McKinsey: é tempo de dar uma limpeza aos “gabinetes”

Jonathan Lefevre    27.Ene.21    Outros autores

As grandes multinacionais de consultoria facturam milhões a fazer muito do que as administrações públicas deveriam fazer. Ganham em todos os tabuleiros: promovem ainda “menos Estado”, promovem ainda maior degradação dos serviços públicos (e maiores lucros aos privados) e ainda fornecem aos governos a justificação de que as (más) decisões que põem em prática foram aconselhadas “pelos técnicos mais qualificados que garantem que nenhuma outra coisa poderia ter sido feita”. O seu papel na actual crise é elucidativo.

“Nunca deve desperdiçar-se uma boa crise”. Esta frase, atribuída ao ex-primeiro-ministro conservador britânico Winston Churchill, os abutres que ganham dinheiro à nossa custa aprenderam-na de cor. Para eles, o coronavírus é uma dádiva. O exemplo do gabinete de consultoria McKinsey é revelador…

Os dirigentes liberais apelam às multinacionais de consultoria para fazer cortes nos orçamentos dos nossos serviços públicos. Como na saúde, por exemplo. Os consultores aconselham os governos a cortar no pessoal e no material. Depois, quando nos damos conta dos efeitos desastrosos para a população desses “conselhos” postos em prática pelos nossos governantes, quem chamam estes últimos? Os que lhes tinham dado estes conselhos … Bem-vindos ao maravilhoso mundo dos gabinetes de consultoria privados.

O diário francês Liberation estima que a gigante consultora McKinsey já terá recebido 100 milhões de euros dos governos (UE, Canadá, França, etc.) por assessorias relacionadas com a gestão da crise sanitária. Por exemplo, o governo francês fez apelo a este gabinete para decidir sobre a estratégia de vacinação. Para um famoso resultado porque o país de Macron está a sair-se ainda pior do que a Bélgica nesta área (216 belgas vacinados por 100.000 habitantes contra 206 franceses, números de 11 de Janeiro), que é um diabo de um desempenho. Tudo isto por 2 milhões de euros mensais…

Um enorme poder delegado pelos nossos dirigentes

A Bélgica é também um cliente fiel da McKinsey. Em 2011, a Região da Valónia encomendou um estudo à McKinsey para mudar sua imagem a fim de atrair investidores estrangeiros. A factura ascendia a 2 milhões de euros (incluindo 60.000 euros por um ridículo logótipo composto por 5 pontos…).

A Publifin/Nethys pagou à McKinsey 5 milhões de euros por ano durante 12 anos por consultoria. Conselhos que poderiam ter sido prestados por trabalhadores da empresa intermunicipal. A McKinsey decidiu, entre outras coisas, que a Tecteo (filial da Nethys) deveria implementar um novo regulamento de trabalho para aguar uma série de ganhos sociais. Apanhado em flagrante (por ter subvalorizado empresas que Nethys queria vender), o gabinete pagou 7 milhões à Nethys para se reconciliarem (e evitar um processo judicial).

O Pacte d ‘Excellence, esta reforma educacional desejada pela Federação Valónia-Bruxelas? Este é também obra da McKinsey, gabinete escolhido pela então ministra Joëlle Milquet, apesar de duas opiniões negativas da Inspecção de finanças… É preciso dizer que o caderno de encargos para a adjudicação do contrato foi redigido pela… McKinsey, alguns meses antes do lançamento do concurso…

E esses são apenas alguns exemplos que mostram a que ponto empresas como a McKinsey têm um poder enorme sobre as nossas vidas.

Escolha ideológica e política

Escolha de apelar a empresas de consultoria privadas é uma forma de terceirizar a política. É sobretudo uma escolha ideológica: pedir “conselhos” à McKinsey significa poder quebrar os nossos serviços públicos, a nossa segurança social, etc. ao mesmo tempo que se diz “sim, mas não somos nós, são especialistas que dizem que não temos escolha…” É por isso que os liberais (tenham eles etiqueta azul, rosa, verde ou laranja) adoram dar muito dinheiro público a pessoas que veiculam a ideologia neoliberal a fim de fazer passar as suas políticas antissociais. Cuja relevância a crise actual mostra…

Gabinetes como McKinsey não são politicamente neutras em absoluto. “Trabalhando para o público e o privado, esses gabinetes contribuem para alinhar o primeiro com a visão de mundo do segundo”, explica Olivier Petitjean, do Observatório das Multinacionais, no diário francês L’Humanité. “Eles prosperam sobre a imposição dessas lógicas neoliberais e de cortes orçamentais nos serviços públicos.”

McKinsey e os governos liberais, uma história de amor

O conluio entre a McKinsey e o mundo político vai para além do namorico. Podemos falar de paixão amorosa. Em França, foi Maël de Calan quem apresentou o plano de vacinação às agências regionais de saúde (ARS) e a alguns hospitais, após uma breve apresentação do ministro da Saúde, Olivier Verran. Ora, Maël de Calan foi candidato às eleições legislativas de 2017. Em que lista? Na do movimento de Macron, obviamente. E um dos dirigentes da McKinsey França, Karim Tadjeddine, é o autor de um livro publicado em 2016 e prefaciado por … Emmanuel Macron … Na Bélgica, o secretário de Estado “socialista” responsável pela recuperação, Thomas Dermine , chefiou na McKinsey em Londres de 2009 a 2016. Quem o substitui à frente do serviço de estudos do PS também é um ex da McKinsey. Nos Estados Unidos, numerosos conselheiros passam da McKinsey para os serviços da direcção do Partido Democrata. Por exemplo, Joe Biden escolheu Pete Buttigieg para seu Ministro dos Transportes. Buttigieg trabalhou para a McKinsey. E até fez um bom trabalho, segundo a jornalista norte-americana Liza Featherstone. “Quando Buttigieg trabalhou para a empresa, ele demonstrou um zelo impressionante. Embora tenha sido muito discreto sobre este assunto, a sua intervenção provavelmente resultou em despedimentos no US Post e na seguradora Blue Cross Blue Shield.»

“É um mundo pequeno, os gabinetes de consultoria fazem parte daquelas indústrias em que grande parte dos contratos depende dos poderes públicos, o fundamental é a proximidade com os decisores. É por isso que eles têm essa prática dita de porta giratória, onde ex-políticos ou altos funcionários são corrompidos, e vice-versa ”, explica Olivier Petitjean em L’Humanité.

McKinsey, “uma nódoa feia”

A McKinsey, além de ser uma gigante da consultoria (33.000 funcionários, facturação de US $ 10 milhares de milhões…) que se gaba de assessorar 147 das 200 maiores empresas do mundo, é uma assassina de empregos. “Os políticos cujo currículo menciona ‘McKinsey’ nunca deveriam ocupar cargos públicos”, diz Liza Featherstone. “A McKinsey é uma das piores empresas de consultoria. O jornalista de assuntos económicos Duff McDonald, autor de The Firm, um livro sobre a McKinsey, revelou ao Times que a McKinsey “poderia ​​estar por detrás dos despedimentos mais massivos da história”. As empresas despedem sempre trabalhadores quando os tempos são difíceis, mas a McKinsey “rompeu” essa tradição impelindo as empresas a fazê-lo também em tempos de prosperidade, disse ele, “simplesmente para terem mais lucros”.”

A conclusão do jornalista? “Ter experiência na McKinsey é considerado por muitos no governo como garantia de inteligência (…). Mas, à medida que a influência da base de esquerda cresce, essa perspectiva poderia mudar. Mais do que constituir uma etapa valorizadora para pessoas dotadas e ambiciosas, essa passagem pela McKinsey poderia tornar-se uma nódoa feia no currículo, como se tivesse trabalhado para uma empresa tabaqueira ou um fabricante de armas.”


»» https://www.solidaire.org/articles/mckinsey-il-est-temps-de-nettoyer-l…
Fonte: https://www.legrandsoir.info/mckinsey-il-est-temps-de-nettoyer-les-cabinets.html

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