Mikhail e a Memória

Gustavo Carneiro    16.Jul.21    Outros autores

A memória histórica constitui uma das mais importantes armas na luta dos povos. Daí que a classe dominante tudo faça para a reconfigurar, ou para a tentar obliterar, fazendo um corte entre a memória de cada geração e a das gerações seguintes. Já não são muitos os vivos que sofreram directamente os horrores do nazi-fascismo. Mas a sua experiência pessoal deverá ser viva memória de todos nós, porque não falta que deseje repetir a mesma barbaridade. E que estará tanto mais à vontade quanto a memória colectiva se deixe apagar.

Mikhail Gordon tem 92 anos e é bielorrusso. Era ainda pouco mais que uma criança quando, em Junho de 1941, foi apanhado pela invasão nazi, que lhe mataria quase toda a família e um quarto dos seus compatriotas. Oito décadas volvidas, guarda vivas memórias dos acontecimentos, que terá contado vezes sem conta na sua já longa vida.
Recorda, por exemplo, a chegada à sua cidade, pouco depois daquele fatídico dia 22, de uma unidade alemã, com dois tanques, e o discurso demasiado optimista – talvez até arrogante – do oficial: «em 14 dias estaremos em Moscovo!». Lembra-se também, claramente, do fuzilamento de 21 homens judeus, perto de um pântano, e de como os familiares só foram autorizados a enterrá-los passado uma semana. E não se esquece do choque com que recebeu a notícia da execução de jovens comunistas numa aldeia próxima, nem tão pouco da instalação da Gestapo no edifício onde antes funcionava o comité do Partido na sua cidade, dos «crimes sangrentos» ali cometidos e dos trabalhos forçados.

A prodigiosa memória de Mikhail permite-lhe recordar com precisão aquele 19 de Setembro de 1942, quando fugiu, juntamente com a família e vizinhos, para escapar às execuções em massa (por essa altura, lembra, «os nazis fuzilavam 200 a 300 pessoas de cada vez») e juntar-se à resistência. E como esquecer o 27 de Outubro, quando perdeu o pai, a mãe, o irmão mais novo, a tia e uma das primas (outra, de sete anos, sobreviveu), num cerco do qual ele próprio só por pouco escapou?

Integrado na resistência, lembra-se de fazer de tudo um pouco. Trabalhou no campo, ajudou famílias de soldados que se encontravam na frente, participou em combates, quase morreu: «fui atingido por duas vezes, na perna esquerda e no pescoço.» Do encontro da sua brigada guerrilheira com uma unidade do Exército Vermelho, em Julho de 1944, recorda a felicidade imensa que sentiu: «Durante três anos tínhamos estado sob a ocupação fascista e de repente ali estávamos, com os nossos.» Era ainda menor quando, em Outubro, foi desmobilizado e regressou a casa – se for possível chamar casa a um local onde «não havia familiares e apenas alguns conhecidos sobreviveram».

Para além das suas memórias, partilhadas em vídeo numa sessão promovida há dias pela Associação Iúri Gagárin, Mikhail Gordon deixou ainda um lamento, que é simultaneamente um alerta: «Foi derrotado o fascismo alemão, pensava eu que seria para sempre, mas afinal ainda há pessoas que tentam reacender e desenvolver o neo-fascismo (…). O que me deixa mais inquieto e indignado é que, depois de uma guerra tão sangrenta, ainda há no mundo algumas forças agressivas que continuam a agitar-se.»

Neste combate decisivo, a Memória é uma arma essencial.

Fonte: https://www.avante.pt/pt/2484/opiniao/164672/Mikhail-e-a-Mem%C3%B3ria.htm?tpl=179

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