Mão invisível*

Jorge Cadima    23.May.20    Outros autores

Nos EUA, expoente máximo do capitalismo, a perversidade desse modo de produção é tal que, em plena pandemia, «uma das surpreendentes vítimas empresariais da crise do coronavírus podem vir a ser algumas das empresas que fornecem mão de obra para os hospitais».

A pandemia evidenciou que o capitalismo é hoje uma enorme sanguessuga que só sobrevive ligada ao ventilador. O principal comentador económico do Financial Times, Martin Wolf, escreve (29.4.20): «de novo, a aposta numa elevada alavancagem como via mágica para grandes lucros conduziu a lucros privados e resgates públicos. O Estado, sob a forma dos bancos centrais e governos, veio em socorro da finança numa escala gigantesca. […] Da última vez foram os bancos. Desta vez também temos de olhar para os mercados de capitais. […] A transferência para as costas dos governos vai agora acontecer de novo, numa escala enorme». É por isso que a euforia regressa aos mercados bolsistas. A Reserva Federal dos EUA até já intervém «para apoiar dívida empresarial considerada ‘lixo’ pelas agências de notação» (FT, 24.4.20). Os ‘mercados’ só sobrevivem parasitando vorazmente o erário público. O jornalista Matt Taibi (Rolling Stone) escreve que «a Reserva Federal é o mercado, e todos os grandes actores sabem-no». O economista Michael Hudson diz que «já não há forma de descrever o que se está a passar usando as estatísticas oficiais. […] estamos a entrar num mundo de faz-de-conta» (nakedcapitalism.com, 30.4.20).

É evidente o desastre nos EUA e UE – em contraste com a resposta na China e outros países. Um desastre com marca de classe. Se os mercados estão eufóricos com os resgates públicos acima de «$14 triliões» (FT, 24.4.20), para quem vive do seu trabalho a situação é dramática. Nos EUA, o número oficial de trabalhadores que perderam o emprego ultrapassa 36 milhões. O Presidente da Reserva Federal, em discurso no Peterson Institute em Washington (13.5.20), informa que quase 40% dos agregados familiares com rendimentos inferiores a 40 mil dólares por ano perderam pelo menos um emprego. As ‘ajudas’ às PME, sendo dinheiro do erário público, são canalizadas pela banca privada. Segundo a National Public Radio, em apenas duas semanas, «os bancos que gerem o programa governamental de empréstimos para pequenas empresas no valor de $349 mil milhões já ganharam mais de $10 mil milhões em comissões – ao mesmo tempo que dezenas de milhar de pequenas empresas viram recusados os auxílios» (npr.org, 22.4.20). As empresas que recebem o ‘auxílio’ ficam com o garrote da dívida. Michael Hudson adverte que «o resgate financeiro visa permitir ao sector financeiro extrair tanto dinheiro da economia e levar à falência tantas pequenas empresas que [o grande capital] as possa comprar todas a baixo custo». A perversidade do capitalismo é tal, que em plena pandemia «uma das surpreendentes vítimas empresariais da crise do coronavírus podem vir a ser algumas das empresas que fornecem mão de obra para os hospitais» (FT, 13.5.20). Devido à redução de outros utentes nos hospitais, «em Abril a Envision [uma das maiores empresas de mão de obra médica] começou a cortar as horas dos médicos das unidades de emergência […]. Foram adiadas as gratificações e funcionários não clínicos foram informados que estariam em lay-off temporário ou teriam cortes de vencimento».

O ‘mercado’ está de novo a meter a sua ‘mão invisível’ no nosso bolso. Querem usar a pandemia para agravar brutalmente a concentração de riqueza e a exploração. A verdadeira cura será o enterro definitivo dessa gigantesca sanguessuga que parasita o planeta. E que tem nome: capitalismo.


*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2425, 21.05.2020

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