Mais de cinco milhões de mortos no Congo? Como se oculta a verdade, mesmo quando parece ser contada

Keith Harmon Snow*    31.Mar.08    Outros autores

“Muitos, muitos processos de Nuremberg poderiam ser levados a cabo contra as luminares europeias e norte-americanos culpados de crimes contra a humanidade na África Central, quando a sua política racista e corporativa insiste em que a «selvajaria» africana é a culpada do genocídio actual”

O genocídio na República Democrática do Congo (DRC) — e em todo o continente africano — é resultado dos que têm a pretensão de contar o número de mortos, e são na maioria dos casos, criaturas criadas pelas mesmas corporações que estabeleceram milícias inumeráveis e estados clientes em matanças sucessivas e campanhas de limpeza étnica — todas elas para proteger o negócio da extracção das riquezas do Congo. Muitos, muitos processos de Nuremberg poderiam ser levados a cabo contra as luminares europeias e norte-americanos culpados de crimes contra a humanidade na África Central, quando a sua política racista e corporativa insiste em que a «selvajaria» africana é a culpada do genocídio actual.

O controle a longo prazo dos recursos do Congo é mais fácil de conseguir mediante a eliminação do maior número possível de negros.

Em finais de Janeiro de 2008, a Comissão Internacional de Resgate (IRC) publicou um novo relatório sobre a mortalidade num Congo destroçado pela guerra. O relatório chamava a atenção para algumas agências de notícias novas, que tinham preparado rapidamente uma série de pequenos artigos muito comuns com supostas provas de horror. Por todo o lado se falava do Congo como da «crise mais esquecida do mundo». Há muitas razões para que o Darfur seja a crise do momento, a crise de fachada, e porque apenas se menciona o Congo.

Mas na verdade a história da guerra e do saque no Congo não continua a ser denunciada. Trata-se de uma história que foi censurada, manipulada e ocultada, mesmo quando foi amplamente contada. Uma grande quantidade de informação foi preparada sobre a guerra na República Democrática do Congo, e na sua maioria é uma reacção preparada para ocultar a verdade, e para ajudar a manter enterrada a verdadeira história, e nisso se inclui as representações verdadeiramente honestas da guerra e do sofrimento no Congo que foram publicadas. Só porque os meios principais não cobrem esta realidade, não implica que esta não exista. É esta a falsificação da consciência.

Todo este exercício de contar os mortos é outro caminho para nada fazer para o parar.

Embora o número de vítimas mortais no Congo nas guerras anteriores — para os congoleses trata-se de uma única, longa e contínua guerra — nunca se tenha chegado a saber, ele é muito maior do que os números do IRC. Dentro das fórmulas estatísticas do IRC não se inclui um relatório das experiências terríveis dos milhões de pessoas que desapareceram nos pântanos ou nas florestas tropicais, nas valas comuns, nas câmaras de tortura e nos campos de concentração, ou do número de vítimas depois de cruzar as fronteiras. Todo esse exercício de contar os mortos é outro caminho para nada fazer para o deter. O importante para o IRC são os lucros, mas não é tudo.

A Comissão de Resgate Internacional foi descrita no passado como o instrumento ideal de guerra psicológica, e é o que ela é. E é exactamente o que acontece agora com o IRC, e mais ainda, quando o IRC — fortemente subvencionado pelos mesmos a quem beneficia — envia os seus contadores de corpos para o Congo. Mas o IRC não é apenas um instrumento de guerra psicológica, é também um instrumento ideal para espionagem. O IRC aproveita-se do acesso às populações de refugiados de modo individual para compilar informação sobre os grupos armados, a liderança dos povos, os recursos, as armas e os conflitos geo-políticos; esta informação é usada de modo selectivo para servir os grandes interesses do IRC e os seus sequazes.

Os guerreiros secretos da América.

Entre os supervisores e os membros do conselho de administração do IRC, encontra-se Henry Kissinger, um homem com profundos interesses no Congo, Henry Kissinger está ligado à Freeport MacMoran (FCX), e FCX açambarca o cobre e o cobalto encontrados no Katanga. J. Stapleton Roy, o director do FCX, foi assistente da Secretária de Estado de Inteligência, Madeleine Albright, nos anos 1999 e 2000, durante as invasões do Ruanda (1994) e Congo/Zaire (1996), que tiveram lugar sob a administração Clinton; Roy reformou-se para se incorporar à Kissinger Associates.

Henry Kissinger tem interesses profundos no Congo.

Outro dos directores do Kissinger Associates é Lawrence Eagleburger, que teve relações no passado com a defesa e espionagem dentro do Scowcroft Group, e foi director da Halliburton Corporation desde 1998. O fundador do Scowcroft Group, Brent Scowcroft foi assessor geral de segurança dos presidentes Gerald Ford e George H. W. Bush e, durante o período de 1982 a 1989, vice-presidente de Kissinger Associates.

Walter Kasteiner, outro cargo de responsabilidade na secretaria de segurança nacional nos governos de Clinton e George W. Bush e um membro activo de Scowcroft Group neste momento, é também um dos directores da Moto Gold (que opera na região afogada em sangue, de Ituri, Congo) e da organizaão paramilitar «para a conservação da natureza», com sede em Washginton D.C., Africa Wildlife Foundation, que está a apoiar as actividades de mercenários nos montes Virunga (Congo), actividades levadas a cabo com a desculpa da protecção dos gorilas.

Outro dos directores de Kissinger Associates é o visconde de origem belga, Etienne Davignon, um dos mais antigos inimigos permanentes do Congo. Davignon esteve directamente implicado, durante os anos 1964 e 1965, nas operações conhecidas como o nome de código de «Dragão» que instalaram o cleptócrata Mobutu no poder semeando o princípio do fim para milhões de congoleses. Davignon está também intimamente relacionado com Donald Rumsfeld através da empresa Gilead Sciences, que produz armas biológicas.

A Junta directora do IRC inclui Samantha Power, fundadora do Centro Carr para os direitos humanos em Harvard e detentora do prémio Pulitzer com o livro Um problema a partir do Inferno: a América na era do genocídio, um livro que vende o exagerar do genocídio por um lado (referência à Jugoslávia, Ruanda ou Sudão), enquanto por outro lado, nega os mesmos genocídios ocorridos no Congo ou Uganda.

O Prémio da Liberdade que o IRC concede por «contribuições extraordinárias à causa dos refugiados e da liberdade humana» foi outorgado a alguns desses manipuladores dos genocídios. Em 1987 foi parar a John C. Whitehead e, em 1992, a Cyrus Vance, dois homens com laços históricos com operações encobertas no Congo, por exemplo, levadas a cabo usando os seus privilegiados estatutos dentro da CIA e a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos; trata-se também de dois homens relacionados com o império de Maurice Templesman, que se encontra por detrás do saque do Congo/Zaire durante as últimas décadas.

O Congressista dos Estados Unidos Donald Payne é um destes «amigos de África» que se mantém na pandilha de Andrew Young e Maurice Templesman. Como membro de alto nível da Subcomissão do Congresso para a África, Direitos Humanos Globais e Operações Internacionais durante a administração Bush tem realizado uma das suas actuações mais espectaculares, uma decepção e uma completa traição aos africanos e afro-americanos.

Em 1993 o «Prémio da Liberdade» foi para Dwayne O. Andreas, executivo da empresa Archers Daniels Midland (ADM), e um dos maiores doadores para as campanhas das eleições ao Congresso; a sua empresa assegura-se de que continuem a existir refugiados mortos de fome. A ADM está muito ligada a Robert Dole e Andrew Young, este inclui a ADM como um dos seus principais clientes na sua empresa Goodworks International, dedicada às relações públicas. Young está também profundamente ligado aos governos títeres de Ruanda e Uganda, actores principais nas guerras sucedidas no Congo.

Em 1995, o «Prémio da Liberdade» foi concedido a Richard Holbrooke; em 1996 a Madeleine Albright; e, em 2004, ao general Romeo Dallaire. Todas estas pessoas foram fundamentais nas operações ocultas dos Estados Unidos e subsequentes deslocações de refugiados e massacres na África Central. Holbrooke e Albright são também culpados de crimes contra a humanidade na antiga Jugoslávia, Haiti, Sudão e Iraque.

«Em 1993 o «Prémio da Liberdade» foi para Dwayne O Andreas, executivo da empresa Archers Daniels Midland (ADM), e um dos maiores donatários das campanhas das eleições ao Congresso; a sua empresa garante que continuem a existir refugiados mortos de fome».

Finalmente o prémio da «liberdade» foi compartilhado em 2005, por William J. Clinton e George W. Bush; Clinton provocou as guerras no Ruanda e no Congo, com o apoio em segundo plano do seu predecessor; o «humanitarismo» de Bush inclui desestabilizações de estados em escala massiva, redes de terror, tortura, golpes de estado e guerras contra estados soberanos.

O IRC não é uma organização neutra ou puramente «humanitária». O IRC tem uma longa história de actividades infames que vão muito para lá de operações de ajuda e socorro. O IRC é também uma gigantesca operação financeira que proporciona a um monte de executivos e homens de negócios muitos lucros obtidos por meios que não ajudam a aliviar a guerra e o sofrimento, antes os acentuam. Enquanto o IRC proclama que 90% dos seus fundos «se gastam em serviços para os refugiados e programas de ajuda», a maior parte deste dinheiro nunca toca o solo africano, e raras vezes toca a vida de um único refugiado. Entre os maiores provedores de fundos do IRC estão a HSBC, a GE e a Goldman Sachs, todos eles envolvidos no negócio dos diamantes de sangue do Congo; assim como a Pfizer e a Gilead Sciences (a empresa de Davignon e Rumsfeld). A participação do IRC no Congo — um estudo sobre a mortalidade — tem profundos mas geralmente ocultos motivos. Porque não se contenta o IRC em dar de comer aos vivos em lugar de continuar a contar os mortos?

O Horror, o Horror.

Para além da avaliação simples dos interesses e forte obliquidade política do IRC, escudado atrás de um véu de neutralidade, o seu cálculo da mortalidade é errado. O IRC considera apenas o período de 1998 a 2007, excluindo a primeira fase da guerra, a derrocada do Zaire e o golpe de Estado contra Mobutu Sese Seko apoiado pelos Estados Unidos, 1996-1998. O IRC exclui este período por múltiplas razões. (As petições ao IRC para que se pronunciasse a este respeito não foram respondidas).

Uma das razões óbvias é que o Pentágono esteve directamente implicado em 1996-1998, juntamente com companhias militares privadas norte-americanas Military Professional Resources Incorporated (MPRI), e Kellog, Brown and Root (Halliburton). Exactamente como aconteceu com o derramamento de sangue massivo no Ruanda, e já com o antecedente dos exemplos de justiça selectiva nos julgamentos nazis de Nuremberg, o sistema internacional manipula as estatísticas, dados e margens de tempo em parte para proteger os agentes que de outro modo poderiam ser submetidos a algum tipo de futura hora da verdade, e em parte para servir à falsificação da história e fabricar uma consciência falsa.

O IRC exclui o período de 1996-197 para proteger os governos do actual presidente militar Paul Kagame, no Ruanda, e Yomeri Museveni, no Uganda, e os seus círculos mais próximos e extensas redes de crime organizado.

O Pentágono esteve directamente implicado, em 1996-1998, com as companhias militares privadas dos Estados Unidos Military Professional Resources Incorporated (MPRI), e Kellog, Brown and Root (Halliburton)

Em 1995 e 1996, o Exército/Frente Patriótica Ruandesa (RPA/F) e os seus associados e patrocinadores, as Forças de Defesa Populares Ugandesas (UPDF), o Pentágono, MPRI e outros mercenários escolhidos, prepararam o terreno para a sua guerra eminente através de numerosas incursões no território do Zaire para realizar operações encobertas e de terror a partir do Uganda e do Ruanda. Em Outubro de 1996 havia pelo menos 1,5 milhões de refugiados do Ruanda e do Burundi no leste do Zaire, segundo a maioria das agências de refugiados. A invasão a grande escala começou formalmente quando as forças mercenárias da RPA/UPDF bombardearam os campos de refugiados. Isso foi uma violação das leis humanitárias internacionais e foi um facto crucial para compreender, já que foi uma repetição dos casos de Outubro de 1990, quando o RPA invadiu o território de um governo soberano: o Ruanda. Só que desta vez foi o este do Zaire e implicou o bombardeamento de campos de refugiados Hutus. São crimes egrégios das leis internacionais.

A França denunciou nessa altura que havia 1,2 milhões de refugiados e os Estados Unidos insistiram que eram apenas 700.000 e os Estados Unidos tomaram uma posição pouco honrosa de que todos os refugiados voltaram para o Ruanda. Não voltaram.

Centenas de milhares de homens, mulheres e crianças desarmados e inocentes foram perseguidos até ocidente, norte e sul, correndo com medo de perder a vida às mãos das forças aliadas que já sabiam ser assassinos sedentos de sangue, da experiência dos seis anos anteriores. Muitos foram forçados a regressar ao Ruanda onde eram o branco do RPA. As forças do RPA/UPDF caçaram e abateram centenas de milhares num caso claro de genocídio. Os nomes dos oficiais dos Estados Unidos, os comandantes do RPA e do UPDF e os colaboradores congoleses são bem conhecidos daqueles que estavam no terreno ou implicados nessa altura.

Um desses executivos durante muito tempo da UNICEF, Nigel Fisher, é hoje também um membro do Conselho da Diamond Development Initiative, um programa criado por e para a indústria dos diamantes mas destinado a dar um rosto reformista às redes de crime organizado das corporações que saquearam o Congo durante décadas. Fisher foi o Representante Especial da UNICEF para o Ruanda em 1994, e liderou as operações de recuperação (sic) pos-genocídio (sic) dessa agência na região dos Grandes Lagos de África (Ruanda, a leste do Zaire, a ocidente da Tanzânia e a sul do Uganda) em 1994-1995. Isso coloca-o indubitavelmente no conhecimento dos massacres genocidas e outros crimes contra a humanidade que aconteceram quando o exército ruandês (ainda Exército Patriótico Ruandês) sob o actual presidente Paul Kagane e o exército ugandês sob o presidente vitalício Yowen Museveni primeiro bombardearam os acampamentos de refugiados e depois marcharam através do Zaire, cometendo genocídio.

Portanto podemos acrescentar directamente entre 20.000 e 800.000 mortes aos novos números de mortalidade do IRC (e 200.000 será um número muito incompleto).

O IRC não citou nenhum dado de interesse sobre a economia paralela de pilhagem que está a enriquecer algumas dessas organizações que apoiam os «seus programas humanitários».

Por último, o IRC é conhecido pela sua longa história de implicação com as actividades da CIA e da NSA (National Security Agency), incluindo o envio ou transporte de armas. Segundo um investigador de alto nível da ONU, o IRC deslocou-se a bases a leste do Zaire em 1996 e começou a bombardear os acampamentos de refugiados com armamento pesado. Esta é a citação correcta: «o IRC tomou algumas das bases perto dos campos de refugiados e começou a bombardear os campos com armamento pesado. (O número foi eliminado por motivos de confidencialidade).

O IRC gastou milhões de dólares a analisar o «impacto do conflito» na República Democrática do Congo mas nada disse de substancial sobre a economia paralela de pilhagem que está a enriquecer algumas dessas mesmas organizações que apoiam os seus programas «humanitários». O seu recente relatório é um folheto de cores brilhantes que oferece uma pornografia da violência.

Até que ponto acham que esta gente é cega e estúpida? Até que ponto o somos nós?

Ao mesmo tempo, o IRC recebeu «empréstimos» massivos de milhões de dólares nos últimos anos da Private Investment Corporation financiada com o dinheiro dos contribuintes dos Estados Unidos. O que se passa com todo este financiamento?

No novo relatório do IRC sobre a mortalidade no Congo não há uma palavra sobre as causas da contenda que prossegue ou dos factores estruturais que tornaram possível este holocausto e o perpetuam.

As coisas correm melhor com sangue.

Oferecendo a sua única resposta para as altas taxas de mortalidade, o IRC declara:
«A recuperação depois de um conflito é um processo lento e prolongado. A subida persistente da mortalidade mais de quatro anos depois do final oficial da guerra de 1998-2002 proporciona provas adicionais de que a recuperação de um conflito pode tardar anos, especialmente quando se sobrepõe a décadas de decadência política e socioeconómica».

«Os camiões da Coca-Cola levam os seus produtos a todo o lado, incluindo às zonas rurais».

Isto é um absurdo. Quando o furacão Katrina atacou, houve, depois de uma breve demora, um rápido processo de intervenção para estabelecer uma cadeia de postos de comando do exército dos Estados Unidos ao longo da costa do golfo do México. Enviaram rapidamente para a zona tropas, helicópteros, tanques e exércitos privados, não para resgatar as pessoas mas para assegurar as instalações militares dos Estados Unidos e dos contratadores do ministério de defesa, estaleiros, bancos e a área económica de alto nível. Foi tudo muito eficiente, esbanjaram-se centenas de milhões de dólares dos contribuintes dos Estados Unidos com assassinos profissionais, que acabados de chegar do Iraque e do Afeganistão, fizeram a única coisa que sabiam fazer, matar gente. Mas o problema é que o governo dos Estados Unidos move montanhas quando quer e com rapidez.

A recuperação depois de um conflito «é um processo lento e longo» porque está em marcha uma política de despovoamento deliberada em África. A Missão de Observadores da ONU no Congo (MONUC) gasta aproximadamente 40-45% do seu orçamento de mil milhões de dólares em contratos em aviões que voam sobre a África central, e isto engendra grandes negócios. Nunca há problemas para enviar armas, e para oferecer um exemplo muito mais desolador e comovente ou inegável de como funcionam as coisas, os camiões da Coca Cola levam os seus produtos a todo o lado, incluindo as zonas rurais.

E pronto.

Pensemos nisso

Não há livros nem livrarias no Congo por uma razão. As fomes extremas são extensas e há escassez de alimentos e cereais devido a, e não apesar de, a ONU e o IRC e o Programa Mundial de Alimentos e os seus laços com Robert Dole, Archers Daniels Midland, ConAgra e a conexão com Henry Kissinger-Continental Grain. Há problemas de abastecimento de medicamentos e altas taxas de enfermidade por uma razão, e não é por este ser «o coração das trevas» nem qualquer outro absurdo racista.

A Coca-Cola não é uma bebida saudável para meninos famintos e malnutridos sem acesso a dentistas. E o que é mais importante, o director da Coca-Cola Donald F. McHenry é um dos presidentes do IRC Group, uma firma consultora de Washington DC cujas conexões com a Comissão de Resgate Internacional (IRC) são difíceis de determinar. O antigo embaixador Andrew Young, Madeleine Albright, Georhge Soros, Lawrence Eagleburger, Frank Ferrari, Donald Easum, Donald F. McHenry e Frank Carlucci todos eles aparecem frequentemente à superfície como tentáculos do povo da indústria dos diamantes. Templesman e a maioria deles estão estreitamente relacionados com o aparelho de inteligência, e todos eles têm laços com o África-América Institute e o Corporate Council de África.

«O governo de Museveni forçou 1,3 milhões de pessoas do povo Acholi a ir para campos de morte no norte de Uganda».

O presidente e director do IRC George Group é também director da agência secreta eufemisticamente chamada Sociedade para Reduzir a Fome e a Pobreza na África (PCHPA em inglês), uma organização líder da direita judaico-cristã. Outros directores de PCHPA incluem o presidente do Uganda, Yoweri Museveni, Robert Dole e David Beckman da organização igualmente fundamentalista líder cristã Pão para o Mundo. O governo de Museveni forçou 1,3 milhões de pessoas do povo Acholi para campos de morte no norte do Uganda e negou-lhes ajuda humanitária.

As fomes passam não porque isto é África, ou o Congo, mas porque estamos a ser testemunhas do exemplo mais devastador de capitalismo predador e sem coração, e avareza absoluta, combinado com uma crise espiritual no «primeiro mundo» de proporções sem precedentes. O controle a longo prazo dos recursos consegue-se melhor eliminando o maior número de negros possível. A capacidade para controlar os recursos do Congo aumenta alargando o terror, arrancando as pessoas do seu meio, destruindo famílias, semeando a desconfiança e o ódio. Chama-se divide e vencerás e é o truque mais antigo do livro de conquista europeu. A palavra que melhor descreve os efeitos destas campanhas psicológicas, emocionantes, físicas, culturais e políticas de desestabilização e terror é DESENRAIZAMENTO.

E entretanto, a indústria humanitária da «miséria» está a reunir milhares de milhões de dólares em programas para «ajudar» os congoleses e as universidades criam novos programas e departamentos para ensaiar a privilegiada força de trabalho para o «desenvolvimento», tudo para criar uma dependência institucional. Isso é violência estrutural, e faz parte do ciclo que perpetua a riqueza e o privilégio. É desigualdade gerida.

Esta é a política externa dos Estados Unidos em acção. O IRC simplesmente institucionaliza um marco falso de pensamento que apoia a guerra, e a pilhagem, e o em vez de aliviar a violência estrutural. Por detrás da guerra psicológica a imagem do Congo é muito diferente e as forças responsáveis identificam-se facilmente.

A falsificação da consciência.

É assim que o sistema projecta e inculca uma consciência falsa sobre a África cegando os ocidentais.

Um dos braços direitos do ditador durante muitos anos Mobutu Sese Seko foi Albert-Henri Buisine, um pirata-mercenário francês que trabalhou no Kamanyola, o luxuoso iate a que Mobutu chegava de helicóptero para receber os seus apoios estrangeiros e amigos VIP. Enquanto Mobutu visitava frequentemente a Casa Branca, Bruxelas, Paris, Tóquio, Genebra, Londres e às vezes Tel Avive — ele recebia regularmente os seus amigos e patrões no seu iate no Zaire.

«Muitos dos agentes do período de Mobutu estão ligados a políticas ou acções que perpetuam o sofrimento e a violência no Congo e Angola e na África do Sul actualmente»

Protegido por Albert-Henri Buisine e o mercenário israelita Meir Meyouhas e uma pletora de operacionais de inteligência clandestinos Mobutu recebia os seus convidados «Je me couche. Centenas de pessoas foram e vieram do Zaire durante esses anos, e estas incluem o secretário de Estado Henry Kissinger, o vice-presidente George H. W. Bush; os embaixadores Andrew Young e Jean Kirkpatrick; e o mercenário Frank Carlucci. O magnata dos diamantes Maurice Templesman ceava com frequência com Mobutu no Kamanyola, às vezes com a Jacqueline Kennedy Onassis, com frequência com os seus agentes no negócio dos diamantes radicados no Zaire como Jerry Funk ou James Barnes, e com agentes de De Beers como Nicky Oppenheimer ou Nick Davenport.

Os impérios de Templesman e De Beers existem hoje em dia no Congo nas suas versões modernas, e muitos destes agentes do período de Mobutu estão ligados a políticas ou acções que perpetuam o sofrimento e a violência no Congo, em Angola e na África do Sul actualmente. É importante fazer também notar, que a maquinaria sangrenta dos minérios de Templesman subvencionou fortemente as campanhas dos democratas, incluindo algumas manifestações fascistas recentes, Barack Obama e Hillary Clinton. No cômputo final, Hillary Clinton causou mais problemas a África do que Obama (mas ainda há tempo).
A 11 e 12 de Maio de 1990, as tropas de choque de Mobutu — incluindo a Divisão Presidencial Especial (DSP em inglês) treinada pelos israelitas SARM e a Guarda Nacional — atacaram o campo da Universidade de Lumumbasi, e mataram no mínimo centenas de estudantes, enquanto muitos mais foram torturados e submetidos a humilhações. A estação da CIA em Lumumbashi apoiou as atrocidades e encobriu-as. Parece que foi há muito tempo, mas os autores desses actos ainda andam por aí. Alguns, como James Barnes, Maurice e Leon Templesman e Nicky Oppenheimer, continuam a realizar grandes operações em África.

Qual foi o papel de Albert-Henri Buisine na protecção da ditadura de Mobutu e a perpetração de tais atrocidades e onde se encontra agora o velho mercenário guarda-costas de Mobutu?

Bem, o mercenário guarda-costas francês de Mobutu Albert-Henri Buisine veio à superfície em Outubro de 2007, num artigo de Bryan Mealer, um jornalista que trabalhou anteriormente como freelance na Associated Press e The Independent na revista Harper’s. Buisine já não é um agente militar privado que serve o aparelho de terror de um ditador da Guerra-Fria; é agora o locaz capitão de uma barcaça que transporta um carregamento de 2.600 toneladas ao longo do rio Congo (para a sua companhia privada de carregamentos por barco e um lucro pessoal elevado). Cem anos depois do Coração das Trevas de Joseph Conrad temos um jornalista branco americano da AP a contar novamente a sua insondável viagem no Congo. E aí está o nostálgico Capitão, um reaccionário mercenário-terrorista-transformado-em-piloto-beneficiário francês, que durante 16 anos, contra a sua vontade, segundo Mealer, serviu Mobutu de forma reaccionária. «Esteve sempre agrilhoado à sombra de Mobutu, vivendo até durante quatro anos seguidos a bordo do esplêndido iate presidencial, o Kamanyola, viajando sem rumo ao longo do rio Congo».

Viajando sem rumo? Agrilhoado à sombra de Mobutu? Apenas. Isso é ficção. Há profundos estereótipos culturas e ideias subliminares por detrás deste relato que foram inculcados durante décadas de propaganda sobre o Congo/Zaire. A história de Mealer cansa, nenhuma menção às brutalidades sofridas pelos congoleses, às greves quebradas e ao massacre de estudantes, ou as multidões alugadas a gritar «Mobutu! Mobutu! E os slogans vazios do partido de Mobutu Movimento Popular da Revolução. Não há qualquer menção ao aparelho de terror, a odiada Divisão Especial Presidencial, as prisões ilegais e detenções sem julgamento, as torturas e masmorras debaixo da terra como o «OAU-2» ou o «corredor da morte» de Kinshasa. Tudo se torna nostálgico e pintam-se os saqueadores do passado como vitimas inconscientes que perderam o seu destino na vida. A história mostra o estandarte da falsa compaixão no explorador branco e isso funciona para desviar a atenção da sua criminalidade passada e frequentemente actual.

«Buisine leva agora a vida simples de um rato de rio», afirma Mealer, «fazendo a sua viagem seis ou sete vezes por ano», e acrescenta «turvos remoinhos nos lugares profundos, crocodilos escondidos no lodo, ou, ao longo de uma ilha coberta de árvores, cujas folhas curam as hemorróidas».

«Hoje não podes trabalhar no Ruanda e depois sair do país se contas a verdade»

A Harper’s nunca menciona os agentes da repressão em lugares assim, porque o público americano está perfeitamente contente com a versão vangloriosa do herói branco a desafiar o selvagismo no coração das trevas. Quantas histórias sobre o Congo implicam um Rio e um Grande Herói Branco a desafiar a selva e as trevas da floresta? A Harper’s não nos diz nada sobre o Congo: é o típico sem sentido racista destinado a ocultar a verdade. A história dá uma «boa» leitura, mas é ficção, um espelho a reflectir a nossa brancura. O autor até afirma que os nativos se comunicam com tambores para que os povos ao longo do rio saibam que o branco vem a caminho antes que Buisine e o heróico jornalista branco cheguem. Isso é uma falsificação da consciência americana.

Para completar o absurdo encobrimento, o fotografo que viajava pelo rio com Mealer está radicado em Kigali, Ruanda, e toda a gente na região sabe que hoje em dia não se pode trabalhar no Ruanda e depois sair do país se contares a verdade. Por fim, o editor da Harper’s John R. MacArthur é descrito pela empresa que publica a sua revista como um «defensor incansável dos direitos humanos».

E é por isso que temos mais de 10 milhões de mortos no Congo desde 1996, e milhões mais no Uganda e Ruanda. Estes números de pesadelo são o produto das administrações Bush-Clinton-Bush, um crescendo perto do fascismo na América.

Viajei por esse rio mais de uma vez; em 2007 também nadei dois terços através dele (até Lukutu, onde passei numa ilha e a contornei); também nadei ao longo dos seus rios tributários Lomami (2007) e Lopori (2006). A produção da Harper’s reflecte a inconsciência dos brancos no Congo e uma inconsciência ainda maior dos editores brancos, tudo isso para satisfazer a inconsciência voraz de uns leitores cada vez mais idiotizados.

Esteve ali, fez isto. Já está na hora de todos amadurecermos.

* Jornalista

Este artigo foi publicado em Rebelión.org

Tradução de Manuela Gouveia

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