Julio Anguita, procurando água potável

Angeles Maestro    20.May.20    Outros autores

Julio Anguita tentou corajosamente, e arriscando a sua saúde, sair do roteiro estabelecido desde a Transição para a esquerda institucional. Soube quão implacável é o poder que enfrentou e em que medida é governado com mão de ferro pelo PSOE e seus aparelhos. E a parte mais difícil, sem dúvida, foi verificar como mesmo de dentro da sua organização se contribuía decisivamente para fechar o cerco. É mais do que provável que dessas mesmas mãos saiam crónicas elogiando a sua figura. O certo é que Julio Anguita, com os seus erros como os de qualquer ser humano, entre os quais gostaria de não ter visto seu aval à operação Podemos - que é em todos os aspectos semelhante à que ele se recusou a levar a cabo - passará à história como um dirigente digno e honesto.»

Sinto a necessidade de escrever sobre a história política de Julio Anguita, dos anos - de 1988 a 2000 - em que ambos vivemos muito intensamente e de perto os acontecimentos que o converteram numa figura importante da história do movimento operário espanhol, precisamente porque é muito provável que sejam ocultados ou deturpados. E quero falar sobre aquilo que creio que deve ser recordado.

O seu confronto directo com o pilar básico da Transição e garante da continuidade dos aparelhos de Estado da Ditadura - o PSOE - esteve, além disso, directamente relacionado com os sucessivos enfartes que deixaram maltratado o seu coração, que hoje deixou de bater.

Julio Anguita chegou à secretaria geral do PCE e posteriormente à direcção da IU como coveiro do carrilhismo, do Pacto de Transição e do “Juntos podemos” do PCE com o PSOE. O seu confronto com Santiago Carrillo, quando era alcalde de Córdoba, chegou a tal ponto que esteve durante 24 horas expulso do partido.

O aparelho político e institucional que hoje se define como o Regime de 78 foi então caracterizado pela IU de Julio Anguita através do símile das “duas margens”. E do outro lado estavam o PP e o PSOE. Os argumentos para identificar o PSOE como representante político dos interesses do capital eram quase inesgotáveis, e Julio Anguita denunciou-os todos: a destruição do tecido produtivo disfarçada de reconversão industrial, as privatizações de empresas públicas, a cultura da “golpada”, as corrupções massivas da Expo, Filesa, do AVE, Ibercorp, o caso Guerra, o caso Roldán e tantos outros, as sucessivas contra-reformas laborais, a entrada na NATO e a vulnerabilização de todas as condições do SIM, cujo remate foi a secretaria-geral da Aliança para Javier Solana, etc. E o mais difícil, a implacável denúncia daquilo que demonstrava palpavelmente a sobrevivência do franquismo nos aparelhos do Estado, sobretudo na polícia e na Guarda Civil: o terrorismo de estado do GAL organizado e alimentado pelo governo de Felipe González.

O confronto foi atroz porque visava obrigatoriamente não apenas o PSOE mas os seus aparelhos de poder: o Grupo Prisa, com o jornal El País à frente, e a liderança das CC.OO.

Para que nada faltasse, foi organizado pelas mãos do PSOE e das CC.OO. um satélite dentro da própria Izquierda Unida. O grupo foi chamado Nueva Izquierda e Iniciativa per Catalunya (IC). A sua actividade foi de oposição frontal às políticas encabeçadas por Anguita e apoiadas pela maioria da organização. Os seus dirigentes acabaram todos ocupando lugares nos governos ou nos parlamentos em representação do PSOE.

As tensões dentro da IU eram brutais e não apenas por causa da luta aberta com Nueva Izquierda e IC. Dentro da suposta maioria exercia-se um trabalho de sapa permanente, apoiado pela direcção do PCE, procurando arrastar a IU para o único lugar possível, segundo eles: como satélite do PSOE em governos e parlamentos.

Significativamente, Julio Anguita teve o seu primeiro enfarte em Barcelona, ​​um dos focos fundamentais da oposição interna encabeçada por Rafael Ribó, um dos liquidadores do PSUC e hoje Sindic de Greuges (Provedor do Povo) da Catalunha.

Tinha havido no Congresso dos Deputados a importantíssima votação sobre a validação parlamentar do Tratado de Maastricht, em que os três deputados da Nueva Izquierda - Nicolás Sartorius, Pablo Castellanos e Cristina Almeida - quebraram o acordo da IU e votaram Sim. Após isso foram considerados auto-excluídos da organização.

Posso assegurar que as enormes tensões desencadeadas por esses poderosos grupos de pressão que tinham Julio Anguita como objectivo central foram a causa directa do seu primeiro e grave ataque cardíaco.

Ele recuperou, mas a guerra continuava no calor da luta de classes. Como resposta ao Pacto Social permanente das direcções das duas centrais sindicais maioritárias, precisamente quando eram realizados a partir do governo os ataques mais violentos contra a classe trabalhadora, organiza-se nas CC.OO. o Sector Crítico. Encabeçado por Marcelino Camacho e Agustín Moreno, este importante grupo é constituído em 1996 em confronto aberto com a direcção da central, apostando por um sindicalismo combativo e próximo a posições da IU, sobretudo na sua oposição à UE.

O cerco às posições da IU encabeçada por Julio Anguita aumentava. As direcções das organizações territoriais da IU aparentavam apoiar as políticas aprovadas e passeavam o coordenador da IU pelas campanhas eleitorais, encantadas por receber os votos que ele atraía, quando na prática a aproximação dessas federações à tríade - direcção das CC. OO., PSOE e El País – era cada vez maior. Para ilustrar essa situação esquizofrénica, tomemos o exemplo da Federação de Madrid - encabeçada por Ángel Pérez - supostamente enquadrada na “maioria” da IU, ao mesmo tempo que governava com o PSOE em importantes cidades da região, ligada à especulação imobiliária e com destacados membros que mais tarde apareceriam implicados no caso dos cartões Black de CajaMadrid.

Em 1998 é impulsionada, sob a direcção da IU encabeçada por Julio Anguita, a criação da Plataforma pelas 35 horas por Lei, sem redução de salário, eliminação de horas extraordinárias, redução da idade de reforma, etc., juntamente com o setor crítico das CC.OO, CGT, o Movimento contra a Europa de Maastricht e outras organizações sociais e sindicais. Esta Plataforma foi organizada com a vocação de servir como incentivo estratégico para a reconstrução da independência de classe de um movimento operário combativo. Foi elaborado um importante argumentário que demonstrou que os aumentos de produtividade desde 1976 tinham ido engordar os lucros das empresas e que, se aplicados à redução do tempo de trabalho, teriam permitido uma semana de trabalho de 25 horas.

A recolha de assinaturas para a apresentação de uma Iniciativa Legislativa Popular (ILP) para promulgar as 35 horas por lei nas condições descritas não era o objectivo fundamental. O trabalho de explicação em oficinas, fábricas e locais de trabalho, e as assinaturas deviam servir como ferramenta para formar conselhos unitários de trabalhadores e alterar a correlação de forças no sentido de posições de independência de classe e de combate. E nessa tarefa a militância da IU nas empresas tinha que desempenhar um papel fundamental.

O boicote no interior da IU à execução prática dos acordos adoptados funcionou desde o primeiro momento. Julio Anguita e aqueles que apoiávamos o projecto pudemos verificar como nos territórios fundamentais (Madrid, Andaluzia, Astúrias ou Catalunha), a mobilização da militância era directamente sabotada.

Foram recolhidas no tempo previsto muito mais assinaturas do que as necessárias, mas o projecto estava mortalmente ferido. A grande manifestação em Madrid no dia da votação parlamentar, com a presença de gente de todo o Estado, que deveria iniciar uma nova fase de reorganização e luta, resultou um grande fracasso. A ILP votada em Novembro de 1999 foi derrotada, conforme era previsto, mas em vez de abrir um caminho de reconstrução do movimento operário e popular, marcou o triste fim de um processo voluntariamente abortado.

E foi a última tentativa. Na reunião imediatamente seguinte do Conselho Político Federal, o cerco fechou-se. O tempo das máscaras dos principais dirigentes do PCE e das Federações, que asseguravam à boca pequena o apoio ao Coordenador para depois agirem exactamente o contrário, terminou. Já só faltava baixar a cortina sobre um período em que uma força política institucional resistia a ajoelhar-se diante dos aparelhos de poder.

Nessa reunião no início de Dezembro de 1999, Julio Anguita, emaciado e derrotado, aceitou uma emenda de Paco Frutos, secretário-geral do PCE, que propunha levar a cabo aquilo que toda a política da IU havia negado até então: pactos pré-eleitorais com o PSOE nas próximas eleições gerais do ano seguinte.

Poucos dias depois, em 16 de Dezembro de 1999, Julio Anguita era internado com uma nova e grave crise cardíaca e era operado de urgência. Mas a cilada não terminou aí. Quatro altos dirigentes da organização tiveram a pouca vergonha de ir à UVI, onde ele recuperando da intervenção, para pedir-lhe a demissão como Coordenador Geral da IU. As eleições de 2000 estavam ao virar da esquina. Havia que executar o pacto com o PSOE, neste caso com Almunia, e Paco Frutos foi nomeado Coordenador Geral. O lema eleitoral era todo um aceno à participação no futuro governo: ” Somos necesari@s”. O PP conseguiu uma inesperada maioria absoluta, resultado do colapso do PSOE e do afundamento da IU, que perdeu metade do seu eleitorado e 13 deputados.

Nas eleições de 2004, com Gaspar Llamazares como Coordenador Geral, a IU continua a sua queda livre, perdendo de novo metade dos votos que lhe restavam. Analisando o descalabro eleitoral da IU, um editorial de ABC lamentava-se da sua derrota, argumentando - num brilhante exercício de coerência de classe - o papel desempenhado pelo PCE desde a Transição e depois pela IU como barreira de contenção para impedir o surgimento de uma esquerda “antissistema”.

Julio Anguita tentou corajosamente, e arriscando a sua saúde, sair do roteiro estabelecido desde a Transição para a esquerda institucional. Soube quão implacável é o poder que enfrentou e em que medida é governado com mão de ferro pelo PSOE e seus aparelhos. E a parte mais difícil, sem dúvida, foi verificar como mesmo de dentro da sua organização se contribuía decisivamente para fechar o cerco.

É mais do que provável que dessas mesmas mãos saiam crónicas elogiando a sua figura. O certo é que Julio Anguita, com os seus erros como os de qualquer ser humano, entre os quais gostaria de não ter visto seu aval à operação Podemos, que é em todos os aspectos semelhante à que ele se recusou a levar a cabo, passará à história como um dirigente digno e honesto.

Vêm-me hoje insistentemente à memória umas palavras de Silvio Rodriguez que lhe escrevi naqueles anos como dedicatória de um livro, e que bem poderiam ficar escritas no seu túmulo: «Foi de planeta a planeta, procurando água potável, procurando a vida ou procurando a morte, isso nunca se sabe. O mais terrível aprende-se depois e o belo custa-nos a vida».


Fonte: https://redroja.net/articulos/julio-anguita-buscando-agua-potable/

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos