Maldito Socialismo, que falta nos fazes

Higinio Polo*    31.Mar.10    Outros autores

Por mais que o tentem esconder, a derrota do socialismo na Europa foi um desastre humanitário de consequências ainda longe de um balanço definitivo.

“Esta realidade é conhecida pelos investigadores e pelos governos, mas os liberais não se sentem responsáveis por isso: alguns, ainda que não possam deixar de reconhecer o desastre insistem nas vantagens a longo prazo da implantação do capitalismo na Europa de Leste. Vinte anos depois do desaparecimento dos sistemas socialistas que governavam a Europa de Leste, a bem oleada máquina propagandística dos meios de comunicação continua a bater na tecla da interpretação daqueles factos: manipulando ideias simples sobre assuntos complexos, resolvem o assunto evocando a suposta «rebelião popular contra o socialismo», para acabarem a felicitar-se sobre a «morte do comunismo» e o «triunfo da liberdade».

Para a propaganda liberal, esse capitalismo está representado nos países mais desenvolvidos, não nos mais pobres: está em França, não no Egipto; está na Alemanha, não na Indonésia; está nos Estados Unidos mas não está no Haiti.”

Há algumas semanas, em Berlim, enquanto os beneficiados com a mudança política na Europa de Leste celebravam o desaparecimento do muro (e, sobretudo, do «socialismo real») há vinte anos, como prova manifesta da superioridade do capitalismo, a imprensa internacional conservadora lançou uma das suas habituais campanhas propagandísticas para vender novamente a mentira do suposto êxito conseguido pela mudança política e económica nos antigos países socialistas europeus. A encenação de uma falsa alegria nas cerimónias de auto-elogio (com evidentes alusões ao nacionalismo alemão) e a presença e, depois, as imagens difundidas pelo mundo de Gorbachov, George Bush, Khol, Merkel, Walesa e outros (inclusive Medvedev) celebrando a «vitória sobre o comunismo», escondiam o sofrimento social causado pelo retrocesso até ao capitalismo em toda a Europa oriental, e revelavam-se como a grande mentira das festividades de Berlim.

Há um ano, em Janeiro de 2009, fazendo-se eco de um estudo da Universidade de Oxford, o diário italiano Il Manifesto publicava um artigo sobre as consequências das privatizações e das reformas da chamada terapia de choque de Yeltsin e Gaidar na Rússia. O trabalho que o diário citava tinha sido publicado na revista médica Lancet e foi feito por David Stucker, da Universidade de Oxford, Lawrence King da Universidade de Cambridge e Martin McKee da London School of Higiene and Tropical Medicine, utilizando dados de organismos da ONU, como a UNICEF, depois de uma investigação ao longo de quatro anos. Um milhão de mortos. Esse era o resultado da investigação que concretizava o aumento da mortalidade infantil (quase treze por cento durante os anos noventa) como consequência do desemprego das privatizações e da aplicação das receitas liberais que estenderam a fome, a miséria e provocaram a destruição da economia russa. Deve precisar-se que o estudo abarcou a maior e a mais populosa república soviética, mas, de facto, a Rússia representa só metade da população que tinham as quinze repúblicas soviéticas, também não o que sucedeu nos restantes países socialistas que, todos juntos, somavam outros cem milhões de habitantes. Este estudo publicado pela Lancet só fala da mortandade causada entre cento e cinquenta milhões de habitantes, enquanto o conjunto da população da Europa socialista atingia os quatrocentos milhões. Além disso, não podemos esquecer que estes números são estimativas, visto que outros estudos elevam, em muito, o número das vítimas: pense-se no aumento da mortalidade infantil, no retrocesso da natalidade, na diminuição da população (umas vezes por emigração, outras por causas diversas que nem sempre são fáceis de classificar). A Ucrânia, por exemplo caiu dos 52 milhões de habitantes que tinha no socialismo em 1991, para os actuais 46 milhões, dezoito anos depois.

Naturalmente, nada disso se viu reflectido nas festividades de Berlim, nem o governo pró norte-americano de Yushenko e Timoshenko, nem os países capitalistas ocidentais se interrogaram até agora sobre a causa de um desastre demográfico de tal magnitude. E este é só um exemplo, ainda que seja dos mais dramáticos. A antiga RDA, que contava com dezasseis milhões de habitantes, perdeu dois, sobretudo por emigração, e muitas cidades estão a despovoar-se. Inclusivamente, o Herald Tribune (na sua edição de 15 de Janeiro de 2009) fazia-se eco da morte prematura três milhões de pessoas no conjunto dos antigos países socialistas europeus, segundo dados dos organismos da ONU, e da perda de uns dez milhões de pessoas nesses territórios. Perante o horror e contundência dos números, Jeffrey Sachs (um dos principais assessores da terapia de choque capitalista na Rússia e noutros países) tentou desqualificar essas estimativas e, numa carta ao Finantial Times, considerou um êxito a reforma na Polónia, na República Checa e na Eslovénia, ao mesmo tempo que imputava a mortandade na antiga URSS a uma evolução que se iniciou na década de sessenta do século XX, e «à pobre dieta alimentar soviética» (afirmações que a excelente investigação de Seguei Anatolevich, Serguei Iurevich Glasev e Serguei Georguevich Kara-Murza, no livro branco da Rússia desmentem). Numa entrevista ao The Times, o Prémio Nobel Joseph Stiglitz afirmou em contestação a Sachs que a terapia de choque foi «uma política económica desastrosa». O capitalismo levou à morte de milhões de pessoas, e não apenas em anteriores etapas históricas mas também nestes últimos anos. O desaparecimento do socialismo europeu não foi um êxito, mas uma catástrofe, e centenas de milhares de pessoas ainda viveriam se não tivesse acontecido o desastre que comemoraram em Berlim.

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Em socialismo, com trabalho assegurado para toda a vida, dispunha-se de casa, de assistência médica, férias e reformas. Ninguém pensava no desemprego, nem em despejos e falta de tecto, nem em hipotecas leoninas ao longo de toda a vida, nem esperava com medo uma velhice desamparada e pobre. As privatizações trouxeram consigo a perda de milhões de postos de trabalho, o desmantelamento de boa parte da indústria, criou uma enorme corrupção e, além disso, provocou a miséria, o desespero, o aumento do alcoolismo, dos suicídios, o abandono de meios de entretenimento e alienação popular, a destruição planificada dos costumes sociais, o abandono de crianças, as pensões de miséria, a introdução de cegos critérios de mercado acima do interesse social, enquanto uma minoria enriquecia.

O desastre nas instituições científicas, o retrocesso na investigação, a ruína da cultura, a introdução dos mais banais e grosseiros meios de entretenimento e de alienação popular a partir do Ocidente capitalista, a destruição planificada dos costumes populares de ajuda mútua e solidariedade foi acompanhada por uma exaltação do egoísmo pessoal e da procura dos bens privados porque os comuns passaram a ser suspeitos pelo novo poder capitalista. O desmantelamento da saúde pública, o aumento dos preços dos remédios, a redução da esperança de vida afectaram de forma determinante a população. E ainda desconhecemos os números dos suicídios, das mortes provocadas pelo alcoolismo dos que caíram no desespero; a mortalidade provocada pela proliferação de doenças como a tuberculose que agora afectam milhões de pessoas, o destino de centenas de milhares de vagabundos e de crianças abandonadas que alastraram por todo o território da Europa oriental, e que ainda hoje continuam a ver-se, foram consequência directa da selvática implantação do capitalismo. Se há duas décadas a fome era desconhecida em toda a Europa oriental, ela afecta hoje milhões de pessoas. Já se dispõe de algumas estatísticas parciais: na Ucrânia, hoje, por exemplo, um milhão e meio de pessoas passa fome.

Essa política, implementada na Rússia pelo sanguinário Yeltsin e por personagens como Gaidar e Chubais, tinha por trás académicos norte-americanos neoliberais como o citado Jeffrey Sachs, e suecos como Anders Aslund (ontem assessor económico da Rússia e da Ucrânia, hoje responsável pelo programa russo e euro-asiático de Carnigie Endowment for Intrenational Peace of Washington) cujas ideias receberam o apoio entusiástico dos Estados Unidos, com Clinton à sua frente (o presidente a quem provocava tanto riso acontecimentos públicos do alcoolizado Yeltsin); tinham o apoio da Alemanha de Helmut Khol; da Grã-Bretanha de John Major e da França de Miterrand e, depois, de Chirac

Com o apoio ocidental, na União Soviética e nos restantes países europeus deu-se o maior roubo da história da humanidade. Não houve freios para o latrocínio. Inclusivamente, como aconteceu na Bulgária, chegaram a distribuir ao rei Simeão II mais terras do que as que possuía antes da nacionalização decretada no fim da Segunda Guerra Mundial! Só na RDA, ainda que costume alegar-se o grande volume das «Ajudas» da RFA às novas regiões do Leste, esconde-se que Bona se apoderou de todo o património nacional da RDA, que tinha um valor calculado no dobro dos desembolsos feitos por Bona: a deliberada destruição da indústria do Leste alemão, exigida pelos empresários e executada pelo governo da RFA forçou a emigração de milhares de cidadãos e acelerou o envelhecimento de todo o território oriental. Também as mulheres perderam: enquanto na RDA a percentagem das que trabalhavam era de 92%, hoje trabalham apenas 69%. Liberdade… para emigrar e morrer.

Esta realidade é conhecida pelos investigadores e pelos governos, mas os liberais não se sentem responsáveis por isso: alguns, ainda que não possam deixar de reconhecer o desastre insistem nas vantagens a longo prazo da implantação do capitalismo na Europa de Leste. Vinte anos depois do desaparecimento dos sistemas socialistas que governavam a Europa de Leste, a bem oleada máquina propagandística dos meios de comunicação continua a bater na tecla da interpretação daqueles factos: manipulando ideias simples sobre assuntos complexos, resolvem o assunto evocando a suposta «rebelião popular contra o socialismo», para acabarem a felicitar-se sobre a «morte do comunismo» e o «triunfo da liberdade». Além do recurso á desonesta e falsa comparação entre o nazismo e o comunismo, os defensores do capitalismo utilizam outros argumentos. A comparação entre democracia e capitalismo não foi mais do que uma das muitas astúcias ardilosas com que os laboratórios ideológicos do liberalismo utilizaram com sucesso na Europa de Leste, apesar da evidência de que o socialismo não traz consigo a democracia: de facto, o capitalismo conviveu e convive com regimes ditatoriais, monarquias autoritárias, Estados expansionistas e belicistas, democracias tuteladas e, também com o nazismo e o fascismo. Isto porque a actual democracia liberal (corrompida pelo poder do dinheiro) é apenas uma das formas políticas que o capitalismo adoptou. Outro dos ardis que os liberais utilizam é a condenação universal do socialismo pelos excessos e crimes do passado, enquanto o capitalismo é apresentado como se não tivesse qualquer história: até parece que nem o colonialismo, o imperialismo, as matanças e a repressão em todos os países nunca tivessem existido e, quando são recordados, é para os considerar como fenómenos históricos que nada têm a ver com o actual capitalismo, apesar das guerras que este mantém. Para a propaganda liberal, esse capitalismo está representado nos países mais desenvolvidos, não nos mais pobres: está em França, não no Egipto; está na Alemanha, não na Indonésia; está nos Estados Unidos mas não está no Haiti. O entusiasmo liberal pela reescrita da história chega ao extremo de querer equipar comunismo e nazismo através da negação da evidente filiação do fascismo no capitalismo, e com a abusiva utilização do termo «totalitário», o que lhe permite criar a miragem de um capitalismo «democrático» que se teria oposto ao totalitarismo dos nazis e comunistas, ideia que não resiste à menor comprovação empírica, porque o nazismo e o fascismo não foram derrotados pelas potencias capitalistas mas pelo socialismo soviético.

Nokolai Rizkhov, que chefiou o governo no tempo de Gorbachov e hoje, como senador, defende a política de Putin, considera que «o desaparecimento da URSS foi uma tragédia», o que todos os indicadores sociais e económicos confirmam. E não apenas em termos económicos: Rizkhov diz que Gorbachov negociou mal o «tema alemão» e que nunca devia ter aceite que a Alemanha unificada permanecesse na NATO. Essa imposição estimulou a voracidade e o posterior alargamento dessa aliança que, inclusive, chegou a engolir três antigas repúblicas soviéticas e a estabelecer bases norte-americanas à porta da Rússia. O Pacto de Varsóvia foi desmantelado enquanto a NATO continua a planificar guerras. Durante muito tempo continuar-se-á a discutir esta catástrofe. Hoje, as diversas explicações chegam através da indigência intelectual e a desonestidade política dos media liberais, passando pela severidade de um sector da esquerda (social-democrata, trotskista, anarquista) que condena, por vezes sem qualquer diferença, a experiência do socialismo real, e termina com a hagiografia de outro sector da esquerda (comunista) que rejeita qualquer análise crítica da realidade dos antigos países socialistas europeus. Também há os que pretendem ser equilibrados e honestos na hora do julgamento do que foi o «socialsimo real» e, sobretudo, o que a população supunha ser o retorno ao capitalismo.

Desde a Polónia que acaba de proibir a bandeira vermelha e os símbolos comunistas (tal como o fizeram Hitler, Franco e Mussolini), da República Checa que tenta proibir agora o Partido Comunista; desde os países bálticos, que com a sua feroz falsificação histórica relegam os comunistas à clandestinidade e absolvem os nazis locais pela sua cumplicidade com o Reich hitleriano; desde a Alemanha unida que persegue a recordação da RDA, ou desde a Rússia que quer destruir o Partido Comunista, todos esses países, unidos no grande altifalante da propaganda liberal que tem o seu centro nos Estados Unidos, se agrupam atrás de Washington numa poderosa coligação que continua a saudar como uma grande vitória o vendaval que se iniciou em 1989 e culminou, primeiro em 1991, com o desaparecimento da URSS e, finalmente, em 1993, com o golpe de Estado de Yeltsin na Rússia, que consolidou a via golpista do capitalismo.

A política de Gorbachov tirou o tapete debaixo dos pés dos dirigentes comunistas europeus, porque estimulou os protestos e anunciou tacitamente que Moscovo não moveria uma palha para defender a Europa oriental. Inclusivamente estimularam-se os protestos: os governos viram-se pressionados a iniciar improvisadamente reformas, a iniciar processos de negociação com a oposição e, em última instância, a ceder o poder. Não obstante, e apesar da análise predominante que hoje se faz no Ocidente (defendida com entusiasmo pelos beneficiários da mudança de regime: uma mescla, segundo os seus países, de velhos dissidentes, velhos «comunistas» reconvertidos ao capitalismo e novos burgueses saídos da rapina e do caos), que pode resumir-se à falsa mensagem de «uma rebelião contra o socialismo», a verdade é que as manifestações de 1989 na Europa de Leste nunca reclamaram o capitalismo: queriam reformar o socialismo, acabar com o autoritarismo e os abusos do poder comunista, conquistar a liberdade e acabar com o temor reverencial ao poder, mas conservando as estruturas económicas do socialismo. No entanto, as explicações não são simples, e mesmo que ainda desconheçamos uma boa parte das cumplicidades e da actividade desenvolvida pelas grandes potências, nada sustenta a interpretação liberal de uma indigestão popular, porque uma boa parte da população permaneceu na expectativa. A suposta rebelião popular na Roménia contra Ceausescu, por exemplo, nunca existiu: é verdade que houve importantes e grandes manifestações, mas o general Stanculescu revelou recentemente que o golpe de 1989 que terminou com a sentença de morte do presidente do país contou com a cumplicidade soviética e norte-americana. Independentemente do controverso carácter do personagem, e do seu afã para justificar o seu papel, a verdade é que continuamos a desconhecer muitos aspectos dos acontecimentos desse ano, e não apenas na Roménia, ainda que nem todos tenham causas conspirativas. É certo que as manobras e operações planificadas agiram sobre um descontentamento popular que se manifestava na população católica polaca, na insatisfação pela limitação de movimentos na RDA, Hungria ou Checoslováquia, na escassez de abastecimentos na Roménia, Bulgária ou na URSS, e na aspiração de liberdade, mas a chave está na passividade de Moscovo de Gorbachov e na incapacidade dos governos comunistas para enfrentar e canalizar uns protestos pacíficos que, na sua origem, não iam massivamente contra o socialismo: nem sequer depois do derrube da Europa socialista em 1989, na URSS que via crescer a demagogia de Yeltsin e que o levou a ganhar as eleições russas e a dissolver a União Soviética em 1991, nunca o seu governo se atreveu a dizer á população que o seu objectivo era implantar o capitalismo.

Um dos mecanismos de roubo imposto à população foi as altas taxas de inflação em toda a zona (que chegaram a superar os três dígitos!) por causa da decretada liberalização dos preços, o que supôs uma brutal desvalorização das poupanças da população. Ao mesmo tempo, a massiva desindustrialização que provocou em muitos países quedas de produção superiores a 50%, e a consequente introdução de capital, tecnologia e empresas ocidentais, que se apoderaram da estrutura produtiva na Checoslováquia, Hungria, Polónia e outros países. O aumento dos preços não foi proporcional ao aumento dos salários, e essa foi uma das vias para favorecer a acumulação dos novos capitalistas e para desarmar qualquer tentativa de protesto porque a população devia empregar toda a sua energia no assegurar do sustento diário, sempre abaixo da dieta alimentar habitual que tinha em socialismo. Hoje, os salários continuam a ser muito mais baixos que no ocidente europeu, e isso explica a instalação de empresas ocidentais para explorar uma mão-de-obra barata, mas educada com grande capacidade técnica. A privatização dos bens do Estado (através de vendas arranjadas, em saldo, ou «divisão de participações que, inevitavelmente, acabaram nas mãos dos novos capitalistas) trouxe consigo uma mudança total da propriedade, de que se aproveitaram grandes empresas ocidentais. Os novos bancos que operam na Europa oriental, por exemplo, são controlados na sua quase totalidade por capital estrangeiro, e a introdução das empresas capitalistas europeias procurou desde início apoderar-se de boa parte dos sectores económicos de cada país, juntamente com a exploração de mão-de-obra e a especulação financeira e urbanística e, por vezes, a criação de «indústrias» tão repugnantes como a de pornografia em Budapeste, transformada no maior centro europeu deste negócio.

A dívida externa combinada dos países europeus orientais em 2008, com exclusão da Rússia, superava em muito (quase 200.000 milhões de euros) o montante total dos investimentos estrangeiros (que foram cerca de 450.000 milhões) acumulados nos vinte anos anteriores: um mau negócio sob qualquer ponto de vista. A emigração foi um golpe demolidor para a maioria dos países e, na altura, um recurso inevitável para a subsistência de muitas famílias. Ainda que as estatísticas sejam precárias e incompletas, sabe-se que mais de um milhão de pessoas emigraram para a Grã-Bretanha e muitas outras pessoas fizeram-no para outros países, considerando o governo romeno que 3 milhões de romenos abandonaram o país. Também sabemos que quase quatrocentos mil moldavos emigraram, quase dez por cento da população. Centenas de milhares de crianças foram abandonadas pelos seus pais ou ficaram entregues a familiares. Na Polónia, à volta de quinze mil crianças terminaram em orfanatos. O fenómeno é particularmente grave na Ucrânia, na Moldávia, na Roménia e Bulgária. Só na Roménia, segundo a Fundação Soros (que não é suspeita de ter simpatias pelo velho socialismo real) há trezentas e cinquenta mil crianças abandonadas. O corolário disto tudo é o aumento da delinquência, da exploração sexual de muitas dessas crianças, do tráfico de pessoas. A queda da esperança de vida também tem sido uma constante documentada por autoridades locais e internacionais. Agrupando todos os antigos países socialistas europeus e as maiores repúblicas soviéticas, Rússia e Ucrânia, em 1993 houve quase 700.000 mortos mais que em 1989. Num só ano. O fenómeno, ainda que com altos e baixos, foi constante durante toda a década final do século XX. Essa terrível mortandade deve ser tida em conta quando se fala do suposto «êxito» da transição do socialismo ao capitalismo.

Agora, após vinte anos de capitalismo, as receitas que governos e instituições como o FMI aplicam contra a crise em que se encontram os países do Leste europeu são as tradicionais do mais feroz liberalismo: novas reduções salariais, aumento de impostos à população, retirada de direitos sociais, redução das pensões de reforma, desmantelamento de serviços, com o consequente aumento da pobreza. A omnipresente corrupção, com raízes próprias mas também instigada pela actuação dos empresários ocidentais; a degradação cultural com dramáticas quedas dos índices de leitura e o desaparecimento ou emigração de boa parte dos cientistas e das instituições dedicadas à investigação e à cultura; a destruição de valores como solidariedade, que foi constante e sistemática, substituindo-a pela noção de êxito e de rápido enriquecimento, definem um ameaçador futuro imediato.

Ao mesmo tempo, os traços populistas e mesmo racistas (quando não directamente fascistas, como se viu na reabilitação dos nazis locais nos países bálticos) inundaram o discurso político das novas elites que, além disso, julgam razoável acompanhar Washington em aventuras militares no exterior, como sucedeu no Iraque e no Afeganistão. A submissão das novas elites governamentais da Europa de Leste aos Estados Unidos constata-se na humilhante carta subscrita, por ocasião da agressão da Geórgia à Osétia do Sul no Verão de 2008, por antigos presidentes de alguns países, como o polaco Lech Walesa, o checo Vaclav Havel, a letã Vaira Vike-Freiberga, o lituano Valdas Adamkus, entre outros (todos eles velhos cúmplices das sanguinárias aventuras bélicas de Bush), onde se alarmavam com o decréscimo de atracão pelos Estados Unidos entre a população dos seus países e se afirmavam como decididos «atlantistas» e apelavam à «defesa da Geórgia» e a incluir este país e a Ucrânia na NATO para evitar a influência da Rússia na Europa oriental e limitar a capacidade a sua capacidade de exportação de hidrocarbonetos para o resto do continente: sem se aperceberem, estes aplicados discípulos de Washington definiam um programa completo de expansão de Washington na zona… assinado por aqueles que, ainda ontem, se proclamavam zelosos defensores da liberdade e da independência dos seus países.

Recentemente, a agência Reuters dava nota da nostalgia do socialismo entre a população da Europa de Leste: apenas trinta por cento dos ucranianos é partidária da mudança havida (em 1991, 72% chegou a acreditar que a conversão seria positiva), na Lituânia e na Bulgária já são maioritários os rejeitam a mudança; e na Hungria, 70% dos que eram adultos em 1989, confessa a sua decepção com o capitalismo e pelo abandono do socialismo. Algo semelhante acontece nos países que formaram a antiga Jugoslávia. Na Alemanha de Leste apenas uma quarta parte da população se sente cidadão pleno da nova Alemanha. E na Rússia todas as sondagens dizem que a maioria considera uma tragédia o desaparecimento da URSS. O mesmo acontece noutras repúblicas soviéticas.

É certo que muitos aspectos negativos do socialismo real foram esquecidos pela população, sem dúvida porque o facto incontestável é que a liberdade não existe com precaridade, desemprego, incerteza, corrupção, medo do futuro. Não obstante, ainda que não seja o objecto destas linhas, a aspiração à liberdade e a formas de participação reais na antiga Europa socialista eram questões da maior relevância que foram ignoradas nos países do socialismo real, tal como os sérios desajustamentos da sua economia que se tornaram manifestos ao longo da década de oitenta do século passado. A constatação do desastre social da restauração capitalista faz aumentar a nostalgia em toda a antiga Europa socialista, mas não resolve os problemas actuais da população porque a reconstrução dos instrumentos de oposição capazes de propor opções socialistas viáveis não será simples: a maioria dos partidos comunistas foram destruídos, os seus membros perseguidos, a ideologia comunista sistematicamente difamada, e os governos e partidos liberais mantém um controlo absoluto dos meios de comunicação. Os comunistas russos falam da natureza criminal do actual regime russo, mas a classe operária soviética foi em grande parte destruída pelo processo de desmantelamento industrial, e isso limita a sua capacidade de luta. Apesar disso, subsistem importantes partidos comunistas na Rússia, na República Checa, na Ucrânia e criou-se um novo partido de referência na Alemanha.

Perante o sofrimento social causado nestas duas décadas, devemos concluir que não havia nada para celebrar em Berlim, ainda que os muros nunca sejam uma aposta de futuro. A terapia de choque foi uma experiência social, de que o capitalismo não quer agora ser responsável, que se converteu numa verdadeira matança de dimensões aterradoras. Por toda a Europa oriental a morte cavalgou montada nas privatizações e no capitalismo. Vinte anos depois, os cidadãos desses países recordam as insuficiências do socialismo real, o autoritarismo, a repressão de toda a dissidência, o obsessivo controlo, mas cultivam também a nostalgia de um passado próximo onde, apesar de tudo, a vida era mais humana que agora e, por isso, parecem dizer-nos: Maldito socialismo, que falta nos fazes.


Referência:www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736%2809%2960005-2/abstract

* Higino Polo é

Este texto foi publicado no nº 265 de El Viejo Topo, Fevereiro de 2010

Tradução de José Paulo Gascão

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