Marcelo e os media: das contradições e do populismo à manipulação pura e dura

Fernando Correia    21.Ene.16    Colaboradores

Um dos problemas de Marcelo Rebelo de Sousa é haver campanha eleitoral. Como “professor-comentador” durante anos e anos esteve relativamente à vontade para intrigar, manipular, mentir e autopromover-se, sem contraditório. Mas uma campanha implica o escrutínio do candidato. E tudo o que se encontra é mau.

O que não faltam no quotidiano das salas de redacção são professores – isto é, antigos ou actuais docentes dos vários níveis de ensino – sejam eles directores, comentadores, analistas, cronistas, jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, informáticos, etc. Mas conhecido por “o professor” só há um. Ele. Só que o currículo do mestre na sua ligação aos media tem muito pouco de magistral – antes pelo contrário.

“O professor”

Apesar de o cognome de Marcelo Rebelo de Sousa (M.) se dever em grande parte à sua assumida intenção de explicar a política aos outros, julgo interessante registar o depoimento de uma jornalista que foi sua aluna há duas décadas na Faculdade de Direito de Lisboa. Eis extractos de um recente texto online de Mafalda Anjos, directora adjunta da Visão.

“Gostava de dar boas notas e, também assim, ‘comprar’” a popularidade que granjeava na Faculdade. Fazia questão de corrigir algumas dezenas de testes, para sentir o pulso à classe. Mas era tão mãos-largas nas notas que até os próprios assistentes subalternos consideravam tal generosidade estupidamente despropositada, e não o escondiam. Para quem quisesse perceber, ficava logo ali bem claro que, com Marcelo, as coisas nunca são o que parecem. Elogiar não é o mesmo que apoiar? Fumar não é o mesmo que inalar? Na cabeça de Marcelo, claro que não. É possível, de facto, dizer tudo e o seu contrário, sempre com um enorme sorriso na cara. (…) Embora adorado pelos alunos, e de longe o professor mais popular da Faculdade no meu tempo (…) nunca foi uma referência entre a doutrina em matéria de direito constitucional. (…) Sempre que me lembro de Marcelo e dos tempos da faculdade, recordo o elogio mais demolidor que alguma vez ouvi sobre alguém: ‘Gosto muito de o ouvir. Costumo concordar sempre com ele, sobretudo nos assuntos que não conheço bem’”.

“Teria de ser muito estúpido”

A relação próxima de M. com a tv tem sido muito falada, tendo em conta, nomeadamente, os últimos anos de presença dominical na TVI. Mas é preciso lembrar que o seu contacto com o público através da palavra e da imagem vem dos anos 90, com presença regular aos microfones da Rádio Renascença e da TSF. Depois veio a tv, entre 2004 e 2005 na TVI, entre 2005 e 2010 na RTP e logo a seguir novamente na TVI, assim consumando uma longa utilização dos media enquanto instrumento de notoriedade e de promoção pessoal. A sua acusação aos candidatos adversários de que, ao contrário do que acontece com ele, não se lhes conhece a posição sobre esta ou aquela situação ocorrida no passado, reveste-se de pouca seriedade e muita hipocrisia.

O apego de M. ao megafone televisivo não tem nada de desinteressado e tem muito de interesseiro. Interrogado, em devido tempo, sobre a sua permanência na tv na hipótese de vir a ser candidato, M. não hesitou na resposta: “teria de ser muito estúpido, e apesar de tudo as pessoas reconhecem-me alguma inteligência, para, podendo ter uma tribuna, até ao verão ou Outono do ano que vem, sendo as eleições em Janeiro de 2016, decidir abandonar essa tribuna um ano antes”. O certo é que só nas vésperas do anúncio da candidatura viria a deixar a preciosa “tribuna” (“lugar elevado de onde falam os oradores” e “os pregadores”, diz o Houaiss).

Realmente, estúpido não será; mas fica à liberdade do leitor escolher outros termos definidores do perfil da criatura.

O vergonhoso caso do Semanário

A ligação mais profunda de M. com os media foi na imprensa, desde logo no Expresso. Num texto tido como elogioso (Sol, 2.1.16) recorda-se que o semanário “era muitas vezes uma arma política” e que “Marcelo chegava a escrever notícias sobre si mesmo”; “inova na forma como se faz jornalismo em Portugal”, pondo, por exemplo, no verão de 1979, “jornalistas a percorrer praias e festas em busca de intrigas sociais.” Em 1981 entra para o governo presidido pelo dono do Expresso, e então, já “do outro lado da barricada do jornalismo político, servia de porta-voz de Balsemão e promovia fugas de informação selectivas para os jornais. Era uma das fontes do então jovem jornalista Paulo Portas.”
Terminemos com a evocação – e não é a primeira vez que o faço, praticamente com as mesmas palavras – de uma história edificante sobre a ligação de M. à imprensa.

Em Novembro de 1983 saía o primeiro número do Semanário (criado por M. e, entre outros, Daniel Proença de Carvalho e José Júdice) em cujo Estatuto Editorial se fazia solene profissão de fé na “liberdade”, na “Pátria”, na “bondade e dignidade do Estado”, na “unidade nacional”, na “iniciativa privada”, na “sociedade das ideias”, no “orgulho da História”, no “reencontro de um sentido espiritual como forma de ter fé na vida”, numa “informação que seja o resultado do rigor no profissionalismo” e numa “opinião que seja livre e tenha mérito”.
Mas as coisas não eram bem assim.

Treze anos volvidos, numa prosa evocativa da efeméride (“Semanário, 13 anos”, in Semanário, 30.11.96), o presidente do conselho de administração no tempo da fundação – M., pois claro – veio confessar e vangloriar-se de que, afinal, por detrás daquelas palavras estava “um projecto político militante”; que o que se pretendia com o jornal era “contestar o Bloco Central e preparar uma alternativa de centro e direita ao Partido Socialista liderante e ao Presidente da República em funções”; e que, “politicamente, o Semanário cumpriu a sua missão”, na medida em que, nomeadamente, “contribuiu decisivamente para a queda do Bloco Central, para a ‘Nova Esperança’ e a subida ao poder de Aníbal Cavaco Silva”, e “em 1987 viu completado o seu desígnio na maioria absoluta do PSD, corolário da luta de anos”.

Manipulação pura e dura, pois, de um candidato a Belém que, sabiamente, Paquete de Oliveira classificou como “um sagaz malabarista que faz do sofisma a maneira mais hábil para esconder a mentira ou a contradição” (Público, 16.1.16).

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