Mensagem de Fidel

Fidel Castro    19.Dic.07    Outros autores



Publicamos hoje a mensagem de Fidel Castro ao povo cubano no dia 17 de Dezembro, através do programa da TV cubana Mesa Redonda.

Ouvi integralmente sem perder um só segundo a mesa Redonda de quinta feira, dia 13. As notícias sobre a Conferência da Bali, enviadas por Rogelio Polanco, director de Juventud Rebelde, confirmam a importância dos acordos internacionais e a necessidade de os tomar muito a sério.

Naquela pequena ilha indonésia reuniram-se numerosos Chefes de Governo de países do chamado Terceiro Mundo, que lutam pelo seu desenvolvimento e reclamam dos representantes das nações industrializadas ali também presentes um tratamento equitativo, recursos financeiros e transferências de tecnologia.

O Secretário-Geral das Nações Unidas, perante a tenaz obstrução dos Estados Unidos junto das 190 nações ali reunidas, e depois de 12 dias de negociações, afirmou sexta-feira pelas 14 horas (hora de Cuba), quando já era sábado em Bali, que a espécie humana podia desaparecer como consequência da mudança climática. Depois foi para Timor Oriental.

Aquela declaração ameaçou transformar a conferência num saco de gatos [olla de grillos]. Ao décimo segundo dia de estéreis esforços persuasivos, a representante ianque, Paula Dobriansky, após um suspiro profundo, declarou: «unimo-nos ao consenso.» É óbvio que os Estados Unidos manobraram para evitar o isolamento, ainda que não tivessem mudado, em absoluto, as sombrias intenções do império.

Veio o grande espectáculo: o Canadá e o Japão juntaram-se de imediato aos Estados Unidos, frente ao resto dos países que pediam compromissos sérios sobre a emissão de gases que provocam a alteração climática. Tudo estava antecipadamente previsto entre os aliados da NATO e o poderoso império, que numa manobra enganosa acedeu negociar durante o ano de 2008 em Havai, território norte-americano, um novo projecto de convénio, que seria apresentado e aprovado na Conferência de Copenhaga, Dinamarca, em 2009, para substituir o de Quioto que caduca em 2012.

À Europa na teatral solução reservaram-lhe o papel de salvadora do mundo. Falaram Brown, Merkel e outros líderes de países europeus pedindo a gratidão internacional. Excelente prenda de Natal e Ano Novo. Nenhum dos panegíricos mencionou as dezenas de milhões de pessoas pobres que continuam a morrer por doenças e fome devido às realidades actuais, como se vivêssemos no melhor dos mundos.

O Grupo dos 77, que compreende 132 países que lutam pelo desenvolvimento, tinha conseguido o consenso de pedir aos países industrializados uma redução dos gases que provocam as alterações climáticas, para o ano 2020 de 40% menos do que o nível atingido em 1990, e 60 a 70% no ano de 2050, o que é tecnicamente possível. Pediam ainda, a atribuição de fundos suficientes para a transferência de tecnologia para o Terceiro Mundo.

Não esquecer que esses gases dão lugar a ondas de calor, à desertificação, ao derretimento de glaciares e ao aumento do nível dos mares, que poderão cobrir países inteiros ou grande parte deles. As nações industrializadas partilham com os Estados Unidos a ideia de transformar os alimentos em combustível para os carros luxuosos e outros esbanjamentos das sociedades de consumo.

O que afirmo ficou demonstrado quando no próprio sábado dia 15 de Dezembro se tornou público pelas 10 e 06, hora de Washington, que o Presidente dos Estados Unidos tinha solicitado ao Senado, e este tinha aprovado, 696 mil milhões de dólares para o orçamento militar do ano fiscal de 2008, entre eles 189 mil milhões destinados às guerras do Iraque e do Afeganistão.

Senti um sadio orgulho ao recordar a forma digna e serena como respondi às lesivas [hirientes] propostas que me fez em 1998 o então primeiro do Canadá, Jean Chrétien. Não albergo ilusões.

A minha mais profunda convicção é que as respostas aos problemas actuais da sociedade cubana, que tem uma média educacional próxima dos 12 anos, quase um milhão de licenciados e a possibilidade real de estudar para os seus cidadãos sem discriminação alguma, requerem mais variantes de resposta para cada problema concreto que as contidas num tabuleiro de xadrez. Nem um só detalhe se pode ignorar, e não se trata de um caminho fácil, se é que a inteligência do ser humano numa sociedade revolucionário há-de prevalecer sobre os seus instintos.

O meu dever fundamental não é aferrar-me a cargos, nem muito menos obstruir a passagem a pessoas mais jovens, mas trazer experiências e ideias cujo modesto valor provém da época excepcional que me calhou viver.

Penso como Niemeyer que há que ser consequente até ao final.

Tradução de José Paulo Gascão

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos