Morreu Ramsey Clark: um procurador-geral que se voltou contra o imperialismo

Gloria La Riva    22.Abr.21    Outros autores

Homenagear Ramsey Clark será mais do que evocar a figura de um verdadeiro humanista, de um consequente combatente contra o racismo, a guerra e a agressão imperialista, a injustiça social, de um internacionalista lutador pela paz e pelos verdadeiros direitos humanos. Será recordar que toda essa coerente e admirável actividade de uma vida inteira foi exercida num país – o seu – onde lutar por tais ideias e causas exige excepcional coragem e força de carácter. Os EUA são uma sociedade em cujas contradições internas existe o pior do capitalismo, mas onde também existiram e existem figuras merecedoras de toda a admiração. Ramsey Clark será certamente um dos mais destacados.

A ANSWER Coalition lamenta a perda de Ramsey Clark, que morreu a 9 de Abril com 93 anos de idade em. Ramsey era um dedicado lutador contra a guerra e o racismo e pela paz e a justiça. Ramsey desempenhou um papel fundamental na formação da Coligação ANSWER nos dias que se seguiram aos ataques de 11 de Setembro. O obituário a seguir foi escrito por Gloria La Riva, uma das principais organizadoras da ANSWER.

Ramsey Clark, ex-Procurador-Geral dos EUA e defensor dos direitos humanos de renome internacional que se levantou contra as agressões militares dos EUA por todo o mundo, morreu pacificamente em 9 de Abril na sua casa da cidade de Nova York, rodeado por parentes próximos. Tinha 93 anos.

Como pré-adolescente crescida em Albuquerque, certamente que sabia o seu nome e que era procurador-geral. Não podia então imaginar que nos tornaríamos amigos, que teria a honra de trabalhar com ele e de tomar conhecimento do grande humanitário que Ramsey Clark era.

Como procurador assistente e posteriormente como procurador-geral dos EUA, Ramsey Clark contribuiu para a redacção dos dois históricos Actos de Direitos Civis dos EUA de 1964 e 1968, o Voting Rights Act de 1965, e foi o principal defensor da aplicação das ordens federais sobre dessegregação. Acompanhando pessoalmente Martin Luther King Jr. e James Meredith face do terror racista do Alabama ao Mississippi, Ramsey era um adversário fervoroso do racismo. No Departamento de Justiça, confrontou frequentemente políticas repressivas oriundas do próprio governo, do Congresso ao FBI e a J. Edgar Hoover.

Uma vez fora do governo, Ramsey assumiu directamente a questão da política externa dos EUA, viajando a dezenas de países para se encontrar com as pessoas que eram vítimas da guerra e de sanções. Fosse desafiando as bombas dos EUA no Vietname do Norte em 1972 ou contando os corpos nos necrotérios do Panamá e no bairro bombardeado de El Chorrillo para calcular o verdadeiro número de vítimas na invasão dos EUA em 1989, Ramsey arriscou inúmeras vezes a vida para repor a verdade das agressões dos EUA.

Numa iniciativa célebre, viajou 2.000 milhas através do Iraque por entre intenso bombardeamento durante a Guerra do Golfo dos EUA em 1991 para trazer o único filme não censurado da guerra. E durante 12 anos, até a guerra e ocupação dos EUA em 2003, Ramsey encabeçou uma campanha internacional contra o bloqueio total dos EUA ao Iraque - sanções mais mortíferas do que uma guerra de bombardeamentos.

Em todos os continentes, Ramsey Clark defendeu povos e países contra a injustiça e a pobreza. Encarou a guerra e as sanções dos EUA como a maior ameaça contra a humanidade.

Descreveu o governo e o sistema dos EUA como uma “plutocracia” e denunciou a crescente injustiça e repressão nos Estados Unidos. Na década de 1960, Ramsey apelou à “abolição do sistema prisional dos EUA tal como o conhecemos”, anos antes de isso se tornar um slogan de mobilização no movimento actual. Opunha-se fortemente à pena de morte.

A marca registada da acção de Ramsey Clark era sua crença inabalável de que os direitos humanos significavam o direito à paz, à igualdade e à justiça social e económica. Fez mais do que defendê-lo, agiu de acordo com as suas convicções.

Nascido William Ramsey Clark em 18 de Dezembro de 1927, o seu pai Tom C. Clark foi Procurador-Geral dos Estados Unidos de 1945 a 1949 e juiz da Supremo Tribunal de 1949 a 1967. A sua mãe, Mary, foi a cuidadora principal de Ramsey, Tom Jr. e irmã Mimi . O seu irmão morreu de pneumonia aos seis anos, quando Ramsey tinha quatro. Ramsey passou sua infância em Dallas até o seu pai assumir um cargo no Departamento de Justiça em Washington, DC, em 1937. Embora tivesse aos 13 anos tentado ingressar na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, foi finalmente aceite aos 17 no último ano de o conflito.
Começando como advogado liberal, cedo iniciou a sua carreira no Departamento de Justiça, que durou de 1961 a 1969.

Um firme defensor dos direitos civis e opositor do racismo

Em 1961, Ramsey Clark tornou-se Procurador-Geral Assistente na administração Kennedy para a divisão de Terras do Departamento de Justiça. Ainda assim, seu trabalho principal foi na defesa dos direitos civis contra o apartheid “Jim Crow” no Sul e a violência de turbas e governos racistas. Foi o principal executor local da decisão de 1954do Supremo Tribunal dos EUA, Brown v. Board of Education, contra os estados da Geórgia, Carolina do Sul e Alabama. Estavam a protelar ou a recusar-se a acabar com a segregação nas escolas públicas oito anos passados a ordem judicial. Ramsey trabalhou directamente ali em 1962 e 1963 para fazer a supervisão da implementação da decisão.

Em 1965, o presidente Lyndon Johnson nomeou Ramsey Procurador-Geral Adjunto. Quando pessoas negras empreenderam a marcha pelo direito de voto de Selma a Montgomery, Alabama, foram brutalmente atacados por tropas estaduais em 7 e 9 de Março e depararam-se com o terror do KKK e do White Citizens Council. Quando milhares de pessoas se reuniam para uma terceira acção pacífica que começou em 21 de Março, Ramsey foi enviado para tentar garantir a protecção dos manifestantes, com a presença da Guarda Nacional do Alabama sob delegação federal.

Em Junho de 1964, três activistas dos direitos civis - James Chaney, negro do Mississippi de 20 anos, e os jovens brancos Andrew Goodman e Michael Schwerner - foram presos em Filadélfia, Mississippi, pelo xerife Cecil Price, membro dos Cavaleiros Brancos do KKK. Libertou-os após convocar mais membros do Klan, e juntos torturaram e assassinaram os três jovens. Os seus corpos foram encontrados em Agosto. O chocante episódio causou repulsa nacional e foi um dos catalisadores dos Actos pelos Direitos Civis.

Ramsey Clark visitou a família de Chaney na sua casa para lhes dizer que os corpos de James, Andrew e Michael tinham sido encontrados. O jovem Ben tinha apenas 12 anos. Quando soube que o seu irmão estava morto, disse a Ramsey: “Acho que o melhor é tornar-me presidente para mudar tudo isto”. Ben e a sua família mudaram-se para Nova York para escapar a ameaças de morte. Como activista da Black Liberation com apenas 17 anos, Ben Chaney foi metido na prisão com três penas de prisão perpétua na Flórida, apesar de não estar envolvido no crime pelo qual foi condenado. Ramsey nunca esqueceu Ben e o trauma que este sofreu ao perder o seu irmão. Apresentou com sucesso uma petição ao conselho de liberdade condicional da Flórida para a libertação de Ben, e ele foi libertado após 13 anos. Posteriormente, trabalhou durante anos como escriturário no escritório de advocacia de Ramsey.

Ramsey Clark era um homem de princípios que sustentava a sua opinião de que o maior perigo não eram os activistas anti-guerra ou anti-racismo, mas as injustiças contra as quais protestavam. Recusou autorizar a escuta telefônica do líder negro do movimento de libertação, Stokely Carmichael (mais tarde Kwame Toure), apesar da insistência repetida de J. Edgar Hoover e do vice-presidente Hubert Humphrey. Ramsey recusou a reivindicação por parte de políticos de processar Stokely Carmichael por “ajudar e encorajar a fuga ao recrutamento durante a guerra do Vietname”.

Depois de Ramsey ser substituído como Procurador-Geral com a eleição de Richard Nixon, escreveu um livro seminal, “Crime na América: Observações sobre sua natureza, causas, prevenção e controlo”, focando-se nas causas reais do crime, da pobreza e da desigualdade racial. Criticou abertamente o arquirracista director do FBI no livro: “O sr. Hoover solicitou-me repetidamente que autorizasse escutas telefónicas do FBI ao Dr. King quando eu era P.G. O último desses pedidos, nenhum dos quais foi concedido, veio dois dias antes do assassínio do Dr. King. ”

Mike Wallace, destacado jornalista da CBS, comentou num programa de TV nacional sobre as táticas de chantagem de J. Edgar Hoover para intimidar os seus opositores,: “Havia apenas um homem que não tinha medo de enfrentar Hoover: Ramsey Clark.”

Um empenhado internacionalista

Com o seu regresso à prática privada em 1969, Ramsey tornou um dos principais defensores das vítimas da política externa dos EUA. Viajaria a mais de 120 países para expressar solidariedade aos povos oprimidos, da Palestina à Índia e à África do Sul. Era um opositor permanente de todos os bombardeamentos, sanções e ocupações dos EUA e procurava mobilizar contra eles o povo dos Estados Unidos e do mundo.

Os crimes de guerra que ele expôs nas suas corajosas reportagens em primeira mão fizeram frequentemente dele a única fonte de verdade para contrariar as mentiras da maciça propaganda de guerra dos EUA que precedia as bombas. Tanto o establishment liberal como o neoconservador - frequentemente apoiando em conjunto cada nova aventura militar dos EUA - muitas vezes o faziam objecto de ridículas campanhas de difamação por parte do “grupo de estenógrafos do Pentágono”.

Mas Ramsey Clark nunca foi dissuadido nem desanimado, nunca temeu os críticos nos media e no governo, nunca atendeu a pressões políticas. Isso foi verdade quando visitou o Vietname do Norte em 1972.

Convidado pela Comissão Internacional de Inquérito sobre os Crimes de Guerra dos Estados Unidos na Indochina para se juntar a uma delegação investigativa ao Vietname em 1972, Ramsey aceitou. Visitou e entrevistou soldados americanos que eram prisioneiros de guerra e percorreu os diques e eclusas no Norte que estavam a ser fortemente bombardeadas. Os B-52s americanos lançavam bombas e matavam civis, atingindo a sua fonte de água para destruir os meios de sobrevivência das pessoas numa população principalmente rural.

Quando voltou a São Francisco e deu uma conferência de imprensa em 14 de Agosto, Ramsey Clark afirmou que os prisioneiros eram bem tratados. “Já vi muitas prisões na minha vida”, disse, segundo o The New York Times. “Esses 10 homens foram inquestionavelmente tratados com humanidade, bem tratados. Os seus quartos individuais eram melhores e maiores do que os quartos em praticamente todas as prisões que já visitei em qualquer lugar.”

Quando questionado sobre se pensava que o bombardeamento de alvos civis pelos EUA era deliberado, respondeu: “Estamos a devastar aquela pobre terra. Estamos a atingir hospitais. Eu não posso dizer-vos se é deliberado. Mas para as pessoas que estão a ser atingidas, isso não faz muita diferença, pois não?” Mais de 3.000.000 vietnamitas e 57.000 soldados norte-americanos morreram no decurso da guerra.

Opondo-se a sanções mortíferas

Quando a guerra acabou com a unificação do Vietname e a vitória total em 1975, Clark fez o que nenhuma outra voz importante contra a guerra fez. Para ele, a guerra contra o Vietname não tinha acabado porque as sanções económicas dos EUA estavam deliberadamente a punir o país e a negando a sua capacidade de recuperar da devastação, causando a morte de mais milhares. As sanções foram finalmente terminadas em 1994, 19 anos mais tarde.

Poucos dias após a invasão do Kuwait pelo Iraque em Agosto de 1990, os Estados Unidos levaram os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU a impor “sanções”. Muitos no movimento da paz nos EUA avançaram com o slogan “Sanções, Não Guerra”, aquiescendo à primeira etapa da guerra inevitável. Ramsey e a coligação anti-imperialista que ajudava a liderar denunciaram as sanções como um meio de guerra, sabendo que um bloqueio naval imposto pelos EUA fora calculado para primeiro matar o povo à fome e depois bombardear se a fome não funcionasse.

A Coligação Nacional para Deter a Intervenção dos EUA no Médio Oriente foi encabeçada por Ramsey e por organizadores anti-guerra. Poucas semanas após o início do bombardeamento em 16 de Janeiro de 1991, Ramsey Clark liderou uma equipa de um tradutor, o motorista e o cineasta Jon Alpert. Sem electricidade ou gasolina no país e bombas a cair dia e noite, viajou 2.000 milhas por todo o Iraque.

Ramsey estava determinado a mostrar que o mito dos “danos colaterais” do Pentágono, da suposta perda mínima de vidas, era uma mentira absoluta destinada a suavizar o sentimento anti-guerra na população. O filme de Jon Alpert, “Nowhere to Hide”, foi a única filmagem não censurada do bombardeamento de 43 dias.

Quando Ramsey veio a São Francisco logo após o seu regresso do Iraque no início de Fevereiro de 1991, falou a uma audiência lotada de 1.200 pessoas na Terceira Igreja Baptista, no coração da comunidade negra. “Nowhere To Hide” foi uma revelação chocante, com o vídeo a mostrar Ramsey deslocando-se por aldeias e hospitais bombardeados. A única fábrica de leite em pó para bebés foi destruída pelas bombas dos EUA. Toda a infraestrutura do Iraque - estações de tratamento de água e esgoto, rede eléctrica, aves e gado - tudo desapareceu 24 horas após o bombardeamento em tapete.

Até que o filme fosse exibido nos Estados Unidos e em todo o mundo, todos os principais meios de comunicação repetiam as mentiras do Pentágono sobre “danos colaterais”, como se as vítimas civis fossem um infeliz acidente.
Esta é a mentira fabricada que o público ouve sobre todas as guerras e bloqueios dos EUA, enquanto milhões de pessoas enfrentam severas privações e fome em países bloqueados por Washington. Muitas vezes disse às pessoas nos últimos anos que, se Ramsey estivesse fisicamente em condições, estaria com o povo do Iêmen, usando a sua fama internacional para lançar luz sobre o genocídio cometido pela Arábia Saudita, totalmente apoiado pelo imperialismo dos EUA.

O livro de Ramsey sobre a Guerra do Golfo, “The Fire This Time”, detalha a destruição da infraestrutura civil do Iraque, a morte de 250.000 pessoas pelas bombas.

Quando as tropas dos EUA voltaram a casa, os 12 anos seguintes de bloqueio total dos EUA - as eufemísticas “sanções” que alguns liberais aplaudiram - continuaram. O bloqueio matou mais de 1,5 milhões de iraquianos, até a invasão e ocupação de 2003.

Ramsey apresentou anualmente às Nações Unidas as suas conclusões sobre os efeitos dessas sanções assassinas. Deslocou-se vezes sucessivas ao Iraque. Tive a honra de o acompanhar e a uma delegação de 84 outros organizadores, advogados, médicos e sindicalistas em Maio de 1998. Passamos pelo horror de hospital após hospital onde não existiam medicamentos ou equipamentos de trabalho porque as sanções dos EUA/ONU proibiam até mesmo a entrada de aspirina A situação era horrível - bebês a morrer de infecções tratáveis, idosos e jovens a morrer devido à exposição ao urânio empobrecido das bombas EUA.

O meu filme, “Genocide by Sanctions: The Case of Iraq”, documentando a viagem de Ramsey em 1997 expôs o tema de “sanções, não guerra” pelo que realmente é: uma mentira.

Ramsey era um defensor fervoroso dos direitos do povo palestiniano e uma figura amada em todo o mundo árabe. Era o advogado da Organização para a Libertação da Palestina nos Estados Unidos e em muitas arenas jurídicas internacionais, quando quase ninguém mais nos Estados Unidos estava disposto a apoiar a justa causa do povo palestiniano e árabe. Ramsey cumpriu essa solidariedade com o povo palestiniano e árabe durante as décadas em que o governo israelita e a ridícula afirmação da direita de que fazê-lo era anti-semita talvez ainda mais dominante. Foi um dos críticos mais proeminentes no Ocidente do regime fantoche dos EUA do Xá no Irão.

Cuba era de enorme importância para Ramsey Clark e viajou muitas vezes à ilha. Elogiou as realizações sociais de Cuba e deu seu activo apoio à “Caravana da Amizade” dos Pastores pela Paz quando ela atravessava para o México a caminho de Cuba em 1993. Apelou ao imediato regresso de Elián González, de seis anos de idade. Sobre a injusta detenção dos Cinco Cubanos nos Estados Unidos disse que, se fosse procurador-geral, teria rejeitado as acusações. Pelos seus anos de apoio a Cuba e a sua oposição ao bloqueio genocida dos EUA, recebeu em 2012 a Medalha da Solidariedade, acompanhado pelas mães dos Cinco.

Ramsey fez várias viagens à República Popular Democrática da Coreia ou Coreia do Norte, bem como à Coreia do Sul. Em 2001, foi o orador principal e o principal jurista do Tribunal Internacional sobre Crimes de Guerra dos EUA na Guerra da Coreia. O Tribunal apresentou depoimentos de especialistas e atraiu a participação de pessoas de todo o mundo. A última viagem de Ramsey à Coreia do Norte foi em Julho de 2013 para marcar o 60º aniversário do Acordo de Armistício, que encerrou as hostilidades militares na Coreia em 1953. Enquanto em Pyongyang e em viagens subsequentes a Seul e Tóquio, Ramsey falou eloquentemente sobre a necessidade de encerrar as sanções contra Coreia do Norte e exigiu que os Estados Unidos assinassem um tratado de paz com a Coreia do Norte para acabar de uma vez por todas com a Guerra da Coreia.

Não havia uma luta ou causa pela justiça social que Ramsey não apoiasse.

Qualquer pessoa que tivesse a oportunidade de passar algumas horas com ele, aprenderia uma memorável lição de história das suas experiências. Certa vez, levei-o de carro à Califórnia para um compromisso universitário, numa deslocação de três horas à ida e à volta. Ramsey contou-me toda a história da vida de Ruchell Magee, a quem ele tentou libertar em apelações, e da crueldade absoluta a que foi submetido pelo sistema de “justiça”.

Acreditava firmemente nos direitos soberanos dos povos nativos e foi fundamental para resolver importantes reivindicações de terras que não eram atendidas há 50 anos.

No 1º de Janeiro de 1994, quando a rebelião zapatista se levantou em Chiapas, México, Ramsey, fiel a si mesmo, sabia que tinha que lá estar para investigar e manifestar o seu apoio. Tive a sorte de fazer parte daquela pequena equipa com Brian Becker e outros, uma semana após o levantamento. A ação heroica do povo indígena maia foi motivada pelo acordo de livre comércio NAFTA, assinado pelos presidentes Bill Clinton e Carlos Salinas. Os zapatistas sabiam que o NAFTA destruiria os seus meios de subsistência inundando o México com produtos americanos, como o milho.

O medo da repressão por parte do exército mexicano era palpável. A imprensa mexicana e internacional e os liberais simpatizantes da situação dos povos indígenas estavam, todavia, relutantes em dar crédito à luta armada. Na conclusão de nossa visita, Ramsey declarou a centenas de jornalistas numa conferência de imprensa num hotel em San Cristobal de las Casas que a sua luta armada - “o tiro ouvido em todo o mundo”, como lhe chamou - era totalmente justificada.
Ramsey foi advogado de apelação do prisioneiro político nativo Leonard Peltier, que ainda hoje está na prisão federal dos Estados Unidos 45 anos depois de ser atacado pelo FBI. Numa manifestação massiva de quase 1.000 pessoas por Leonard em San Francisco a 16 de Novembro de 1997, Ramsey disse a uma multidão entusiasmada: “Toda a gente sabe, e acima de tudo os promotores e o FBI sabem, que Leonard Peltier é inocente do crime pelo qual foi condenado. … É essencial que libertemos Leonard Peltier e, ao fazê-lo, reconheçamos os indígenas e Nativos como os primeiros, os primeiros, os primeiros entre iguais. Até que Leonard esteja livre, todos estamos em risco. Ele representa se o povo americano tem a vontade de enfrentar os poderosos interesses económicos que controlam os media e o complexo militar-industrial, que estão devastando os pobres em todo o planeta. Se temos a vontade de nos levantar e deter o governo americano no trilho que leva, antes que seja demasiado tarde.”

Cedo na manhã seguinte, Ramsey voou de São Francisco para a Jugoslávia para manifestar apoio àquele país sitiado. A Jugoslávia era naquele momento o único governo socialista na Europa que não havia sido derrubado pelas contra-revoluções capitalistas que varreram a região entre 1988-91. Mas os Estados Unidos estavam determinados a destruir o governo e dois anos depois fizeram-no. Em Março de 1999, a campanha de bombardeamento de 73 dias dos EUA / NATO começou sob o pretexto de defender um povo de minoria muçulmana na província sérvia de Kosovo.

A demonização nos media corporativos do líder da Iugoslávia, Milosevic, pelo imperialismo dos EUA neutralizou efectivamente muitas das organizações de paz tradicionais dos EUA. Mas milhares de pessoas da ala anti-imperialista do movimento anti-guerra dos EUA saíram à rua. Em breve todo o povo da Jugoslávia se tornou alvo da NATO. A NATO, sob a liderança do Pentágono e da administração Clinton, lançou 28.000 bombas e mísseis sobre este pequeno país da Europa central. Muitos liberais, a até mesmo alguns activistas progressistas bem conhecidos, lamentaram a defesa activa da Jugoslávia por parte de Ramsey. Só viram o que a CNN, a NBC e o The New York Times queriam que vissem - Milosevic como único ocupante da Jugoslávia.

Mas Ramsey, guiado pela sua bússola moral, viu para além da máquina de propaganda do Pentágono. Logo que as bombas começaram a cair, em 24 de Março de 1999, tive o privilégio de voar com ele uma vez mais, desta vez para a Hungria. No quinto dia de guerra fomos conduzidos para Belgrado, Jugoslávia, para documentar os efeitos devastadores sobre a população civil.

Tornou-se o meu documentário, “NATO Targets Yugoslavia”. Literalmente, todos os dias da guerra, a CNN relatava que o bombardeamento do dia anterior fora “o mais pesado bombardeamento já feito pelas forças da NATO”. Ramsey voou para lá no 55º dia da guerra. Acompanhei-o novamente.

Um episódio especialmente dramático com Ramsey ocorreu quando a contra-revolução ocorre na Iugoslávia no final de Junho de 2001. Milosevic foi deposto numa “revolução colorida” engenhada pela CIA. O novo governo golpista rapidamente começou a prender socialistas jugoslavos e outros patriotas que lideraram a resistência ao bombardeamento da NATO em 1999.

Ramsey decidiu que queria imediatamente voar para lá. Por essa altura, a embaixada da Jugoslávia em Washington, D.C., havia mudado para a direita e recusou-lhe o visto. Isso não deteve Ramsey. Ligou-me para São Francisco e disse: “Tome o próximo avião para o aeroporto JFK. Eu posso ir ter consigo ao aeroporto. ”Quando cheguei, corremos pelo terminal o mais rapidamente que podíamos. O acesso ao avião estava a fechar, pronto para a descolagem.
Quando finalmente chegamos a Belgrado, ficamos na fila da imigração e, ao aproximarmo-nos da janela, o pessoal fechou-a. Virem ter connosco funcionários e disseram: “Têm que deixar o país, não podem ficar. Voltem já para o avião.” Ramsey disse: “Eu sou Ramsey Clark e …” ao que eles responderam: “Nós sabemos quem é, meta-se no avião.” Dissemos: “Não, precisamos fazer um telefonema aos nossos anfitriões que estão à espera no exterior”. Os nossos amigos do Partido Socialista estavam à espera para nos transportar.

Esse avião descolou. Outro avião parou na pista, de regresso a Paris. Mais uma vez, os funcionários insistiram: “Entrem já neste avião!” Nós recusamos. Depois aquele avião descolou também. Quanto tempo poderíamos continuar, não sabíamos.

Então, dois policias, uma mulher e um homem, vieram até nós. A jovem disse: “Por favor, dêem-me os vossos passaportes”. O homem disse-me: “Siga-me”. Levou até o terminal do aeroporto, dirigiu-me a um quiosque e disse: “Pode fazer o seu telefonema”. Quando voltei para junto de Ramsey, a mulher polícia entregou-nos os nossos passaportes, completos com visto. Emocionada, disse a Ramsey: “Nunca esqueceremos o que fez pelo nosso povo, apoiando-nos durante a guerra. O meu irmão estava no exército e foi ferido em combate.”

Fez uma pausa e disse com alegria: “Vejo-o hoje à noite no comício!”

Quando chegamos à manifestação massiva que protestava contra a prisão ilegal e sequestro de Milosevic em Haia sob acusações forjadas pelo tribunal imperialista, a multidão aplaudiu Ramsey. Viam nele um verdadeiro amigo. Foi uma aventura especial, do género das que só poderiam acontecer num filme.

Um humanitário amado em todo o mundo

Em Janeiro de 2004, Ramsey Clark e eu estivemos no Fórum Social Mundial em Mumbai, Índia. Eu estava lá para a luta pela liberdade dos Cinco Cubanos. Evidentemente, Ramsey também falou em seu nome, e também sobre outros temas, nos dias que lá passámos. No final de uma das suas apresentações, entra Winnie Mandela. Fiquei assombrada com a presença dessa líder revolucionária mulher. Em voz alta, disse enquanto se aproximava para abraçar Ramsey: “Quando soube que Ramsey Clark estava aqui, tinha que vir vê-lo”. Tiveram um encontro caloroso e feliz.

Mais tarde naquele dia, comentou comigo: “Ela sofreu tanto quanto Nelson Mandela, se se pensar bem na questão. Sofreu prisão, abuso policial, banimento, isolamento dos seus filhos e marido.” Disse-me que fora uma vez à África do Sul para a visitar. Banida, ela nem podia abrir a porta para o deixar entrar e não podia sair de casa. E só porque Ramsey colocou a mão na porta como “aperto de mão”, para tocar a mão dela através da rede, ela foi forçada a um banimento ainda mais isolado.

Ramsey era conhecido e amado mundialmente por milhões de pessoas que defendeu.

Testemunhei tantas dessas expressões de admiração e amor pelas missões internacionalistas de Ramsey que é impossível relatá-las todas aqui. A vida jurídica e política de Ramsey Clark encheu livros e arquivos de bibliotecas. Tanto mais poderia ser dito.

Uma história especial da sua vida é contada no documentário premiado produzido pelo famoso cineasta Joe Stillman, “Citizen Clark: A Life of Principle”. Diz Joe: “Quando soube os detalhes da sua vida, soube que precisava de contar a sua história. Tinha uma escolha: ou comprar uma casa ou investir o meu dinheiro num filme sobre Ramsey. Estou feliz por ter documentado a sua vida. Fá-lo-ia de novo num piscar de olhos.”

Na Jugoslávia, na primeira viagem de Ramsey durante a guerra em Março de 1999, estava a filmá-lo enquanto falava a um lotado auditório de académicos, juristas e advogados. Mencionou que era 50º aniversário do casamento com a sua esposa Georgia, e falou com muito amor e carinho sobre ela. Disse que ela apoiava a sua ausência no aniversário como necessária para defender aqueles que precisavam de defesa. Georgia partilhava a sua convicção na justiça social e trabalhou durante anos nos seus escritórios de advocacia, enquanto criavam dois filhos, Tom e Ronda. Viajavam também frequentemente em família.

Infelizmente, Geórgia morreu em 2010. Tom, um advogado ambiental do Departamento de Justiça, morreu em 2013 de cancro, aos 59 anos. Ronda é surda, tem deficiência de desenvolvimento e viveu em casa toda a sua vida. Tem estado em transição para uma escola especial na cidade de Nova York, em antecipação do falecimento de Ramsey. Ramsey Clark criou-a sozinho depois da morte de Georgia. Adorava Ronda e gostava de dizer: “É a dona da casa.” Os seus familiares sobreviventes são a irmã Mimi Clark Gronlund, a cunhada Cheryl Kessler Clark, as três netas Whitney, Taylor e Paige Clark e outros parentes.

É rara uma pessoa como Ramsey Clark, intransigente defensor dos verdadeiros direitos humanos e dotado da coragem de defender essas convicções. Fará muita falta, entre nós e em todo o mundo.

Fonte: https://www.answercoalition.org/ramsey_clark_dies_an_attorney_general_who_turned_against_imperialism

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos