“Julgar o regime e a democracia”

Manuel Loff    17.Abr.21    Outros autores

«O percurso de Sócrates é típico daqueles dirigentes políticos que, sem origem em berço de ouro, tudo fazem para obrigar os ricos a precisar deles, sem pôr minimamente em causa as normas intrínsecas do sistema que os faz ricos. Ao contrário do que quis dizer com a sua bem conhecida petulância, Sócrates não os venceu: imitou-os, enchendo-se “daquilo de que eu gosto muito”»

Foi “uma alegre sexta-feira para André Ventura”, como lhe chamou nestas páginas Ana Sá Lopes. É claro que muita água passará por debaixo das pontes da Justiça até que saiam sentenças definitivas, mas é óbvio que a também alegre sexta-feira que tiveram Sócrates, Salgado, Granadeiro e Bava vai ter consequências (veremos se passageiras; eu duvido) no agravamento da crise de legitimidade do nosso sistema democrático. A perceção cada vez mais negativa que dele tem uma grande parte da sociedade atinge níveis muito perigosos, especialmente no contexto depressivo e ansiógeno que a pandemia instalou por muito tempo. O que me interessa aqui discutir não é o peculiar modelo explicativo da realidade que Ivo Rosa adotou, mas sim como o caso Sócrates demonstra à saciedade, histórica e politicamente, o processo de reoligarquização do sistema político português que o cavaquismo (1985-95) iniciou, o guterrismo (1995-2002) prosseguiu e que os governos da financeirização da economia consolidaram (Durão, Santana, Sócrates e Passos).

Ela foi (e é) caracterizada por aquilo que se descreve como a “integração sistémica” entre governantes e mundo dos negócios, pela “promoção de uma meteórica mobilidade social ascendente” que se verifica sempre que “a passagem pelo governo se torna [um] momento de trânsito social e de classe” (Jorge Costa e outros, Os Donos de Portugal. Cem Anos de Poder Económico (1910-2010), 2010).

O desmantelamento, a partir dos anos 80, do modelo económico democratizador que a Revolução tinha construído (gestão pública dos serviços e dos setores essenciais da economia, a começar pela banca) foi protagonizado por políticos profissionais que, militando nos partidos do poder (PSD, PS, CDS), organizaram a reconfiguração das elites económicas portuguesas, recompondo os velhos grupos económicos (os 7 Magníficos do salazarismo) e rearticulando-os com os novos (Amorim, Sonae) e com o capital internacional.

Pelo meio, imitaram os liberais do séc. XIX e os salazaristas do séc. XX: desenharam um lugar para si, fazendo-se cooptar pela elite dos mais ricos do país. Na entrevista de 2013 a Clara Ferreira Alves, no Expresso, Sócrates queixava-se dos “tiques da oligarquia” com que se teria defrontado quando chegou a ministro, assumidos por uns “gajos que se achavam a aristocracia”. “[E que] pensavam que eu tinha de ir lá pedir, pedir se podia, pedir autorizações. E eu pensei: ‘Raios vos partam, vou vencer-vos a todos!’ E foi o que fiz!”

Para lá da evidente semelhança com a retórica de Cavaco, o percurso de Sócrates é típico daqueles dirigentes políticos que, sem origem em berço de ouro, tudo fazem para obrigar os ricos a precisar deles, sem pôr minimamente em causa as normas intrínsecas do sistema que os faz ricos. Ao contrário do que quis dizer com a sua bem conhecida petulância, Sócrates não os venceu: imitou-os, enchendo-se “daquilo de que eu gosto muito”. Tudo isto foi possível, e pode voltar a sê-lo, porque “os governos são cruciais para o êxito dos mercados [capitalistas] de muitas maneiras: porque fazem possíveis ou impossíveis os monopólios relativos, porque são compradores em grande escala (…) e porque manipulam as decisões macroeconómicas”. Para conseguir o seu controlo, e “como os políticos devem dar prioridade à sua subida ou à sua permanência no poder e têm grandes necessidades financeiras, não há um só capitalista que possa ignorar esta óbvia fonte de pressão sobre os governos (…). Por consequência, a corrupção é absolutamente normal e inextrincável da atual vida política da economia-mundo capitalista” (Immanuel Wallerstein, La Decadencia del Imperio, 2004). Depois de se descrever como “o chefe democrático que a direita sempre quis ter!” (Expresso-Revista, 13/10/2013), o egocêntrico Sócrates vem agora fazer-se de alvo prioritário do “primeiro partido da extrema-direita no Portugal democrático” — não só já outros houve antes deste, como nunca se viu Sócrates preocupado com a extrema-direita quando estava no governo. Segundo ele, o Chega teria visto no processo que lhe é movido “a oportunidade para julgar o regime e a democracia — afinal de contas era um antigo primeiro-ministro acusado de corrupção” (PÚBLICO, 12/4/2021). Nisso tem ele razão. Se a Justiça não o condenar, a História julgá-lo-á por ter contribuído como poucos para o avanço do neofascismo em Portugal.

Fonte: “Público”, 13.04.2021

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