Lucros COVID*

Jorge Cadima    04.Ene.21    Outros autores

Com a pandemia, os 2189 bilionários do planeta elevaram «as suas já enormes fortunas para um nível recorde de 10,2 triliões [10.200.000.000.000] de dólares», mais do dobro do PIB do Japão. Em contrapartida, não há ricas potências capitalistas entre os 25% de países com menos mortes per capita. Mas estão lá a China, com 3,32 mortos por milhão de habitantes (500 vezes menos que a Bélgica), o Vietname (35 mortes, 0,36 por milhão) e o Laos (zero mortes!). Para os governos ao serviço do grande capital, a saúde é um negócio lucrativo e não um serviço público.

Para milhões de pessoas, 2020 foi trágico. Dramas de saúde, emprego, rendimentos, pobreza e fome. Mas para os multimilionários, foi um ano de bonança. A pandemia tem marca de classe.
Um relatório do Banco Suíço UBS afirma (Guardian, 7.10.20) que os 2189 bilionários do planeta se deram «extremamente bem» com a pandemia, «elevando as suas já enormes fortunas para um nível recorde de 10,2 triliões [10.200.000.000.000] de dólares», mais do dobro do PIB do Japão. O Institute for Policy Studies informa que a riqueza dos 650 bilionários dos EUA subiu, desde Março, «1 trilião de dólares», quase 5 vezes o PIB de Portugal. O estudo identifica uma dúzia de grandes empresas «cujos donos e executivos viram disparar a sua riqueza e lucros, mas com desempenho muito insatisfatório em matéria de protecção dos seus trabalhadores.

O caso mais famigerado é o aumento de 70 mil milhões de dólares na riqueza do dono da Amazon, Jeff Bezos, enquanto se estima que 20 000 trabalhadores da Amazon tenham sido infectados com o COVID-19» (Guardian, 9.12.20). A organização Americanos pela Justiça Fiscal afirma: «o crescimento da riqueza [dos bilionários EUA] é tão grande que poderiam pagar 3 mil dólares a cada homem, mulher e criança do país e ainda assim ficarem mais ricos do que eram há nove meses» (Guardian, 19.12.20). Mas o grande capital é quem mais beneficia de apoios estatais. Assim se explica que, com a economia mundial em grande queda, o índice bolsista Dow Jones ultrapasse pela primeira vez os 30 mil pontos.

Segundo dados (26.12.20) do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), o país do mundo com mais mortes COVID per capita é a Bélgica, sede da União Europeia e da NATO: 1,64 mortes por cada mil habitantes. Há quatro países do G7 entre os 10% de países com maior taxa de mortalidade: Itália, Reino Unido, EUA e França, além da Espanha (todos acima de 0,90 por mil). Apesar de sua população idosa, a potência capitalista com melhor desempenho é o Japão, com 2,29 mortos por cada cem mil habitantes. Mas tem o dobro da mortalidade da acossada Cuba (1,21 por cem mil).

Não há ricas potências capitalistas entre os 25% de países com menos mortes per capita. Mas estão lá a China, com 3,32 mortos por milhão de habitantes (500 vezes menos que a Bélgica), o Vietname (35 mortes, 0,36 por milhão) e o Laos (zero mortes!). Para os governos ao serviço do grande capital, a saúde é um negócio lucrativo e não um serviço público. Em vez de investimento em saúde pública, há estados de excepção, confinamentos e medo sem fim. As vacinas das grandes multinacionais, independentemente da sua eficácia, vão gerar mega-lucros privados à custa do erário público.

Em ano COVID, outro negócio rende: a guerra. Nos EUA o Congresso aumentou o orçamento militar para 740 mil milhões de dólares e travou anunciadas retiradas de tropas da Alemanha ou Afeganistão (UPI, 4.12.20). Na Suécia o Parlamento acaba de aprovar, alegando uma «crescente agressão russa na região do Báltico» [?!?], um aumento de 40% nas despesas militares (Financial Times, 20.12.20). Na Grécia o aumento do orçamento militar chega mesmo aos 57%, «ao mesmo tempo que a verba para a saúde baixa 17% em relação a 2020» (Marianne, 21.12.20). É o que os governos ao serviço do grande capital entendem por ‘tratar-nos da saúde’.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2457 20.12.2020

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