Manifestante em stand by*

Anabela Fino    24.May.12    Outros autores

Anabela FinoSeguro é o exemplo acabado de como se pode dizer uma coisa e o seu contrário sem o menor constrangimento, sem a mais pequena réstia de pudor, sem um laivo sequer do sentido de ridículo.

Na véspera de assumir no Parlamento mais uma abstenção – presume-se que violenta –, desta feita a propósito das selváticas alterações ao Código do Trabalho, António José Seguro concedeu uma entrevista à TVI que certamente ficará para a história do contorcionismo político. Acredite-se ou não, fez a quadratura do círculo.

Alternando na postura de líder intrépido com a de ofendido, de apaziguador com a de contestatário, Seguro foi o exemplo acabado de como se pode dizer uma coisa e o seu contrário sem o menor constrangimento, sem a mais pequena réstia de pudor, sem um laivo sequer do sentido de ridículo.

O memorando da troika? Seguro diz que o PS já «esteve mais vinculado» do que está hoje, mas sente-se «obrigado ao compromisso pelo interesse nacional».
O Governo acentua a política de austeridade? Seguro não acompanha, mas ainda está à «espera dos documentos» para saber como votará o Orçamento de 2013.
O consenso está à beira da ruptura? Nem pensar! Só se o Governo «persistir em atacar e dar cabo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), da Escola Pública e Segurança Social».
E este foi o ponto alto da noite de 10 de Maio, com Seguro a prometer: «se o Governo puser em causa o SNS estou disponível para ir para a rua na frente de uma manifestação». É de homem! Sobretudo depois de ter dito que nas suas andanças pelo País constata os dramas humanos de quem já não pode comprar os medicamentos, já não pode pagar a deslocação para uma consulta, já não pode ter direito à saúde porque o Governo já pôs em causa e de que maneira o SNS.
Seguro, com tanta preocupação social, no seu balanço entre consenso e ruptura não falou do desemprego. No dia seguinte percebeu-se porquê na votação das alterações ao Código do Trabalho. A explicação ficou a cargo de Zorrinho, que invocando Seguro reafirmou o respeito pelos «compromissos», e com a mesma coerência do líder lembrou que o PS «manifestou de forma clara a sua discordância face a pontos que vão para além do memorando, designadamente no caso da eliminação de feriados, do banco de horas individual e no que respeita ao enfraquecimento das relações coletivas». Por isso… absteve-se. A manifestação pode esperar…

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2007, 17.05.2012

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