Jogo de sombras: a aliança eurasiática está mais próxima do que se pensa

Pepe Escobar    08.Sep.20    Outros autores

As complexas dinâmicas em andamento no tabuleiro geopolítico mundial são de muito diversa ordem. Se prevalecerem as de carácter económico, parece clara a tendência a um reordenamento “euroasiático”, que interessaria tanto Rússia e China como a Alemanha. Mas outras dinâmicas em presença, nomeadamente a configurada pela agressiva estratégia EUA-NATO desempenharão um papel igualmente determinante.

Por trás do nevoeiro das informações aproxima-se um reordenamento mundial com o continente eurasiático como protagonista. Vimos como a China está a planear meticulosamente todos os seus decisivos movimentos geopolíticos e geoeconómicos até 2030 e mais além.
O que estão prestes a ler em seguida vem de uma série de conversas com analistas de inteligência, e pode ajudar a esboçar os contornos do actual grande tabuleiro do xadrez da política mundial.
Na China, está claro que o caminho a seguir visa impulsionar a procura interna, e a direccionar toda a sua política monetária para consolidar a construção de indústrias nacionais de nível mundial.
Paralelamente, discute-se em Moscovo: deve a Rússia seguir o mesmo caminho?
Segundo um analista de inteligência russo, “a Rússia não deveria importar nada, excepto as tecnologias de que precisa até que possa criá-las por si mesma e exportar apenas o petróleo e o gás necessários para pagar as importações. A China precisa de recursos naturais, o que torna a Rússia e a China aliados insuperáveis. Uma nação deve ser tão autossuficiente quanto lhe seja possível”.
A estratégia do Partido Comunista da China (PCC) foi traçada pelo presidente Xi na reunião do Comité Central de 31 de Julho … e foi contra uma ala neoliberal do partido que sonhara com a conversão do partido numa organização social-democrata ao estilo ocidental e sujeita aos interesses do capital ocidental - colaboracionistas?
Comparar a velocidade do desenvolvimento económico da China com o dos Estados Unidos é como comparar um Maserati Gran Turismo (com um motor V8) a um Toyota Camry.
A China, proporcionalmente, tem uma reserva de jovens gerações muito bem-educadas; migração rural-urbana acelerada; uma rápida erradicação da pobreza; grande capacidade de poupança da sua população; um sentido cultural de gratificação diferida; uma sociedade – confucionista - com disciplina social e com uma inteligência racionalmente educada.
O processo de a China comerciar cada vez mais consigo mesma será mais do que suficiente para manter o necessário impulso para um desenvolvimento sustentável.

O factor hipersónico

Entretanto, na frente geopolítica, o consenso em Moscovo (desde o Kremlin até ao Ministério das Relações Exteriores) é que a administração Trump não é “capaz de chegar a um acordo”, um eufemismo diplomático que se refere a um grupo de embusteiros que nem é “capaz de actuar legalmente”. Outro eufemismo que se aplica, por exemplo, à ruptura de acordos por parte de Trump.
O presidente Putin disse recentemente que negociar com a equipa Trump é como jogar xadrez com um pombo maluco: uma ave que caminha sobre o tabuleiro, caga indiscriminadamente, derruba peças, declara vitória e depois foge.
Em contraste, o governo russo investe o seu tempo em construir uma aliança euro-asiática unindo Alemanha, Rússia e China.
Este cenário aplicar-se-á na Alemanha pós Frau Merkel. Segundo um analista norte-americano, “a única coisa que trava a Alemanha é que podem perder as suas exportações de automóveis para os Estados Unidos. Mas isso pode acontecer imediatamente devido à taxa de câmbio dólar-euro, com o euro cada vez mais forte”.
Na frente nuclear, e indo muito mais além da actual situação na Bielorrússia (já que não haverá qualquer Maidan em Minsk), Moscovo deixou muito claro que qualquer ataque com mísseis da NATO será interpretado como um ataque nuclear.
O sistema de mísseis defensivos da Rússia - incluindo os já comprovados S-500 e os novos S-600 - poderia ser 99% eficaz. Isto significa que os russos teriam que absorver algum tipo de castigo. Por esse motivo, a Rússia construiu uma extensa rede de abrigos nucleares nas grandes cidades para proteger pelo menos 40 milhões de pessoas.
Os analistas russos explicam que a abordagem defensiva da China segue a mesma linha. Pequim estaria a desenvolver - se ainda o não fez - um escudo defensivo, com capacidade para contra-atacar um ataque de mísseis nucleares norte-americanos.
Os melhores analistas russos, como Andrei Martyanov, sabem que as três principais armas de uma possível próxima guerra serão; os mísseis, os submarinos (ofensivos e defensivos) e as ferramentas de guerra cibernética.
A arma chave hoje em dia - e os chineses notoriamente entendem-no - são os submarinos nucleares. Os russos observaram que a China está a construir uma frota de submarinos - com mísseis hipersónicos - muito mais rapidamente que os EUA. As frotas de superfície estão obsoletas. Uma miríade de submarinos chineses pode facilmente acabar com a força de ataque de um porta-aviões. As forças de ataque dos porta-aviões norte-americanos são de muito pouco valor nas actuais circunstâncias.
O que incentiva a China a obter a maior parte dos seus recursos energéticos por via terrestre a partir da Rússia explica-se por uma estratégia: esta será a rota segura caso os mares fiquem bloqueados - ao tráfego comercial - por uma guerra entre os Estados Unidos de um lado e Rússia e China do outro.
Inclusivamente, se os oleodutos são bombardeados podem ser reparados em muito pouco tempo. Daí a importância que tem para a China da série de projectos conjuntos com a empresa Gazprom da Rússia.

O factor Ormuz

Um segredo muito bem guardado em Moscovo é que logo após as sanções alemãs impostas a propósito da Ucrânia, um importante operador mundial de energia abordou a Rússia com uma oferta para desviar para a China nada menos que 7 milhões de barris por dia de petróleo mais uma imensa quantidade de gás natural. Aconteça o que acontecer, a proposta continua sobre a mesa de um assessor de petróleo e gás do presidente Putin.
No caso de isso acontecer, a China garantiria todos os recursos naturais de que necessita. Nessa hipótese, a lógica russa seria evitar as sanções alemãs mudando suas exportações de petróleo para a China, que do ponto de vista russo é mais avançada em tecnologia de consumo do que a Alemanha. Claro que este cenário não impediu a iminente conclusão do Nord Stream 2.
Os serviços de inteligência deixaram muito claro aos industriais alemães que se a Alemanha perdesse a sua fonte russa de petróleo e gás natural, e o Estreito de Ormuz fosse bloqueado pelo Irão (no caso de um ataque norte-americano), a economia alemã poderia simplesmente entrar em colapso.
Houve sérios debates entre os serviços de inteligência sobre a possibilidade de uma “surpresa de Outubro” patrocinada pelos Estados Unidos, que agindo sob uma bandeira falsa acuse o Irão de iniciar uma guerra. A ” máxima pressão ” da equipa Trump sobre o Irão não tem absolutamente nada a ver com o Tratado de Controlo de Armas Atómicas. O que importa é que, mesmo indirectamente, a parceria estratégica entre a Rússia e a China deixou muito claro que Teerão será protegido como um activo estratégico - e como um nó-chave da integração da Eurásia.
Os analistas de inteligência concentram as suas preocupações num cenário - bastante improvável - de um colapso do governo de Teerão. A primeira coisa que Washington faria nesse caso seria ligar o sistema de compensação SWIFT. O objectivo seria esmagar a economia russa. Se esse cenário viesse a ocorrer, a China poderia perder os seus dois aliados chave num único movimento, e então ter que enfrentar Washington sozinha, numa etapa em que ainda não pode garantir todos os recursos naturais necessários.
Essa situação seria uma verdadeira ameaça existencial. Isto explica a lógica por detrás da crescente interconexão da parceria estratégica Rússia-China, a aceleração ao máximo da fusão dos sistemas de pagamento Mir russo e CHIPS chinês, os mais de US $ 400 milhares de milhões do acordo China-Irão com 25 anos de duração e as medidas para contornar o dólar dos EUA no comércio internacional.

Bismarck regressou

Outro possível acordo secreto já discutido nos mais altos níveis de inteligência é a possibilidade de um Tratado de Resseguros (inspirado no Chanceler Bismarck) a ser estabelecido entre a Alemanha e a Rússia. A consequência inevitável seria uma aliança de fato Berlim-Moscovo-Pequim que englobaria a Belt and Road Initiative (BRI), juntamente com a criação de uma nova moeda eurasiática (digital?) para a aliança eurasiática, que incluiria importantes mas periféricos como França e Itália.
Bem, o eixo Pequim-Moscovo já está em funcionamento. Berlim-Pequim é um trabalho em progresso. O elo ainda desconhecido é Berlim-Moscovo.
Esta mudança mundial representaria não apenas o último pesadelo para as elites anglo-americanas - superadas por Mackinder - mas também a passagem da tocha geopolítica dos impérios marítimos para o coração da Eurásia.
Já não é uma ficção. Agora está sobre a mesa.
Por um momento, façamos uma pequena viagem no tempo e vamos para o ano de 1348. Os mongóis estão na Crimeia, sitiando a cidade de Kaffa - um porto comercial no Mar Negro controlado pelos genoveses. Repentinamente, o exército mongol é reduzido pela peste bubónica. Os seus generais lançam os cadáveres contaminados sobre as muralhas da cidade da Crimeia.
Que acontece quando os navios voltam a navegar de Kaffa a Génova. Transportaram a praga para Itália. Em 1360, a Peste Negra estava literalmente em toda a parte, de Lisboa a Novgorod, da Sicília à Noruega. Estima-se que até 60% da população da Europa pode ter morrido, mais de 100 milhões de pessoas.
Alguns historiadores argumentam que o Renascimento se atrasou um século inteiro devido à praga.
A Covid-19, é claro, está longe de ser uma praga medieval. Mas seria apropriado perguntar: que Renascimento poderia estar a actual pandemia a atrasar?
Pois bem, o Renascimento da Eurásia poderia estar a adiantar-se. Isto ocorre exactamente quando o antigo hegemon está a implodir internamente, “distraído pela distracção”, para citar T.S. Elliot.
Por detrás do nevoeiro, dos jogos de sombras, estão já em marcha os movimentos transcendentes que reorganizam a grande massa terrestre eurasiática.

Fonte: https://observatoriocrisis.com/2020/08/29/juego-de-sombras-la-alianza-euroasiatica-esta-mas-cerca-de-lo-que-se-cree/

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