Mais do mesmo

Carlos Coutinho    21.Jun.21    Outros autores

O muito comentado encontro entre Putin e Biden tem um longo antecedente. Um e outro estão há muito em lugares da maior responsabilidade, à frente de duas potências capitalistas cujos arsenais nucleares são hoje a única coisa que pode fazer hesitar antes de dar o passo que levaria ao desastre global. E do encontro entre ambos foi isso que resultou.

Ontem, ou seja, exatamente há 20 anos, o Bush de Guantánamo e Abu Grahib encontrou-se com Putin na Eslovénia para ambos acertarem contas e evitarem cabeçadas descontroladas um no outro. Nesse 16 de Junho de 2001, Vladimir Putin ainda era o submisso herdeiro do americanizado Ieltsin, embora padecesse de algumas das incuráveis azias que o seu antecessor havia criado no Kremlin.
Num pedaço ainda a sangrar da ex-Jugoslávia os dois presidentes acordaram então numa nova coexistência pacífica, traçando as “linhas vermelhas” que não podiam ser ultrapassadas nem sequer pisadas.
Poucos anos depois, já com Obama na Casa Branca, o embaixador norte-americano em Moscovo, Michael McFaul, considerava que Washington talvez estivesse a subestimar o poder da Rússia” e, segundo a revista “Foreign Ofice”, terá acrescentado:
“Não há apoio empírico para a ideia de que a Rússia é uma potência em declínio. Qualquer que seja o trunfo de Putin, ele está disposto a usá-lo de uma forma muito mais agressiva do que qualquer outro líder mundial.”
Vale apena recordar isto, porque Obama é o falso pacifista que criou o primeiro exército do ar não humano. Fala-se de uma divisão com alguns milhares de drones que já começaram a matar gente em vários países, a partir de um gatilho cibernético premido em Fort Vigínia por um soldado que até pode estar enjoado com a pastilha elástica que o ajuda a passar o tempo diante de um ecrã.
Como toda a gente sabe, foi também no tempo de Obama e do seu vice-presidente Joe Biden que ocorreram os factos mais traumáticos da Ucrânia moderna.
É da tradição norte-americana o vice-presidente ocupar-se da política externa e Biden não descurou a tarefa. Interferiu pessoalmente no processo, chegando a deslocar-se a Kiev, e o seu filho Hunter Biden, que também lá esteve o tempo suficiente para o feito pretendido, disfarçou a sua presença com a administração de uma empresa ucraniana para a qual não tinha a mínima preparação técnica ou profissional.
Nesta mísera quarta-feira, depois de reuniões em família com líderes europeus e sublíderes natistas em Bruxelas, o Presidente Biden foi a Genebra respirar o ar suíço que os banqueiros andam a infetar há muitos anos e encontrar-se com o Presidente Putin.
Jogou os trunfos todos, ou quase todos, que levava na algibeira e eu não pude assistir. Ao contrário do habitual, nem sequer houve conferência de imprensa conjunta depois do bate-papo, mas eu não tenho a menor dúvida em sintetizar o encontro no seguinte diálogo ficcional:
– Meu caro – diz Biden –, você não pode fazer isto, nem isto, nem aquilo, quer dizer, tudo o que o meu ilustre amigo sabe, porque, se o fizer, nós vamos deixar cair o pau de maneira a fazer doer.
– Ok, levantem o pau, que nós temos as costas largas. Vão sempre acertar em qualquer coisa valiosa.
– E então?
– Então? Só dão a primeira pancada, porque as outras já não vão ter apetite de as dar. É que pau também nós temos de sobra e cada vez mais grosso. E não é só para enfeitar a imagem…
Como é bem sabido, os EUA e a Rússia são dois países brutalmente capitalistas – um o mais rico e outro o maior do mundo. Se fosse possível entrarem em guerra, não fariam mais que reeditar as desgraças do último milénio – todas as guerras ocorreram entre países capitalistas ou a caminho disso. Só que todas deixaram vencedores e vencidos. Desta vez, porém, nem isso conseguiriam.
É a nossa sorte.

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