Lições aprendidas

Manuel Loff    17.May.19    Outros autores

O governo minoritário do PS abriu uma “crise” e, uma vez resolvida a “crise” com a cedência em toda a linha do PSD e do CDS, esforça-se por fazer esquecer o que esteve realmente em causa: o completo desrespeito pelos legítimos direitos de um grupo profissional. E dar mais um sinal a todos os trabalhadores de que os seus direitos são contrários à “credibilidade do país”. E isto não tendo o PS maioria. O que faria se a tivesse…

O truque politiqueiro de António Costa, que deleitou os tudólogos da política e os media, deixa-nos algumas lições sobre o que Costa e Centeno querem fazer connosco depois de Outubro.

1. Voltar a domar a força de trabalho. Se inteiras classes profissionais e uma grande parte dos trabalhadores ganharam novas expectativas quando julgaram que, derrotando a direita, derrotavam a austeridade punitiva, é preciso não lhes conceder vitórias; ensinar-lhes que apenas ganharão (no ciclo em que vivemos, nem é “ganhar”: é simplesmente tentar recuperar) o que o poder lhes outorgar na sua sabedoria de quem sabe o que é melhor para nós, e que, pelo contrário, não são greves, manifestações, persistência, não desistir nunca, que torce a mão ao poder (do Governo ou do patrão). Essa pedagogia socialmente reacionária esteve bem presente nestes últimos dois anos de enfrentamento do Governo com sectores inteiros dos trabalhadores do Estado, destilada no discurso rançoso e paternalista da “irresponsabilidade” das greves, que as descreve como “um direito” quando não doem e uma “ofensa à sociedade” quando, pelo contrário, encostam o Governo (ou a Administração do Porto de Setúbal, por exemplo) à parede. Em tudo isto, Costa regressou à tradição histórica (Soares, 1976-77 e 1983-85, Sócrates, 2005-11) que do PS conhecíamos demasiadamente bem: se necessário, ofender os direitos e esmagar as expectativas dos grupos sociais que os levaram ao poder, punindo-os com a mesma política e a mesma explicação moral que a direita usa(ria), ao mesmo tempo que se lhes pede gratidão porque com a direita seria ainda pior…

2. Inscrever Centeno na História como outro mago das Finanças — antes, claro, de ele acabar em Bruxelas, ou num gabinete secundário do BCE, ou, pior um pouco, em alguma consultoria da Goldman Sachs, daquelas que o Norte entrega a um “bom aluno” do Sul para que o guie pelos Suis do mundo. Esta categoria ficcional dos magos das Finanças tem, como sabemos, grande sucesso em Portugal. A Salazar, 90 anos depois, metade dos quais em ditadura, garantiu-lhe presença em todos os manuais de História do 9.º ano, com essa frasezinha equívoca de “pôs ordem nas Finanças” que aparece sempre depois daquela fórmula acéfala da I República = 16 anos de “desordem”. Cavaco quis entrar pela mesma porta da História: trazer “ordem” depois da “desordem revolucionária”. Que, pelo contrário, tenha feito apenas aquilo que Sá Carneiro precisava, em 1979, que ele fizesse (gastar o suficiente para lhe assegurar uma vitória eleitoral em 1980 e, assim, permitir o arranque da ofensiva contra a Constituição de 1976 e enterrar definitivamente a Revolução), é apenas uma prova mais de como estes mitos se constroem à revelia da realidade. O mito do “mago” Centeno, como todos, está cheio de moralismo, e do pior moralismo económico. Ele jura que ceder aos professores essa coisa tão objectiva quanto um tempo efetivamente trabalhado seria “hipotecar” o futuro de todos, usando números que (escuso de o tentar demonstrar aqui, a própria UTAO já o fez) são puro patinanço aritmético e que fazem de Centeno e do seu gabinete puros fakers. Numa sociedade ainda cheia de medo e de ansiedade pelo futuro (esse seguro de vida de todas as formas de dominação), percebe-se que tudo isto se faça sem se explicar as consequências do peso esmagador que tem sobre a economia e a vida das pessoas que o Estado pague sem discutir as dívidas do sector financeiro, estratosfericamente acima de tudo quanto teria que pagar aos professores. O que Centeno pede a milhões de portugueses com salário e reformas mínimas é que não tentem perceber sequer a enormidade das injeções na banca, mas que se escandalizem com os “privilégios” dos professores, desrespeitadores do resto dos funcionários, dos alunos, dos pais, dirigidos por um “extremista” que é preciso parar definitivamente! Essa é a moral desta história: “a equidade entre os portugueses e a credibilidade internacional de Portugal” (Costa, 6.5.2019) está em causa se se reconhecerem os direitos objectivos de quem trabalhou — porque trabalhou! —, mas não está ao se encobrir com milhares de milhões de euros os crimes dos banqueiros, nem é descredibilizador do país que eles e os Berardos permaneçam impunes. Credibilizante é que um daqueles governantes que diziam rezar todos os dias pela “estabilidade política” garanta mandar abaixo um Governo por este ser obrigado a retomar uma negociação que julgava ter fechado para todo o sempre. De repente, voltámos a 2011.

Fonte: Jornal “Público”, 16.05.2019

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