Luto no 4 de Julho

John Pilger*    01.Ago.09    Colaboradores

John Pilger
Neste ensaio para o New Statesman, Pilger argumenta que enquanto os liberais agora celebram o retorno da América aos seus “ideais morais”, mantêm-se silenciosos acerca de um tabu venerável: o do americanismo, uma ideologia que se caracteriza por não se reconhecer como ideologia. O presidente Obama é a sua corporificação.

A monção entrelaçara-se em espessos novelos de neblina sobre as terras altas centrais do Vietname. Eu era um jovem correspondente de guerra, acampado na aldeia de Tuylon com uma unidade dos US marines cujas ordens era conquistar corações e mentes. “Não estamos aqui para matar”, dizia o sargento, “estamos aqui para difundir o Caminho Americano da Liberdade tal como declarado no Manual de Pacificação. Isto destina-se a conquistar os corações e mentes dos sujeitos, como se diz na página 86″.

A página 86 era intitulada WHAM (”Winning Hearts And Minds”). A unidade do sargento era chamada uma companhia de acção combinada, o que significava, como ele explicou, “nós atacamos estes sujeitos às segundas-feiras e conquistamos os seus corações e mentes às terças-feiras”. Estava a brincar, apesar de não muito. De pé num jipe à beira de um arrozal, anunciou através de um alto-falante: “Venham para fora, toda a gente. Temos arroz, doces e escovas de dentes para dar a vocês”.

Silêncio. Nem uma sombra se moveu.

“Agora ouçam, ou vocês bastardos (gooks) saem de onde quer que estejam ou nós vamos aí e apanhamos vocês!”

O povo de Tuylon finalmente saiu e fez fila para receber pacotes de arroz Uncle Ben’s Long Grain Rice, barras de chocolate Hershey, balões de festa e vários milhares de escovas de dentes. Três sanitários portáteis com descarga amarela, operados a bateria, foram preparados para a chegada do coronel. E quando o coronel chegou naquela noite, o chefe do distrito foi convocado e os sanitários com descarga amarela foram inaugurados.

“Sr. Chefe do Distrito e todos vocês aqui”, disse o coronel, “o que estas prendas representam é mais do que a soma das suas partes. Elas transportam o espírito da América. Senhoras e senhores, não há um lugar sobre a terra como a América. É uma luz orientadora para mim, e para si. Vocês vêm, quando voltamos para casa, consideramo-nos como realmente felizes por ter a maior democracia que o mundo alguma vez conheceu e queremos que vocês, bons sujeitos, participem da nossa boa fortuna”.

Thomas Jefferson, George Washington e Davy Crockett ganhavam uma menção. “Farol” era outra favorita e ele evocava a “cidade sobre uma colina” de John Winthrop, os marines aplaudiam e as crianças aplaudiam, sem entenderem nem uma palavra.

Isto era uma lição do que os historiadores chamam o “excepcionalismo”, a noção de que os Estados Unidos têm o direito divino de levar o que descrevem como liberdade e democracia ao resto do mundo. Que isto disfarçava simplesmente um sistema de dominação, o qual Martin Luther King, pouco antes do seu assassinato, descreveu como “o maior fornecedor de violência do mundo” era algo indizível.

Como destacou Howard Zinn, o grande historiador do povo, a muito citada descrição de Winthrop da Massachusetts Bay Colony no século XVII como uma “cidade sobre uma colina”, um lugar de ilimitada bem aventurança e nobreza, era raramente contrastada com a violência dos primeiros colonos, para os quais queimar vivos uns 400 índios Pequot era uma “alegria triunfante”. Os incontáveis massacres que se seguiram, escreveu Zinn, eram justificados pela “ideia de que a expansão americana é divinamente ordenada”.

Não há muito, visitei o American Museum of History, parte da celebrada Smithsonian Institution, em Washington, DC. Uma das exposições populares era “O preço da liberdade: Americanos em guerra”. Era um feriado e filas de pessoas, incluindo muitas crianças, entravam reverencialmente numa gruta de guerra e conquista onde eram dispensadas mensagens acerca da “grande missão” do seu país. Isto incluía tributos aos “americanos excepcionais que salvaram milhões de vida” no Vietname, onde estavam “determinados a travar a expansão comunista”. No Iraque, outras boas almas “utilizavam ataques aéreos de precisão sem precedentes”. O que era chocante não era tanto a descrição revisionista de dois dos tremendos crimes dos tempos modernos mas sim a escala de omissão total.

“A história sem memória”, declarava a revista Time no fim do século XX, “confina os americanos a uma espécie de eterno presente. Eles são especialmente fracos em recordar o que fizeram a outros povos, em oposição ao que eles lhes fizeram”. Ironicamente, foi Henry Luce, fundador da Time, que em 1941 previu o “século americano” como uma “vitória” americana social, política e cultural sobre a humanidade e o direito da “exercer sobre o mundo o pleno impacto da nossa influência, para os propósitos que consideremos adequados e pelos meios que considerarmos adequados”.

Nada disto é para sugerir que o orgulho é exclusivo dos Estados Unidos. Os britânicos apresentaram a sua dominação de grande parte do mundo, muitas vezes violenta, como o progresso natural de cavalheiros cristãos a civilizarem os nativos de forma abnegada e os actuais historiadores da TV perpetuam os mitos. Os franceses ainda celebram a sua sangrenta “missão civilizadora”. Antes da Segunda Guerra Mundial, “imperialista” era um título político honroso na Europa, ao passo que nos EUA era preferido o de “idade inocente”. A América era diferente do Velho Mundo, diziam os seus mitólogos. A América era a Terra da Liberdade, não interessada em conquistas. Mas e quanto ao apelo de George Washington por um “império ascendente” e o de James Madison por “lançar a fundação de um grande império”? E quanto à escravidão, ao roubo do Texas ao México, à sangrenta subjugação da América Central, de Cuba e das Filipinas?

Uma memória nacional comandada destinou isto às margens da história e “imperialismo” foi quase desacreditado nos Estados Unidos, especialmente após Adolf Hitler e os fascistas, com as suas ideias de superioridade racial e cultural, deixaram um legado de culpa por associação. Os nazis, afinal de contas, haviam sido imperialistas orgulhosos e a Alemanha era, também, “excepcional”. A ideia de imperialismo, a própria palavra, foi quase expurgada do léxico americano, “com o fundamento de que ela falsamente atribui motivos imorais à política externa do ocidente”, argumentou um historiador. Aqueles que persistiam em utilizá-la eram “infames agitadores” e estavam “inspirados pela doutrina comunista”, ou eram “intelectuais negros que tinham ressentimentos contra o capitalismo branco”.

Enquanto isso, a “cidade sobre a colina” permanecei um farol de voracidade quando o capital estado-unidense começou a realizar o sonho de Luce e a recolonizar os impérios europeus nos anos do pós-guerra. Isto foi a “a marcha da livre empresa”. Na verdade, foi conduzida por um boom de produção subsidiada num país não devastado pela guerra: uma espécie de socialismo para as grandes corporações, ou capitalismo de estado, o qual deixava metade da riqueza do mundo em mãos americanas. A pedra fundamental deste novo imperialismo foi colocada em 1944 na conferência dos aliados ocidentais em Bretton Woods, New Hampshire. Descrita como “negociações acerca da estabilidade económica”, a conferência marcou a conquista da maior parte do mundo pela América.

O que a elite americana pedia, escreveu Frederic F. Clairmont em The Rise and Fall of Economic Liberalism, “era não aliados mas estados clientes servis. O que Bretton Woods deixou como legado para o mundo foi um plano totalitário letal para a repartição dos mercados mundiais”. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, o Banco de Desenvolvimento Asiático, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Africano de Desenvolvimento foram com efeito estabelecidos como braços do Tesouro dos EUA e conceberiam e policiariam a nova ordem. Os militares estado-unidenses e seus clientes guardariam as portas destas instituições “internacionais” e um “governo invisível” dos media asseguraria os mitos, disse Edward Bernays.

Bernays, descrito como o pai da era dos media, era o sobrinho de Sigmund Freud. “Propaganda”, escreveu ele, “acabou por ser uma palavra má devido aos alemães… de modo que o que fiz foi tentar e encontrar outras palavras [tais como] Relações Publicas”. Bernays utilizou teorias de Freud acerca do controle do subconsciente para promover uma “cultura de massa” destinada a promover o medo dos inimigos oficiais e o servilismo ao consumo. Foi Bernays quem, em prol da indústria tabaco, fez campanha para as mulheres americanas assumirem o fumar como um acto de libertação feminista, chamando os cigarros de “tochas da liberdade”; e foi a sua noção de desinformação que aplicada para a derrubada de governos, tal como a democracia da Guatemala em 1954.

O objectivo, acima de tudo, era distrair e desviar os impulsos democráticos e sociais do povo trabalhador. O big business, com a sua reputação pública de uma espécie de máfia, foi elevado à de força patriótica. A “livre empresa” tornou-se uma divindidade. “No princípio da década de 1950″, escreveu Noam Chomsky, “20 milhões de pessoas por semana estavam a assistir filmes patrocinados pelos negócios. A indústria do entretenimento foi alistada na causa, retratando os sindicatos como o inimigo, o intruso que rompe a “harmonia” do “American way of life”… Todo aspecto da vida social era visado e permeava escolas, universidades, igrejas e mesmo programas recreativos. Por volta de 1954, a propaganda de negócios nas escolas públicas atingiu a metade da quantia gasta com manuais escolares.

O novo “ismo” era americanismo, uma ideologia cuja distinção é negar que seja uma ideologia. Recentemente, vi o musical de 1957 Silk Stockings, estrelado por Fred Astaire e Cyd Charisse. Entre as cenas de dança maravilhosas e uma actuação de Cole Porter havia uma série de declarações de lealdade que aquele coronel no Vietname poderia muito bem ter escrito. Eu havia esquecido quão bruta e penetrante era a propaganda; os soviéticos nunca poderiam competir. Um juramento de lealdade para com todas as coisas americanas tornava-se um compromisso ideológico aos gigantes dos negócios: desde o negócio de armamentos e guerra (o qual consome 42 centavos de cada dólar hoje) ao negócio dos alimentos, conhecido como “agripower” (o qual recebe US$157 mil milhões por ano em subsídios do governo).

Barack Obama é a corporificação deste “ismo”. Desde os seus primeiros tempos na política, o tema infalível de Obama tem sido não “mudança”, o slogan desta campanha presidencial, mas o direito de a América dominar e ordenar o mundo. A partir dos Estados Unidos, afirmou ele, “conduzimos o mundo na batalha aos males imediatos e pela promoção do bem final… Devemos conduzir pela construção de uma força militar do século XXI para assegurar a segurança do nosso povo e o avanço da segurança de todos os povos”. E: “Em momentos de grande perigo no século passado os nossos líderes asseguraram que a América, pelos feitos e pelo exemplo, conduzisse e levantasse o mundo, que nos sustivéssemos e combatêssemos pelas liberdades procuradas por milhares de milhões de pessoas para além das suas fronteiras”.

Desde 1945, pelos feitos e pelo exemplo, os EUA derrubaram 50 governos, incluindo democracias, esmagaram 30 movimentos de libertação e apoiaram tiranias desde o Egipto até a Guatemala (ver histórias de William Blum). Bombardeamento é torta de maçã. Tendo apinhado o seu governo de belicistas, compadres da Wall Street e poluidores das eras Bush e Clinton, o 45º presidente está meramente a manter a tradição. A farsa dos corações e mentes que testemunhei no Vietname é hoje repetida em aldeias no Afeganistão e, por procuração, no Paquistão, as quais são guerras de Obama.

No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura de 2005, Harold Pinter notou que “todos sabem que terríveis crimes foram cometidos pela União Soviética no período do pós guerra, mas “os crimes dos EUA no mesmo período foram apenas superficialmente registados, muito menos documentados, muito menos admitidos, muito menos reconhecidos como crimes”. É como se “isto nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer, não estava a acontecer. Você tem de apoiar a América… mascará-la como força para o bem universal. É um acto de hipnose brilhante, mesmo astuto, altamente bem sucedido”.

Quando Obama enviou drones [1] para matar (desde Janeiro) uns 700 civis, distintos liberais rejubilaram porque a América é mais uma vez uma “nação de ideais morais”, como Paul Krugman escreveu no New York Times. Na Grã-Bretanha, a elite viu há muito na excepcional América um lugar permanente para a “influência” britânica, embora como serviçal ou fantoche. O historiador pop Tristram Hunt diz que a América sob Obama é uma terra “onde os milagres acontecem”. Justin Webb, até recentemente o homem da BBC em Washington, refere-se reverencialmente, um tanto como o coronel no Vietname, à “cidade sobre a colina”.

Para além desta fachada de “intensificação do sentimento e degradação do signficado” (Walter Lippman), os americanos comuns estão a agitar-se talvez como nunca antes, como que a abandonar a deidade do “Sonho Americano” de que a prosperidade é uma garantia com trabalho árduo e parcimónia. Milhões de emails irados provenientes de pessoas comuns inundaram Washington, exprimindo uma indignação que a novidade de Obama não acalmou. Ao contrário, aqueles cujos empregos desapareceram e cujos lares são retomados vêem o novo presidente a premiar bancos desonestos e uma obesa força militar, no essencial a proteger o terreno de George W. Bush.

Minha suposição é que um populismo emergirá dentro de poucos anos, ateando uma força poderosa que jaz sob a superfície da América e que tem um passado orgulhoso. Não posso prever que caminho irá tomar. Contudo, a partir de um autêntico americanismo de raiz veio o sufrágio das mulheres, o dia de oito horas, o imposto escalonado sobre o rendimento e a propriedade publica. No fim do século XIX, os populistas foram traídos pelos líderes que os pressionaram ao compromisso e fundiram-se com o Partido Democrata. Na era Obama, a familiaridade disto ressoa.

O que é mais extraordinário acerca dos Estados Unidos de hoje é a rejeição e o desafio, em tantas atitudes, à propaganda histórica e contemporânea que tudo permeia do “governo invisível”. Inquéritos críveis confirmaram há muito que mais de dois terços dos americanos mantêm pontos de vista progressistas. A maioria quer que o governo cuide daqueles que não podem cuidar-se a si próprios. Eles pagariam impostos mais altos para garantir cuidados de saúde para toda a gente. Querem completar o desarmamento nuclear, 72 por cento quer que os EUA finalize as suas guerras coloniais; e assim por diante. São informados, subversivos e até “anti-americanos”.

Certa vez pedi a uma amiga, a grande correspondente de guerra americana Martha Gelhorn, a explicar-me a expressão. “Vou dizer-lhe o que é ‘anti-americano’ “, disse ela. “É ao que os governos e os interesses a ele ligados chamam aqueles que honram a América ao objectarem à guerra e ao roubo de recursos e acreditarem em toda a humanidade. Há milhões destes anti-americanos nos Estados Unidos. Eles são pessoas ordinárias que pertencem à elite e que julgam o seu governo em termos morais, embora chamem a isso decência comum. Não são pessoas fúteis. São as pessoas com consciência desperta, o melhor dos cidadãos americanos. Pode-se confiar neles. Estavam no Sul com o movimento dos direitos civis, acabando com a escravatura. Estavam nas ruas a exigir o fim das guerras na Ásia. Certamente desapareceram da vista agora e então, mas são como sementes debaixo da neve. Eu diria que eles são realmente excepcionais”.

09/Julho/2009

[1] Drones: Aviões sem piloto que os EUA estão a utilizar no Afeganistão e Paquistão para disparar mísseis contra populações civis.

Adaptado do discurso “Império, Obama e o último tabu”, de John Pilger, na conferência Socialism 2009, em San Francisco, a 04 de Julho.

* Jornalista australiano

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=539

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