McChrystal despedido por criticar política de guerra dos Estados Unidos

John Catalinotto*    12.Jul.10    Colaboradores

“Tal como qualquer outra presidência americana, a actual administração está cativa da gigantesca máquina militar americana para gerir a política externa, tal como está cativa de Wall Street e dos grandes bancos no que respeita à política económica e das grandes empresas petrolíferas no que se refere ao ambiente. O Pentágono, na prática, coagiu a administração a alargar a guerra no Outono passado quando revelou sub-repticiamente os planos de contra-insurreição aos meios de comunicação antes de os apresentar ao presidente. Não é a demissão de um general que vai alterar este equilíbrio.”

Uma vista de olhos pelo Google News mostra-nos que dezenas de milhares de artigos noticiaram que o presidente Barack Obama exonerou o general Stanley McChrystal e substituiu-o pelo general David Petraeus. Esta exibição de confusão e de desmoralização no seio das chefias militares e civis do imperialismo dos EU proporciona uma oportunidade em cheio para acelerar os esforços para forçar Washington e os seus aliados a recuar e a pôr fim à guerra e à ocupação ilegais do Afeganistão pelos EUA-NATO.

Não há a menor dúvida de que o crescendo da publicidade em torno da guerra no Afeganistão tem suscitado um interesse cada vez maior. O derrame de petróleo da BP e a incapacidade de a economia capitalista gerar empregos continuam na ordem do dia, mas durante uns dias sofreram forte concorrência nos meios de comunicação. O imperialismo dos EUA tem um grave problema no Afeganistão na medida em que a sua táctica actual falhou completamente. Ou a administração Obama reconhece a derrota e se retira do Afeganistão ou vai ter que reforçar a intervenção americana e impor sacrifícios muito maiores à população americana a par de maior sofrimento para os afegãos. Chegou a altura de reforçar a escrita, as palavras e as acções contra esta ocupação colonial injusta.

Então, o que é que aconteceu que levou ao alvoroço dos meios de comunicação na última semana de Junho? No início deste ano, McChrystal, o seu secretário de imprensa e os seus assessores aceitaram que o repórter freelance e crítico de guerra Michael Hastings se juntasse ao seu círculo restrito num jantar em Paris enquanto estavam à espera que abrandassem as cinzas do vulcão islandês para poderem viajar de avião.

Durante esse jantar, os assessores fizeram alguns comentários depreciativos insultando Eikenberry, o embaixador americano no Afeganistão – um antigo general de três estrelas, o vice-presidente Joe Biden e Richard Holbrooke, o representante especial para o Afeganistão e Paquistão. Chamaram «palhaço» a James Jones, antigo general de quatro estrelas e conselheiro da Segurança Nacional. McChrystal também disse que Obama parecia pouco à vontade numa reunião que tinham tido no Outono.

A equipa de McChrystal também proferiu alguns comentários que davam a entender que a estratégia de «contra-insurreição» que tanto McChrystal como Petraeus defendem não está a surtir efeito na ocupação do Afeganistão. O próprio McChrystal referiu-se à reocupação da região de Marja como uma «úlcera sangrenta». Esta região é aquela cuja reconquista supostamente iria inverter a maré da guerra contra os talibãs no início deste ano. Marja foi muito publicitada por todos os comunicados de imprensa do Pentágono, mas a região acabou por voltar para a resistência.

Um conselheiro sénior de McChrystal acrescentou, «Se os americanos [sic] pensassem um bocadinho e começassem a prestar atenção a esta guerra, ela tornar-se-ia ainda menos popular». Este comentário desmoralizado realçava o facto real de que a população dos EUA não apoia a guerra no Afeganistão e se for chamada a fazer mais sacrifícios, pode recusar-se a isso e resistir.

Embora o artigo de Hastings abra com alguns comentários que fizeram com que ele se espalhasse rapidamente na Internet, não deixa de ser uma peça cuidadosamente escrita e documentada que examina as dificuldades da posição dos EUA no Afeganistão. Hastings não põe em causa os motivos de Washington para a ocupação ou para o papel agressivo do Pentágono a nível mundial.

Hastings conclui, «Seja qual for a natureza do novo plano [para Kandahar], o atraso realça as falhas fundamentais da contra-insurreição. Depois de nove anos de guerra, os talibãs continuam entrincheirados de forma tão profunda que os militares americanos não conseguem atacar abertamente. A própria população que o COIN pretende atrair – a população afeg㠖 não nos quer lá».

A desmoralização dos assassinos treinados

Hastings inclui um elogio à acção de McChrystal, especialmente por não recear o trabalho duro e a disciplina, e afirma que “McChrystal e os seus homens dominam inquestionavelmente todos os aspectos militares da guerra”. Mas a sua descrição do grupo do general choca com isso: “A equipa do general é uma colecção cuidadosamente escolhida de assassinos, espiões, talentos, patriotas, operacionais políticos e maníacos a cem por cento. Há um antigo chefe das Forças Especiais Britânicas, dois SEALS [1] da Marinha, um comando das Forças Especiais Afegãs, um jurista, dois pilotos de caças, e pelo menos duas dúzias de veteranos de combate e especialistas da contra-insurreição. Referem-se a si próprios, de brincadeira, como a Equipa América…»

Isto é mais o estilo de McChrystal, atendendo ao seu currículo no Iraque enquanto subordinado de Petraeus, responsável pela política de contra-insurreição durante a chamada ofensiva naquele país.

O artigo apareceu na internet em 21 de Junho. Em poucas horas foi reproduzido por todos os meios de comunicação, ainda antes de chegar à imprensa e criou um tremendo conflito com a administração. Cerca de 36 horas depois de ter aparecido o artigo, Obama aceitou o pedido de demissão de McChrystal. Ao não apresentar qualquer desculpa ou desmentido, McChrystal parecia quase aliviado por se ver livre do comando. O seu rápido pedido de demissão foi consistente com a atitude desmoralizada expressa pela «Equipa América» naquele jantar. Estavam a perder a guerra com as forças disponíveis e achavam que a administração lhes recusaria o reforço de forças e o tempo que pretendiam.

Dada a rivalidade entre os funcionários americanos que dirigem a guerra, o quase colapso da anunciada ofensiva em Kandahar, o anúncio dos holandeses e dos polacos de que iam prosseguir com a retirada das tropas, a crescente oposição à guerra na Alemanha e na Grã-Bretanha, o aumento de mortes no seio das forças EU-NATO, a instabilidade do presidente fantoche Hamid Karzai e a inquestionável resistência da população americana a intensificar a guerra, é fácil perceber porque é que o general pode ter preferido demitir-se rapidamente em vez de ser acusado de uma derrota.

Grande parte da discussão nos meios de comunicação institucionais foi sobre os conflitos civis-militares, sobre os problemas com a ocupação afegã e sobre as estratégias discordantes para obter uma vitória dos EUA. Nenhum deles se referiu nem de longe à verdade central de que a intervenção americana no Afeganistão se baseia não em «acabar com o terrorismo» mas em alargar os interesses geopolíticos do imperialismo dos EUA.

Inicialmente, Washington apoiou grupos como a al-Qaida nos anos 80 contra as tropas soviéticas solicitadas por um governo afegão progressista. A seguir, permitiu que o regime militar paquistanês colocasse os talibãs no poder. Depois os EUA invadiram o Afeganistão em 2001 utilizando a alegada «guerra contra o terrorismo» como pretexto.

Agora a guerra já dura há mais tempo do que a guerra contra o Vietname, com mais de 1.000 efectivos americanos mortos e o que mais há-de vir. Os talibãs deixaram de ser um governo reaccionário e anti-popular para passarem a ser a força principal numa guerra de resistência do povo afegão.

Embora a «equipa» de McChrystal possa ser descrita, e bem, como um grupo de assassinos contratados, isso não significa que os adversários do general sejam menos perigosos. Os funcionários americanos, tanto os civis como os militares, estão apostados em defender os interesses imperialistas dos EUA. O próprio Petraeus é um general de topo e o arquitecto da «contra-insurreição» no Iraque. Eikenberry e Jones são antigos generais de topo. Biden, um funcionário civil, é o autor da estratégia de dividir o Iraque em milícias com base na etnia e na religião, uma estratégia que impôs um sofrimento indescritível a milhões de iraquianos vulgares. Holbrooke, o «czar do Afeganistão-Paquistão,» é um funcionário sénior do Departamento de Estado e um guerreiro insensível que apadrinhou a guerra de agressão da NATO que desmantelou a Jugoslávia.

Petraeus, segundo tudo leva a crer, também está empenhado no plano de contra-insurreição e na continuação da política dos EUA no Afeganistão. Mas, nos seus últimos comentários, disse que estaria disposto a rever as «regras de combate» defendidas por McChrystal. Esta mudança levará sem dúvida a mais baixas civis.

Denúncia do alto preço da guerra

A maioria, se não todos, destes funcionários, civis e militares, seriam candidatos a acusações por crimes de guerra num mundo em que o poder militar e económico dos EUA deixasse de decidir o que é certo ou o que é errado.

Tal como qualquer outra presidência americana, a actual administração está cativa da gigantesca máquina militar americana para gerir a política externa, tal como está cativa de Wall Street e dos grandes bancos no que respeita à política económica e das grandes empresas petrolíferas no que se refere ao ambiente. O Pentágono, na prática, coagiu a administração a alargar a guerra no Outono passado quando revelou sub-repticiamente os planos de contra-insurreição aos meios de comunicação antes de os apresentar ao presidente. Não é a demissão de um general que vai alterar este equilíbrio.

Numa época de cortes orçamentais sem precedentes nos serviços sociais e nos benefícios alargados para o desemprego, é mais fácil que a população, em especial os trabalhadores, os oprimidos e os jovens, percebam que uma guerra dispendiosa no Afeganistão não só é uma sangria como é sobretudo um crime. Que as chefias da guerra estão a escancarar a porta a uma potencial luta de massas que pode fazer a diferença para acabar com a guerra no Afeganistão. Mas também pode fazer surgir o perigo de o imperialismo americano tentar expandir a guerra ou talvez mesmo começar uma guerra noutro sítio qualquer onde o seu poderio aéreo e as suas armas estratégicas lhe dêem vantagem.

A pergunta sem resposta é, como é que a população americana vai reagir?


Nota:

[1] Forças SEAL (United States Navy Sea, Air and Land) são as Forças de Operações Especiais de elite da Marinha dos EU, utilizadas na guerra não convencional, guerra de guerrilha, defesa interna, acção directa, contra-terrorismo, detecção e detenção (rapto) específica de inimigos, assassínio de inimigos específicos, salvamento de reféns e operações especiais de reconhecimento.

* John Catalinotto é amigo e colaborador de odiario.info

Este texto é baseado numa palestra proferida pelo autor em 2 de Julho num fórum do Workers World Party em Nova Iorque

Tradução de Margarida Ferreira

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