Médio Oriente: a região mais afectada pelas alterações climáticas

Nazanín Armanian    18.Dic.19    Outros autores

As campanhas mediáticas em torno da “emergência climática” desenvolvem-se em regra sobre um mundo abstracto. Este artigo centra o olhar sobre uma região, concreta e martirizada, tanto pela exploração desenfreada de recursos naturais como pela guerra. Guerras que, sintomaticamente, nunca são referidas pelos arautos de tal “emergência.”

Em Julho de 2018, a temperatura do deserto da Líbia atingiu 58 graus Celsius e as planícies iranianas de Lut os 63° C. Especialistas da ONU alertam para que, em meados do século, vastas áreas do Médio Oriente e do norte de África (MONA) podem tornar-se inabitáveis. Até o chamado Crescente Fértil, localizado entre o Eufrates e o Tigre, onde a agricultura nasceu há 12.000 anos, está a secar. A Organização de Florestas e Pastagens do Irão revela que a desertificação ameaça 90% do território do país e que a grande maioria dos lagos e rios do Irão estão a morrer: em 2015, 70% de suas áreas húmidas foram declaradas secas.
Os habitantes das regiões mais desérticas do MONA já sonhavam há milhares de anos com um lugar verde e cheio de água na “outra vida” e chamaram-no Paraíso (Pardis, jardim murado em persa), mas um relatório da NASA observa que o actual período de seca é o pior dos últimos séculos e o stress hídrico poderá forçar a deslocação de até 100 milhões de pessoas até 2025.
Embora 70% do planeta esteja coberto de água, apenas 3,5% é água doce, da qual apenas 1% é de fácil acesso; a região MONA, com 5% da população mundial, tem acesso a apenas 1% dessa água, sofrendo a maior escassez de água no mundo.
Entre 4.000 e 2.000 anos atrás, esta região que foi o centro das primeiras civilizações humanas (Cartago, Fenícia, Suméria, Akad ou Pérsia) - para cujo desenvolvimento a água era imprescindível – é hoje a região mais seca do planeta, e vive um declínio dramático, embora não apenas por causa de calamidades naturais.

Factor guerra

A guerra é a principal causa da destruição do meio ambiente no MONA, curiosamente ausente da agenda das “cimeiras ecológicas”, que também não pedem que os exércitos revelem o seu consumo de combustível em zonas de conflito. Embora alguns ambientalistas se preocupem com a qualidade de vida das gerações futuras, as guerras imperialistas das últimas décadas não apenas destruíram a vida de cerca de 100 milhões de pessoas (incluindo os “filhos do urânio”) nesta região hoje e agora, como também o seu ecossistema actual e futuro. Dezenas de milhões de barris de petróleo foram despejados nas águas do Golfo Pérsico: a última vez, uma quantidade indeterminada durante a “Guerra dos Petroleiros” de Julho passado. As agressões militares geram também pobreza, e a pobreza gera degradação ambiental: uma população deslocada causa escassez de certos recursos nos locais de acolhimento, gerando novos conflitos de consequências desastrosas para o habitat.
Em Gaza, o estado colonial de Israel é a principal causa da catástrofe ambiental que vivem os milhão e meio de prisioneiros - incluindo centenas de milhares de crianças - encerrados em cerca de 365 quilómetros quadrados. O derrube de cerca de 2 milhões de árvores palestinas pelos ocupantes; o bombardeamento contínuo de estações de tratamento de água, fazendas de animais, hectares de lavouras e das habitações que enchem o meio ambiente com resíduos tóxicos, e em parte acabam no Mediterrâneo, farão com que dentro de poucos anos Gaza seja inabitável. A alta taxa de natalidade da população (3,4% em comparação com 1,18 de média mundial) agrava essa situação.

Um capitalismo inculto

Num MONA dominado por califas, sultões, xeques e presidentes vitalícios, alcançar o maior lucro no menor tempo possível e em favor da propriedade privada dos clãs reinantes, destrói o habitat do resto da população. Os Emirados Árabes Unidos estão a construir ilhas artificiais colossais - para abrigar milhares de vilas, centros comerciais, hotéis e até uma Trump Tower - em forma de palmeira no Golfo Pérsico, causando um grande desastre ecológico para a flora e a fauna: para formar três ilhas extraíram milhões de metros cúbicos de areia, acabando com a vida de peixes e com 70% de seus recifes de coral.
Em 2013, os cidadãos da Turquia conseguiram salvar o Parque Taksim Gezi de Istambul de se converter num centro comercial, mas não puderam impedir que Tayyeb Erdogan construísse o seu faraónico palácio em cerca de 200.000 metros de floresta em Ancara.

Água: da crise ao conflito

O MONA vem sofrendo desde há 30 anos a seca mais prolongada da sua história conhecida. Os níveis de água nos rios Eufrates, Tigre, Jordão ou o Mar da Galileia diminuíram, ameaçando a segurança alimentar de milhões de pessoas. O Mar Morto perdeu um terço do seu tamanho nas últimas duas décadas devido ao aumento das temperaturas. Na Síria, uma das razões do conflito convertido em guerra foi a seca que o atingiu antes de 2011. A água foi também a fonte da devastadora invasão do Irão pelo Iraque em 1980: Bagdad rompeu o acordo da Argélia que o xá impôs em 1975 ao país vizinho sobre a distribuição da água fronteiriça de Arvand Rud. A morte de um milhão de pessoas de ambos os lados durante oito anos de guerra não resolveu a disputa. O lago iraniano de Urumié (Águas em Aramaico), um dos maiores lagos salgados do mundo e declarado reserva da biosfera pela Unesco, é outra vítima do aquecimento global: morreu lentamente durante anos, até que chuvas torrenciais em 2018 lhe devolveram alguma vida.
O projecto da Etiópia de construir a Grande Represa do Renascimento no Nilo, que a tornaria o principal gerador e beneficiário de eletricidade em África é também uma fonte de tensão com o Egipto, que teme perder a sua hegemonia sobre a região. Na Turquia, o projecto Gap, de construir 22 barragens e 19 centrais hídricas no Eufrates e no Tigre, afectará a vida de milhões de iraquianos, sírios e iranianos, gerando novos conflitos.

Mais filhos, menos recursos

O aumento descontrolado da população do MONA de 127 milhões de pessoas em 1970 para 320 milhões em 2010 fará com que esta região, com este ritmo de crescimento, tenha 700 milhões de habitantes em meados do século. A Síria passou de 4 milhões de habitantes em 1950 para 20 milhões em 2010; no Irão, a proibição de contraceptivos pela teocracia islâmica fez disparar estes números: de 30 milhões de habitantes em 1978 para os 81 de hoje. Tayyeb Erdogan, a quem parecem poucos os 82 milhões de “súbditos” actuais, propôs mudar o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora para o “Dia da Glorificação do Parto”, incentivando as mulheres a terem um mínimo de cinco filhos, confundindo as cidadãs com máquinas de parir. As feministas obrigaram-no a arquivar este disparate.

Políticas nefastas

O cultivo caprichoso de certos produtos: sabia que um quilo de melancia requer uns 300 litros de água? O Irão, terceiro produtor desta delícia depois da China e da Turquia, quando exporta 100 mil toneladas dessa fruta por ano (para Espanha, por exemplo), terá gasto 50.000 milhões de metros cúbicos de água.
A destruição das técnicas milenárias de preservação da água, como os Qanat (canal é a deformação fonética deste termo persa), que são depósitos subterrâneos de água e redes da sua distribuição: a extracção descontrolada das suas águas mediante a escavação de mais de 760.000 poços nos últimos 25 anos. Em Bamián, no Afeganistão, os bombardeamentos incessantes da NATO acabaram com o antigo sistema de armazenamento subterrâneo de Karez. Neste país, com importantes caudais de água, a poderosa máfia madeireira, em quarenta anos de guerra e caos, cortou 60% das árvores das suas florestas.
Em nenhum país do MONA, proteger o meio ambiente está entre as prioridades dos seus governos; em nenhum, o transporte público é gratuito e, na maioria, é deficiente, forçando a população a usar milhões de automóveis que emitem gases tóxicos durante horas intermináveis ​​de caravanas que se formam nas suas grandes cidades, mostrando também a ineficiência dos seus autarcas.

Ahwaz: reúne todos os males

Os 1,2 milhões de habitantes da capital da província iraniana de Juzestán - que alberga cerca de 90% das reservas de petróleo do país -, respiram o ar mais nocivo do planeta: seu Índice de Qualidade é 372, quando a Agência de Proteção Ambiental estabelece o número 300 como um indicador do ar mais perigoso.
Para que esta região, que fez parte do mítico império Susa, tenha tal status, tiveram que convergir os seguintes factores:
• Ser governado por um capitalismo, além do mais ditatorial, que além de dar prioridade aos interesses empresariais por cima do bem comum, persegue os ambientalistas independentes que exigem regulamentações básicas para as unidades de processamento de hidrocarbonetos e seus derivados.
• Pertencer à minoria árabe do país, empobrecida, discriminada e perseguida.
• Ter sido zona de guerra durante a invasão do Iraque ao Irão nos anos oitenta. As refinarias e os poços de ambos os países foram atacados mutuamente com mísseis durante oito anos.
. Compartilhar fronteira com o Iraque, país bombardeado pelos EUA e seus aliados desde 1991 até hoje (sob o pretexto de combater o Daesh).
• Introduzir uma cultura não autóctone por parte de empresários governamentais: a cana-de-açúcar. Com ela:
1. Prejudicaram as culturas autóctones, como trigo e tâmaras.
2. Desviaram rios e drenaram pântanos para irrigar grandes plantações de açúcar, que consomem uma enorme quantidade de água no seu processamento, e que secaram as áreas húmidas de Falahiyeh e Horazim.
3. Condenaram milhares de famílias camponesas à pobreza absoluta; e derramaram resíduos poluentes nas águas que irrigavam as terras cultiváveis dos agricultores pobres.
4. Geraram um ar irrespirável pela queima das canas e, apesar de tudo isso, mesmo assim, o negócio foi um fracasso total, graças ao mercado livre e à importação de açúcar mais barato da Índia por outros empresários.
Ainda por cima, esta cidade recebe fortes tempestades de areia provenientes de um Iraque devastado e desertificado. Em Fevereiro de 2018, milhares de Ahwazis foram atendidos nos hospitais por respirarem um pó contaminado que causou o encerramento de aeroportos e escolas durante vários dias.
Segundo o Centro de Estatísticas do Irão, entre 1974 e 1994 cerca de 24 milhões de iranianos abandonaram a sua residência anterior fugindo da seca, dos terramotos e das inundações.
Salvar o meio ambiente é impossível sem 1) parar as guerras e 2) desmantelar o sistema capitalista em favor da propriedade pública e democrática dos meios de produção e de uma distribuição justa dos recursos.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6151/oriente-proximo-la-region-mas-afectada-por-el-cambio-climatico/

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