Luz e sombra num mundo em mudança*

Frederico Carvalho    09.Ago.19    Outros autores

Às cinco e meia da manhã do dia 16 de Julho de 1945 deu-se a primeira explosão nuclear, acontecimento que a História iria registar como marco do início da chamada Era Atómica. Três semanas depois, a 6 de Agosto, a força aérea americana lançava sobre Hiroshima a bomba que arrasou a cidade e causou a morte da quase totalidade dos seus habitantes. Três dias depois outra bomba de potência semelhante destruiu a cidade de Nagasaki.

Avalia-se em cerca de 120 mil o número de vítimas que tiveram morte imediata e em muitas dezenas de milhares o número daqueles que, encontrando-se a alguma distância no momento das explosões, ao longo do tempo — dezenas e dezenas de anos — perderam a vida ou ficaram incapacitados em consequência das sequelas da radiação recebida e da contaminação radioactiva dos solos e da água provocadas pelo rebentamento das bombas. A Era Atómica começou mal. O físico Robert Oppenheimer, um dos principais obreiros do desastre, terá tido, ao assistir à explosão de Julho, um pensamento que se exprimia assim: «Tornei-me a Morte, Destruidora de mundos»1.

Em Julho de 1945, quando os dirigentes norte-americanos deram luz verde ao rebentamento do explosivo nuclear no local escolhido, próximo da cidade de Socorro, no Novo México, ninguém, cientistas ou militares envolvidos, tinha uma ideia clara dos efeitos da explosão. Fizeram-se cálculos, estimaram-se consequências, algumas extremas, como a destruição do Estado do Novo México ou a ignição da atmosfera terrestre. Finalmente, nada de tão extremo aconteceu mas o solo arenoso do local transformou-se em vidro e uma nuvem radioactiva com resíduos do solo elevou-se a 12 quilómetros de altura.

É legítimo pensar que na fase derradeira da guerra mundial, com o Japão imperial à beira do colapso militar, os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki funcionaram como a experiência desejada, o ensaio real dos efeitos destruidores da arma atómica quando lançada numa zona urbana, sobre edifícios, infra-estruturas e população residente.

Terminada a guerra, durante o período da chamada Guerra Fria e até finais do século passado, as potências nucleares militares prosseguiram intensivamente trabalhos de desenvolvimento de explosivos nucleares de potência crescente. Nesse período tiveram lugar mais de dois milhares de explosões, ditas de «ensaio» ou de «test», com rebentamentos na atmosfera, no espaço exterior ou alta atmosfera, à superfície do mar ou subaquáticas, e também no subsolo. Em 1963 foi assinado e entrou em vigor um tratado internacional que proibia todo e qualquer rebentamento de explosivos nucleares com excepção dos subterrâneos. Nessa altura, como resultado dos muitos «ensaios» na atmosfera, o teor de carbono radioactivo no ar à superfície da terra tinha atingido duas vezes o valor que era normal antes da Era Atómica.

Tratados e regulação

Desde então e até aos dias de hoje não foi possível chegar a um acordo de proibição total de explosões nucleares, abrangendo portanto também os rebentamentos subterrâneos. E muito menos foi possível chegar a um tratado que estabelecesse o desarmamento nuclear total e completo, incluindo a destruição ou desmantelamento dos milhares de bombas nucleares operacionais, nas mãos das principais potências nucleares, Estados Unidos e Federação Russa, e de algumas centenas na posse de potências «menores»: França, China, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e, mais recentemente, Coreia do Norte. São no total 13 mil das quais 92 por cento pertencem, em partes iguais, à Federação Russa e aos EUA; oito por cento às outras sete potências nucleares.

Cerca de um quarto daquele número global de armas nucleares está entregue a forças operacionais, quer dizer, prontas a ser lançadas a qualquer momento.
Entretanto, este inventário global, por assustador que pareça e é de facto, representa apenas uma quarta parte do inventário existente em finais da Guerra Fria, o que reflecte a circunstância de ter sido possível, desde então, chegar a acordos de limitação do armamento nuclear detido pelas maiores potências nucleares militares. Brilhou assim nesses anos uma pequena mas frágil luz de esperança que importa não deixar apagar-se.

Por outro lado, de alguns anos a esta parte, adensam-se sombras sobre o futuro da Humanidade. É assim, desde logo, porque estão a ser desmantelados alguns instrumentos de regulação internacional que dizem respeito à posse e utilização de armamento nuclear e, o que é igualmente importante, aos engenhos de lançamento dos explosivos sobre os alvos escolhidos. Com efeito, não basta dispor de uma bomba nuclear, são precisos os meios técnicos necessários para a fazer chegar ao objectivo que se quer destruir e que pode encontrar-se a milhares de quilómetros de distância. É para isso que servem os chamados «mísseis», espécie de foguetões, capazes de transportar uma ou várias cargas explosivas nucleares — as cabeças nucleares, em inglês nuclear warheads — montadas no «nariz» do foguetão. Há mísseis de curto e médio alcance — mísseis «tácticos» ou de alcance intermédio — e mísseis «estratégicos», continentais ou de longo alcance. E há mísseis antimíssil destinados a destruir em voo, no ar, mísseis inimigos a caminho dos seus alvos.

Nova guerra fria?

Em 1972 os dirigentes norte-americanos e soviéticos entenderam-se para assinar um tratado — o Tratado ABM — que limitava o número de mísseis antibalísticos permitidos a cada uma das partes bem como restringia a dois os locais onde, em cada país, tais mísseis podiam ser instalados. Trinta anos depois, em Dezembro de 2001, George W. Bush notificou a Rússia de que os Estados Unidos iriam denunciar o tratado. Esta decisão surge, não por acaso, em nosso entender, escassos três meses depois do atentado às Torres Gémeas, em Nova Iorque, acontecimento trágico, ainda muito mal explicado, do qual se poderá dizer, simbolicamente, que «abriu as portas do inferno» em vastas regiões do globo.

A denúncia unilateral do Tratado ABM pelos EUA, tornada efectiva em Junho de 2002, representou uma primeira séria ameaça à manutenção da paz e segurança no plano internacional e um mau augúrio à continuação de outros tratados internacionais de controlo de armamentos. Na opinião de vários especialistas, a denúncia do tratado foi vista como algo que poderia dar um «golpe fatal» no particularmente importante Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, de 1970, tratado que obrigava os países signatários que não dispunham de armas nucleares a não procurar obtê-las.

Com a denúncia do Tratado ABM, era agora possível aos EUA dotar-se de sistemas de defesa antimíssil sem quaisquer limitações e nessas condições ganhava agora relevo o receio de que no seio dos círculos dirigentes norte-americanos ganhasse peso a perigosa concepção da possibilidade de desencadear e vencer uma guerra nuclear «limitada» antecipando-se, através de um primeiro golpe, a qualquer resposta dum adversário. A Federação Russa, naturalmente. Esta, por sua vez, decidiu, neste contexto, promover o desenvolvimento da sua capacidade militar nuclear no sentido de prevenir as consequências do desequilíbrio de forças resultante das decisões tomadas pela administração Bush.

Importa aqui reconhecer que ao longo de mais de meio século os entendimentos a que chegaram as duas maiores potências nucleares permitiram manter um equilíbrio de forças no domínio nuclear militar que foi uma efectiva garantia de paz. Abria-se agora o caminho a uma nova corrida armamentista e a uma nova guerra fria, desta feita na época pós-soviética.

Já na vigência de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, a situação agrava-se com a anunciada retirada dos EUA do chamado Tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermédio (Tratado INF), em vigor desde 1987. Este tratado obrigava as partes signatárias (os Estados Unidos e, na altura, a União Soviética) a eliminar todos os mísseis baseados em terra com alcance entre 500 e 1000 quilómetros. A assinatura do tratado levou à eliminação pelas duas partes, em quatro anos, de mais de 2500 mísseis. A administração norte-americana acusou a Federação Russa de violação dos termos do tratado por se ter dotado de certos mísseis que não respeitavam aqueles limites de alcance. A aplicação do Tratado foi suspensa pelos EUA em 1 de Fevereiro do ano passado. No dia seguinte a Federação Russa tomou idêntica decisão.

Entretanto, como é do conhecimento público, os EUA vêm já há alguns anos a proceder metodicamente a um efectivo cerco da Federação Russa montando ao longo e junto às fronteiras europeias da Rússia um dispositivo militar sofisticado. A suspensão do Tratado INF permite agora colocar em posições privilegiadas mísseis de alcance intermédio armados com cabeças nucleares. A passividade, apoio explícito ou conivência dos membros europeus da NATO autorizam-no, parecendo ignorar os sérios riscos de uma tal escalada militarista para a segurança, estabilidade e paz, no nosso continente.

Mudar o mundo, com coragem

Vivemos nos nossos dias tempos difíceis e perigosos. A consciência de que assim é deve levar-nos a agir junto dos nossos concidadãos no sentido do esclarecimento que lhes é negado por uma comunicação social, controlada, com raras excepções, pelo grande capital, cego e surdo às necessidades do nosso tempo, aos perigos mesmo que enfrenta a sobrevivência da vida sobre a Terra. Sobrevivência da espécie e do mundo natural.

Assiste-se felizmente por toda a parte aos sinais de uma crescente tomada de consciência que atravessa diferentes gerações, diferentes grupos profissionais, gente de diferentes credos políticos ou religiosos, trabalhadores e colectivos de trabalhadores dos mais diversos ramos de actividade.

Pensamos que a questão da paz é a questão mais importante que temos pela frente, hoje, no imediato.
Entretanto não é apenas a ameaça nuclear que pesa sobre nós. Temos vivido décadas de guerras geograficamente limitadas, mais próximas ou mais distantes, em África, no Médio Oriente, na Europa, onde não foram usadas armas nucleares.

Guerras que causaram colossais e irremediáveis perdas de vidas e destruições materiais que não poderão ser recuperadas numa geração. Na raiz de tais guerras está sempre a natureza predadora do capitalismo selvagem. Do capitalismo, sem mais. A pilhagem dos recursos naturais, o domínio territorial que exige.

O actual modo de vida nas sociedades ditas «desenvolvidas» assenta em consumos insustentáveis de recursos naturais. À organização social e à forma como os poderes nelas estão distribuídos, está associada a iníqua desigualdade na distribuição da riqueza fruto do trabalho humano, na própria sociedade e no mundo, entre países «ricos» e países «pobres». Este caminho conduz à guerra e à violência social. Por aí não será possível combater ou sequer mitigar outra grande ameaça do nosso tempo que é a transformação do meio natural e do clima.

Tenhamos consciência de tudo isto e prossigamos com coragem a luta para mudar o mundo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2384, 8.08.2019

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