que os notáveis deveriam aparecer como mais que simples representantes do meio de negócios.
Sarkozy, que se vangloria ainda de que alguns o denominaram “Sarkozy, o americano” (entenda-se, dos EUA), tudo fez, é incontestável, para alinhar a política francesa com a da Casa Branca, para erradicar até da lembrança a herança de De Gaulle, da política de independência nacional, para fazer esquecer uma política que levou a que, entre nós, a social-democracia fosse, por muito tempo muito mais atlantista… Que nem a maioria da direita o tenha sido. Sarkozy, antes mesmo de assumir a presidência da república, em maio de 2007, (ainda que já ocupasse o cargo de Ministro do Interior) frequentava assiduamente a embaixada americana em Paris. E ele não hesitava em criticar a posição oficial da França – da França que em fevereiro de 2002 colocou seu veto, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando a diplomacia dos EUA tentou uma aprovação da “comunidade internacional” a seus projetos de invasão do Iraque. Nas notas que dirigia regularmente a Washington, Craig Stapleton, o embaixador dos EUA ainda em Paris, confirmou muito naturalmente, segundo o WikiLeaks, que Sarkozy era “visceralmente pró-americano”.
E, com isso, o apoio dado pelo governo Sarkozy a todas as guerras empreendidas pelo Império, o papel de suplemento que ele fez a França adotar no Norte da África (especialmente em março de 2011, no momento da intervenção na Líbia), e o retorno da França ao seio do comando integrado da OTAN (que De Gaulle havia abandonado há 43 anos), tudo isso prova suficientemente que, sob o quinquênio Sarkozy (2007 – 2012), a direita francesa foi convidada a virar definitivamente a página do gaulismo.
Quanto à política interior, Sarkozy tentou limitar o direito de greve, “reformou” as aposentadorias, em um sentido que se pode facilmente adivinhar, fez tudo para que uma verdadeira “regressão securitária” se impusesse na França, inflou os sentimentos xenófobos e exacerbou a psicose da delinquência assim como os temores mais primitivos. Ele não parou de promover uma redução das despesas públicas, que passaram por “reformas” tendendo, de fato, a suprimir um grande número de tribunais, a desmantelar a saúde pública, a desorganizar a Universidade, oprimindo-a cada dia mais.
Agora, o governo François Hollande – que mudou de tudo isso? Muito pouco. A atmosfera imposta por Sarkozy e os seus – onipresença midiática do presidente, tensão permanente na vida política, declarações insultantes dirigidas aos estrangeiros, à juventude desempregada, aos juízes, aos universitários, aos funcionários em geral, aos assalariados em geral, tudo isso parou de um só golpe. Melhor assim! Mas a única medida, a única, que parecia fazer pender um pouco à esquerda o candidato François Hollande, aquela que previa pelo menos 100 milhões de euros de receita, os ganhos suplementares de uma pessoa, seriam taxados em 75%, bem, essa medida foi declarada inconstitucional por uma instância que na França é um dos bastiões do conservadorismo: o Conselho constitucional. Esse mesmo Conselho que, há 30 anos, tinha imposto que fossem dadas “compensações” astronômicas (50 milhões de francos, ou 7,5 milhões de euros) aos patões das empresas que Mitterrand havia, muito provisoriamente, nacionalizado! O governo Hollande acaba de anunciar que vai reduzir de 20 milhões de euros a taxação fiscal sobre as “empresas”.
Vê-se, por todo lado, senadores socialistas justificando as expedições noturnas de “cidadãos honestos” contra um acampamento de ciganos, em Marselha, ainda que o ministro do Interior socialista, Manuel Valls, se deixe apresentar pela mídia como um Sarkozy remodelado, apenas repintado por cores da “esquerda”. Quanto à atitude francesa face à situação na Síria, ela foi mais extrema e unilateral que aquela da administração Obama! Eis que a pequena guerra levada pelo senhor Hollande ao Mali vem completar o quadro de comportamento que essa esquerda de direita, essa “esquerda” que parece cada vez mais à direita. Em síntese, pode-se concordar que os homens mudaram um pouco, mas nada, ou quase nada, foi fundamentalmente modificado.

MP) Na sua compreensão quais são as lutas que tem pautado os trabalhadores franceses e europeus?

JS) Como vocês certamente já sabem, as lutas são, infelizmente, no momento, sobretudo defensivas. Por todo lado, o apetite patronal, ou melhor, a lógica própria do sistema capitalista, faz com que os trabalhadores sejam considerados como “variáveis de ajuste”, ou seja, como uma mão de obra dispensável assim que os lucros começam a parecer com uma tendência de baixa: assim, na França, no setor automobilístico, se prevê por esses dias (janeiro 2013) mais de 11.000 supressões de empregos na PSA Peugeot Citroën, e mais de 8.000 na Renault; a fábrica da Goodyear em Amiens deverá fechar suas portas (1.250 empregos ameaçados); na Virgin, que comercializa “produtos culturais”, serão outros 1.000 assalariados licenciados; Arcelor Mittal, o gigante do aço, decidiu fechar duas aciarias, em Florage e em Lorraine, e após muitos meses, seus trabalhadores estão em desemprego parcial.
E agora a indústria francesa continua a ser deslocada: a produção de televisores foi para a Hungria, onde os trabalhadores ganham um pouco mais de 400 euros por mês (enquanto na França o salário médio dos trabalhadores que tiveram a sorte de não fazer parte dos três milhões de desempregados, seja próximo de 1500 euros); o essencial da indústria têxtil e da vestimenta deslocou-se para o Maghreb e a Ásia; mesma tendência, na Europa inteira, no que concerne aos componentes elétricos e eletrônicos, que está em queda livre desde os 90 e que doravante está, sobretudo na Ásia; uma série de serviços, enfim, tomaram a direção dos países onde o escravismo assalariado é praticado bem mais barato (serviços de contabilidade, por exemplo, ou de telefonia, implantados na África do Norte, no Senegal, ou outros países francófonos). Não se chegou ainda, na França, à arrasadora taxa grega de 48% de desempregados entre os de menos de 24 anos, nem se chegou ainda a reduções de salários de 22% em média, nem aos licenciamentos maciços de funcionários. Mas vemos com inquietude as notícias vindas de lá, assim como da Espanha e de Portugal. Pressente-se que esse vento maligno ameaça o resto da zona do euro e que a afeta desde já de forma geral, em certo grau, é verdade que um pouco menos pelo momento. E cada um sabe que seus filhos encontrarão dificuldades que não foram conhecidas pela geração precedente.
E quanto às lutas? Elas existem, é claro, ainda que elas se “beneficiem” de um impressionante silêncio midiático. Elas se dão “com as costas na parede”, como dizemos em francês: os trabalhadores de PSA, em Aulnay, na periferia de Paris, se puseram em greve para protestar contra o plano de licenciamento que os ameaça? - a direção da fábrica recorre ao lock out, ou seja, ela fecha provisoriamente as portas! Mas as lutas seguem, bem e belas, eu o repito! Apenas no último maio: os funcionários portugueses, que estão entre os mais duramente atingidos pelas medidas de austeridade européias, param massivamente. No mesmo dia, 6 de maio, a Itália conheceu uma greve geral acompanhada de manifestações impressionantes. Em 11 de maio foram os gregos que desceram por sua vez à rua para uma nova jornada de luta contra os planos devastadores que a União Européia e o FMI pretendem impor. E no dia 15, a mobilização dos jovens na Espanha, os “indignados” conseguiram fugazmente que falassem dela, tanto da forma de ação de surpresa, tanto que ela surpreendeu os sindicatos, os quais estavam sem dúvida muito ocupados em negociar uma redução da idade de aposentadoria a fim de assegurar a “paz social” visando tranquilizar “os mercados”. A questão não é tanto a da ausência de lutas, mas a da falta de coordenação, de perspectiva: nós estamos morrendo, literalmente, da falta de organização, da ausência de um Partido digno de seu nome! E cada dia perdido nesse terreno é uma jornada que faz crescer notavelmente o risco de que a exasperação popular seja desviada para o benefício da extrema direita.

MP) Como você avalia a presença política do PCF na conjuntura francesa, algo indica o ressurgimento deste partido?

JS) Eu começaria por vos lembrar que a “Frente de Esquerda”, na qual se insere o pouco que subsiste do Partido Comunista Francês, obteve, nas eleições de junho de 2012, 10 assentos entre os 577 assentos de deputados a ocupar na Assembléia nacional. O Partido Socialista dispõe de 278 deputados! Isto diz a que marginalização estamos reduzidos no plano institucional. Uma historinha que diz muito sobre o clima de decomposição que nos é imposto: Robert Hue, o cantor da “mutação” (em melhor francês, da liquidação) do PCF, Robert Hue, que foi presidente desse partido há apenas dez anos, e que foi membro do grupo comunista no Senado até setembro de 2012, corre hoje, vergonhosamente, atrás de um cargo de ministro no governo Hollande e vai apoiar, sem o mínimo escrúpulo, a intervenção imperialista no Mali. Isso não deixa de ter relação, certamente, com os 30 anos de fugas sucessivas e de oportunismo do PCF, 30 anos que permitiram ao Partido Socialista de encarnar maciçamente aquilo que, não se sabe mais por que, continua-se a chamar de “esquerda”. Na França, o Partido Socialista, apesar de seu passado colonialista, apesar de sua ligação com as políticas neoliberais durante o período Mitterrand, apesar de sua inclinação sempre mais anti-socialista, continua a se beneficiar do desgosto maciço de grande parte da população (que se abstém sempre de votar) e, em certas frações das camadas médias, de uma vaga simpatia mesclada à desilusão. Assim é que esse partido, apesar de todas suas torpezas e traições repetidas, ainda constitui aos olhos de muitos franceses, o único substituto contra uma direita que recorre sempre mais aos compromissos com a extrema direita.
Nesse contexto, vê-se que o marxismo interessa a uma juventude estudantil, que múltiplos movimentos, porém esporádicos assinalam que a recusa do sistema é bastante difundida; vê-se que grupos tentam reconstruir qualquer coisa que teria um esqueleto de perspectiva. Mas é necessário constatar que atualmente é a extrema direita fascistizante que se desenvolve mais rapidamente que todas as outras tendências na Europa, e que, por todo lado, assim que pretendemos “consultar” o povo, ela capitaliza cerca de 20% dos votos. E somos obrigados a constatar, igualmente, que 40 a 60% dos eleitores, apenas, se deslocam ainda aos centros de votação a fim de exercer um direito de votação que eles sabem estar cada vez mais desprezado.

MP) Tenho examinado as lutas dos comunistas franceses, em especial pelo contato que tenho com os dirigentes comunistas, Leon Landini e Georges Gastaud, e através de intelectuais amigos. Como você analisa o papel do PRCF na luta por um partido revolucionário na França?

JS) Eu nutro, evidentemente, muita simpatia e amizade pelo “Pólo de Renascimento Comunista Francês” (PRCF). Ele tem, como se diz, imenso mérito em existir. O problema desses camaradas, desses excelentes camaradas, que não podem contar, no máximo, senão com algumas centenas de militantes ativos, é que eles tiveram, talvez, razão muito cedo. Quero dizer com isso que não estou convencido de que deviam, tão rápido como fizeram, na virada dos anos 2000, abandonar o navio em naufrágio que era o Partido. Eu compreendo perfeitamente que esses camaradas julgaram a situação insustentável; mas eu creio, contudo, que eles operaram prematuramente isso que parece muito como uma cisão. O número nem sempre tem razão, é verdade; é necessário, entretanto, reconhecer que muito poucos comunistas deixaram o partido para aderir a essa ação que, na época, eu julguei um pouco temerária.
E depois, a precipitação pode favorecer um comportamento de seita: assim, a campanha que conduz o PRCF contra o que ele chama, corretamente, de “tudo inglês”, essa campanha que tende a essencialmente salvar a língua francesa (e outras línguas além do globish English), se justifica por muitos argumentos já evidentes. Mas eu a vejo por vezes estreita, além de mesclada com acentos passadistas ou chovinistas.

MP) A crise do capital tem avançado sobre os direitos dos trabalhadores dentro da zona do euro, o caso mais exemplar é o da Grécia. Como você avalia a situação daquele país, e como você examina o papel dos partidos políticos nesse processo, em especial o KKE (Partido Comunista Grego) e o Syriza.

JS) Há modismos em todo mundo, clichês, ideias preconcebidas (que, enfim, acabam por se desfazer). E particularmente em países em via de aculturação ou de regressão cultural, como é o caso, atualmente, para os países da Europa. Devemos combater, por exemplo, mesmo no seio dos movimentos progressistas, a moda de matraquear que, para melhor denunciar e derrubar o velho mundo, nós deveríamos endossar e adotar sem nuances todas as bobagens e calúnias que se puderam proferir contra o “socialismo real” e, especialmente, contra a extinta União Soviética. Ora, existe outra moda, que nossas principais mídias contribuíram para fazer penetrar com desconcertante facilidade nas cabeças, e que, justamente no seio dos movimentos que se declaram em oposição ao sistema: esse que consiste em sustentar, ao menos por alguns meses, que Syrisa é hoje, na Grécia, o caminho, o futuro, a solução de esquerda, assim como o Partido Comunista Grego, constituiria, de seu lado, o pólo de intransigência, do stalinismo, do isolacionismo, do sectarismo, etc..
O que é muito certo, na minha percepção, é que a direita européia se deleitou em constatar que por ocasião das eleições de maio de 2012, uma transferência considerável de votos se operou em benefício do Syrisa (16,62 % dos votos válidos), em detrimento do Partido Comunista (8,42%). Isso significaria que assistimos o começo do fim do KKE? Diferentemente dos comentaristas, muito numerosos e muito interessados, eu não me arriscaria a formular a esse respeito prognóstico tão peremptório e julgamentos tão definitivos.
O Syrisa é, como se sabe, uma herança não tão longínqua dos “eurocomunistas” gregos, aqueles que em 1990 defenderam o voto a favor do tratado de Maastricht, desse tratado que visava a integração política da Europa e que permitiu oficializar o abandono da soberania nacional que, em muitos domínios, os Estados membros sacrificam agora no altar da União. É verdade que uma “autocrítica” se deu depois, mas isso não muda grande coisa no caráter heteróclito dessa coalizão que compreende, além dos comunistas rompidos com o KKE, alguns ecologistas, velhos maoístas, alguns “descrentes”, alguns trotskistas, etc. Em síntese, há uma ala da esquerda e uma ala da direita nesse movimento, e o sistema não se comportaria muito mal se o imenso grito de raiva do povo grego for dirigido (isso seria “clássico”) ao proveito de uma organização agrupando, de alguma forma, portadores de reivindicações radicais e de correntes claramente social-democratas, sempre prontas a compor, senão a trair.
Que reserva o futuro a este infeliz país que foi o berço da civilização européia? Eu não sei estritamente nada, é claro, mas eu posso, de toda forma, emitir esta triste constatação: o agravamento da terrível crise que atinge as camadas populares (com um desemprego de quase 22% dos ativos), o servilismo da classe política local diante de uma série de diktats que a UE impõe à Grécia, assim como a dispersão das forças da (verdadeira) esquerda, contribui, ali mais que em outros lugares, para que se desenvolva um clima favorável à proliferação e impunidade de bandos neonazistas, ao crescimento do racismo, às agressões contra os emigrados, etc. Esperemos que os “desapontados do Syriza” não procurem jamais refúgio desse lado, do lado da barbárie que vem. Em síntese, o que se deve temer, (com o risco de ser repetitivo) é que a Europa do recuo social não se torne tão rapidamente a Europa da regressão histórica, uma Europa na qual o clima deletério poderia se aproximar, em certo prazo, àquela dos anos 30 do último século.

MP) Como professor da Universidade de Paris I, Sorbonne, você tem sido responsável por um ciclo de cursos sobre o marxismo. Nesse processo de renascimento do marxismo na academia francesa, quais são as presenças mais importantes do ponto de vista dos teóricos desse campo de pensamento?

JS) Nós lançamos em 2005, com alguns colegas, um seminário hebdomadário intitulado “Marx no século XXI”, na Sorbonne. Para afirmar ali a presença do marxismo, que diziam morto há tempo. Esse seminário reúne às vezes 200 pessoas, nunca menos de 100. Veja! Neste endereço: http://chspm.univ-paris1.fr/spip.php?article271
Você verá que nós filmamos quase 150 comunicações, pronunciadas por outros tantos convidados. Dezenas de milhares de pessoas seguem cada semana na Internet nossas conferências e outras jornadas de estudo.
Guardadas as proporções, a ideia que preside a apresentação desse seminário era um pouco análoga àquela que, em outros tempos, conduziu Lênin ao fundar seu jornal Iskra, um jornal destinado a reunir, a agrupar mil energias até então dispersas na Rússia dos czares. Para nós se trata de convidar a uma transformação todos e todas que, até aqui, trabalharam, ou pensavam trabalhar, “no seu canto”, isoladamente, nas condições atuais de pesquisa na França e no estrangeiro: pois, aqui, particularmente, as pesquisas marxistas foram durante longo tempo marginalizadas, senão censuradas.
Está claro que a vinda de Domenico Losurdo, Enrique Dussel, David Harvey, ou a de Georges Labica, André Tosel, Daniel Bensaid, Michel Löwy, Slavoj Zizek, etc., constituíram grandes momentos do seminário! E é claro, também, que do ponto de vista político, pessoas como eu se sintam muito próximas de um Losurdo ou de um Labica (este último tendo, infelizmente, falecido). Em relação a outros entre nossos amigos e convidados, apesar da estima que tenho por eles, tenho diversos desacordos com eles, notadamente quanto à sua maneira de abordar a questão do muito necessário balancete da experiência do “socialismo real”.
Dito de outra forma, somos reduzidos nesse momento a compor com aquilo que Immanuel Wallerstein chamou de “mil marxismos”: é o efeito de uma situação tão apaixonante como inquietante, uma situação que é a nossa e que se caracteriza, como já disse, por uma falta cruel de organização revolucionária na Europa justo agora que o sistema balança em sua base.

MP) Você é um intelectual acadêmico vinculado ao pensamento marxista e comunista, com uma importante história de vida: é filho do legendário comunista Henri Alleg. O que você poderia nos dizer, atualmente, sobre a vida deste revolucionário internacionalista?

JS) Meu pai nos deu, efetivamente, uma imagem de um homem que triunfou sobre seus torturadores, não falando apesar das torturas; redigindo um livro, A questão, que as denunciou e fez saber, a todo mundo, qual era o método ao qual se costumava recorrer, na Argélia, durante a guerra colonial; e depois, tendo para si, se ouso dizer, o julgamento da História, pois a sequência e as lutas dos povos amplamente demonstraram que o sistema colonialista, inelutavelmente, deveria colapsar. Para começar pelo período mais recente, vos diria que a vida de meu pai é, atualmente, muito limitada, pois no ano passado foi vítima, aos 91 anos, de um AVC. Mas, para resumir, devo dizer que Henri Alleg é filho de uma inglesa e de um polonês, os dois judeus, que se encontraram em Londres e vieram para Paris. Pequenos comerciantes. Meu pai, aos 18 anos, acreditando que se destinava ao ofício de marinheiro, embarca para a Argélia. Seria uma volta pelo Mediterrâneo, mas ele se apaixona pela Argélia, onde se fixa. Depois de ser militante e depois membro do Partido Comunista Argelino, ele se torna, em 1950 diretor do jornal Argélia Republicana, jornal que viria a militar em favor da independência. E é como tal, como jornalista comunista, que ele sofreu as perseguições e torturas de que falei, comparecendo ao tribunal da “república”, anos de prisão, e depois (após sua fuga) em exílio nos países socialistas. Em 1965, três anos depois da conquista da independência, e dos problemas subsequentes, minha mãe e ele foram coagidos a sair de Argel e vieram se instalar em Paris. Meu pai seguiu seu combate internacionalista trabalhando como redator, e depois como secretário geral, do jornal L’Humanité. De suas grandes reportagens na China, nos EUA, na União Soviética, em Cuba, ele extraiu numerosos livros. O último é seu livro de memórias, Memória argelina, publicado em 2005, pela editora Stock.

MP) Como intelectual e militante comunista você deve viajar por várias partes do mundo. O que poderia nos dizer sobre as lutas dos trabalhadores, há algo de novo no front?

JS) Sim, tenho tido a felicidade de ser convidado de cerca de cinquenta universidades situadas em quatro dos cinco continentes. O quinto, ou mais exatamente a Austrália, provavelmente me verá logo. E tenho participado, certamente, de numerosas reuniões, algumas vezes acadêmicas, porém mais frequentemente diretamente políticas. Isso abre, é claro, horizontes à reflexão. Na China pude constatar que o problema da poluição nas cidades não se reduz, nem um pouco, a um tema de propaganda inventada pelas oficinas ocidentais. Vi também o extraordinário progresso daquele país, esse país que o Império cerca de maneira já ameaçadora (veja-se as bases dos EUA espalhadas ao redor) e que não deixará de agredir, na minha percepção, dentro de um prazo que poderá não ser muito longo. Na Rússia se pode ver hoje os efeitos do capitalismo selvagem imposto desde o golpe de 1991: lojas abertas 24 horas por dia, sete dias por semana, reino do business e da corrupção generalizada, desigualdades ainda mais gritantes que na França, etc..
Mas, mais que jogar como estrategista global, eu vos diria que fiquei impressionado, recentemente, pela seriedade e organização dos camaradas coreanos, que organizaram em setembro último, em Seul, um importante fórum internacional. Eles estão lidando com um modelo quase acabado de “democracia” completamente formal: uma lei dita de “segurança nacional” (que durante muito tempo era chamada simplesmente de “lei anticomunista”) permite, de fato, que o governo jogue na cadeia qualquer um que diga uma palavra que seja a favor da reunificação com o norte, qualquer um que denuncie o sistema de forma um pouco mais radical. Pude ver, nesse país longínquo (que a China e o Japão nos fazem quase esquecer), homens e mulheres dos quais a determinação, a coragem e a qualidade humana me lembraram as belas figuras de comunistas que, na minha juventude, me foi dado admirar.

MP) Como analista de profunda convicção internacionalista, qual a sua análise sobre o Brasil e qual a mensagem que você deixaria para aqueles que lutam pela emancipação humana em nosso País?

JS) Dei aulas, durante algumas semanas, na USP, a grande Universidade de São Paulo, e dei algumas conferências na Universidade São Judas Tadeu, foi em 2007. Devorei sua literatura (Machado de Assis me agrada tanto quanto Sterne e certos romancistas franceses que, como Crébillon, por exemplo, eu aprecio particularmente). E depois, mas não foi senão turismo, tive o prazer de descobrir Caraguatatuba, Paraty, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Ouro Preto, Salvador, etc.. Que poderia eu dizer que não parecesse emanar de lições ou, ao menos, de um intelectual que emite julgamentos sem conhecer grande coisa sobre o que fala? O que eu poderia dizer, talvez, como aquela da China de outros tempos, a imagem “midiática” do Brasil mudou radicalmente nos últimos 20 anos. Do Brasil dos trabalhadores superexplorados, do Brasil que, durante muito tempo, nosso imaginário ocidental prontamente reduzia ao Nordeste, e a sua miséria apavorante, do Brasil que era descrito, por exemplo, em Cacau de Jorge Amado, passamos a um Brasil que nossas mídias apresentam como um país em pleno progresso, como um gigante em formação, como um “concorrente” muito sério para as economias cambaleantes da velha Europa, etc.. E essa evolução foi acompanhada de uma unanimidade alardeando sem qualquer nuance a política do governo Lula. Quando o Tesouro estadunidense, os grandes bancos de negócios e as agências de classificação vos dirigem louvações, é em suma normal que os “mídia” do sistema vos tratem com uma deferência entusiasta. É muito justo se os negócios de corrupção foram evocados, mas de passagem, por nossas “mídias” oficiais.
Em compensação, se fala muito pouco, na Europa do Oeste, das desigualdades abissais que subsistem no Brasil. Nem uma palavra sequer, deste lado do Atlântico, salvo, eventualmente, no Le Monde Diplomatique, sobre essas dinâmicas esquizofrênicas que bloqueando fundos para uma agricultura familiar continuaram a privilegiar um modelo de desenvolvimento agrário fundado sobre as monoculturas de exportação e o agrobusiness. Isso, como na Europa, mas eu penso que, com mais razões que na Europa, vocês já poderiam esperar que a falsa esquerda apareceria como tal aos olhos dos trabalhadores de vosso país, e que os movimentos como o vosso se amplificarão sempre mais e logo obterão novos sucessos.

MP) Gostaria de agradecer a sua generosidade em nos conceder esta entrevista que será editada para o jornal Brasil de Fato, que representa importantes movimentos populares no Brasil, a exemplo do Movimento dos trabalhadores sem terra (MST). Mas que será encaminhada, também, para publicação na íntegra no site do histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB), que no passado completou 90 anos de luta.

JS) Obrigado…

*Jean Salem é um filósofo francês, militante das lutas anticapitalistas e comunistas, estudioso da filosofia materialista greco-romana, professor da Universidade de Paris I (Sorbonne), onde coordena o seminário “Marx no Século XXI”, é diretor do Centro Para a História do Pensamento Moderno, autor de vários livros e conferencista em diversas universidades na França e no mundo.

**Milton Pinheiro é um Cientista Político brasileiro, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), editor da revista Novos Temas, autor e organizadorde vários livros, entre eles, A Reflexão Marxista Sobre os Impasses do Mundo Atual (Outras Expressões, São Paulo, 2012) e membro do CC do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Tradução: Ernesto Pichler e Milton Pinheiro.

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