Myanmar: os Rohingya e os militantes apoiados pelos sauditas

Tony Cartalucci    19.Dic.17    Outros autores

A prolongada crise em Myanmar e a questão da minoria Rohingya requerem mais informação do que a que os grandes media ocidentais proporcionam. E, provavelmente, o essencial do que está em causa será, mais uma vez, o dedo imperialista a gerar uma situação violenta e imprevisível num país dirigido nominalmente por Aung San Kyi – uma personalidade criada pelos interesses ocidentais. Situação que inquine as suas relações com a China e dê oportunidade à instalação de tropas EUA na fronteira comum.

A interminável crise no Sudeste da Ásia no estado de Myanmar confundiu muitos analistas geopolíticos devido à sua história complexa e à cobertura intencionalmente enganadora e agora contraditória apresentada pelos media ocidentais.
O actual governo de Myanmar dirigido por Aung San Suu Kyl e a sua liga nacional para a democracia (NLD) subiu ao poder após longas décadas de luta contra os governos militares da nação.
Aung San Suu Kyi é uma criação e uma delegada dos interesses norte-americanos e europeus. Suu Kyi e a sua Liga Nacional para a Democracia recebem dezenas de milhões de dólares em auxílio dos Estados Unidos, Inglaterra e Europa. Redes inteiras de frentes apresentadas como organizações não-governamentais (ONG’s) foram criadas para minar e derrotar as verdadeiras instituições de Myanmar.
O total desse apoio e fundos está coberto por muitas das organizações ocidentais, incluindo a campanha de Burma do Reino Unido, que no seu relatório de 36 páginas de 2006 Falhando o apoio ao povo de Burma? detalha extensivamente como eles e as suas homólogas americanas criaram o actual impressionante domínio de Myanmar por Suu Kyi.
O relatório afirma explicitamente: o National Endowment for Democracy (NED apendix 1, pagina 27) está desde 1996 à cabeça do nosso programa de esforços para promover e aumentar os direitos humanos em Burma . Conseguimos em 2003 $2.500.000 de fundos da marca Burma na legislação de Operações Externas. O NED utilizará estes fundos para apoiar organizações de promoção da democracia de birmaneses e minorias étnicas através de um programa oculto. Os projectos são concebidos para disseminar informação que apoie um desenvolvimento democrático dentro de Burma, para criar infra-estruturas democráticas e instituições, para melhorar a informação sobre as violações dos direitos humanos pelos militares birmaneses e para criar capacidades de apoio para restaurar a democracia quando acontecerem aberturas politicas apropriadas e os exilados/refugiados voltarem. Afirma também: tanto a Voz da América (VOA) como a Rádio Ásia Livre (RFA) têm serviços para a Birmânia. A VOA irradia três vezes ao dia 30 minutos de uma mistura de notícias internacionais e informação. A RFA irradia notícias e informação sobre Burma duas horas por dia. VOA e os websites da RFA contêm também material em texto e áudio em Birmanês e inglês. Por exemplo, a VOA a 10 de Outubro de 2003, num editorial «Soltem Aung San Suu Kyi», destina-se essencialmente à secção birmanesa da VOA news.com. Os websites da VOA disponibilizam versões áudio de 16 discursos de Aung San Suu Kyi de 27 e 29 de 2003. A difusão americana internacional dá informações cruciais a uma população a quem são negados pelo seu governo os benefícios da liberdade de informação.
No que respeita à doutrinação e educação de futuros líderes por este bloco delegado político ocidental afirma-se: o Departamento de Estado deu US $150 000 em 2001/2 em fundos para conceder bolsas a jovens birmaneses através do Prospect Burma, uma organização partilhada com grandes ligações a Aung San Suu Kyi. Com fundos FY 2003/4 pensamos apoiar o trabalho do Prospect Burma, dada a comprovada competência da organização na administração de bolsas para indivíduos que não tiveram oportunidades de educação pela repressão continuada da junta militar, mas com o compromisso do regresso da democracia à Birmânia.

No que toca à Open Society e ao seu papel de interferência na política interna de Myanmar, o relatório acrescenta: A nossa assistência ao Open Society Institute (OSI) (até 2004) prevê apoio parcial para um programa que garanta bolsas a estudantes refugiados que fugiram, de Burma e desejem continuar os seus estudos e graduar-se ou fazer a pós-graduação. Os estudantes normalmente querem graus em ciências sociais. É dada prioridade a estudantes que expressem a vontade em voltar a Burma ou trabalhar nas suas comunidades de refugiados para a democracia e reforma económica do país.

O relatório, escrito em 2006 quando outro delegado norte-americano — Thaksin Shinawatra — presidia na Tailândia como primeiro-ministro até à sua saída nesse ano, detalharia o papel que a Tailândia desempenhava na época para minar e derrubar a ordem politica de Myanmar.
No ano passado o governo norte-americano começou a difundir um novo programa da Organização Internacional de Migração (IOM) para prestar serviços básicos de saúde aos migrantes birmaneses fora dos campos de refugiados oficiais, em cooperação com o ministro Thai da Saúde Publica. Este projecto tem sido apoiado pelo governo Thai e recebeu cobertura favorável na imprensa local. Esforços como este que procuram modos positivos de trabalhar com o governo Thai em áreas de interesse comum ajudam a criar apoio para os programas americanos que apoiam os grupos birmaneses pró-democracia.
O actual ministro da informação Pe Myint — por exemplo — estudou na NED e na sociedade aberta Indochina Memorial Fundação em Bangkok.

Um telegrama diplomático americano revelado pela Wikileaks mostrou como esse treino foi essencial para criar o estado-cliente dos Estados Unidos que agora governa Myanmar.

Intitulado «Um estudo das organizações de media birmanesas instaladas no norte da Tailândia», o telegrama de 2007 revela: outras organizações, algumas ultrapassando a Birmânia, também acrescentam oportunidades educacionais para jornalistas birmaneses. Por exemplo, a Fundação do Memorial da Media da Indochina, sediada em Mai Chiang, completou no ano passado cursos de treino para repórteres do Sudeste da Ásia, que incluíam participantes birmaneses. Maiores financiadores para programas de treino jornalístico na região incluem o NED, o Open Society Institute (OSI) e vários governos europeus e associações de caridade.

Alguns programas de treino activo atraem a Chuian Mai exilados e os que vêm do interior da Birmânia para cursos de jornalismo que vão de uma semana a um ano. Estes programas de treino identificam futuros jornalistas que estão activos em comunidades dentro de Burma, assim como as ONG’S na Tailândia, e ajudam-nos a garantir posições noticiosas junto dos media birmaneses na região. Os programas de treino ajudam a garantir que as futuras gerações seguirão os fundadores das organizações actuais.

O telegrama também liga os Estados Unidos à muito previsível atitude pró-americana adoptada pelos que recebem os benefícios desses fundos. Segundo diplomatas americanos que se relacionam com os media estrangeiros, a comunidade de jornalistas permanece muito pró-americana. Grupos como DVB e Irrawaddy procuram continuamente mais informação junto dos funcionários americanos e utilizam frequentemente entrevistas, serviços de imprensa e áudio publicados pelos americanos. Uma entrevista com um diplomata americano é importante, capaz de gerar uma saudável competição entre agências noticiosas rivais. Uma entrevista com Eric John da Irrawaddy multiplicou-se em 2006 em inúmeros artigos e circulou largamente na comunidade de exilados e imprensa importante.

A USG desempenha um papel importante. Suu Kyi e os que ocupam posições determinantes dentro do seu governo são sem dúvida produto de décadas de apoio e treino americano e europeu.

A Arábia Saudita apoia os militantes Rohingya. Nos media alternativos está a tomar forma uma ideia infeliz, apresentando a minoria Rohingya de Myanmar como a jihad islamita. Essa minoria representa tanto todos os Rohingya como o o ISIS representa todos os sunitas.
Na verdade a minoria Rohingya de Myanmar vive em Myanmar há gerações. Até há pouco, viveram no país em harmonia com os seus vizinhos de maioria budista, incluindo o estado de Rakhine.

Muitos dos pontos que estão a ser agora adoptados contra os Rohinga são praticamente copiados e decalcados dos grupos extremistas de Myanmar, apoiados pelos Estados Unidos. Queixas de que o décimo Rohinga é ilusão, que os Rohyinga são na realidade bengalis ilegais que devem ser expulsos à força de Myanmar, têm sido os pontos-chave dos violentos «monges de açafrão» há longos anos apoiantes de Suu Kyi.
Os cada vez mais violentos apoiantes de Aung San Suu Kyi — muitos deles estavam presentes durante a «Revolução de Açafrão» — de 2007 — são os principais agitadores da crise Rohingya. Enquanto os media ocidentais tentam apresentar os militares como os incitadores da violência, são muitas vezes os militares que intervêm para separar extremistas atacantes das aldeias Rohingya dos campos de refugiados que procuram destruir e queimar.
Foi o governo dirigido pelos militares que tentou avançar com o processo de dar cidadania aos Rohingya, processo a que os apoiantes de Suu Kyi e o seu partido politico se opõem veementemente e que acabou quando Suu Kyi chegou ao poder.
Recentemente os media ocidentais verificaram a emergência dos alegados militantes dos Rohingya que alegadamente levaram a cabo uma série de ataques em larga escala a unidades militares e policiais no estado de Rakhine.

Claro que não existe qualquer grupo militante sem substancial apoio político, financeiro e material. E tal como outros conflitos convenientemente políticos surgiram na Líbia, na Síria, no Iémen e nas Filipinas, a mão dos norte-americanos/sauditas é evidente nos últimos episódios violentos em Myanmar.

É uma mistura de gasolina e fogo — ferramentas de um único incendiário colocadas intencionalmente para criar uma conflagração geopolítica adequada.
O Wall Street Journal num artigo recente intitulado O novo ataque da Birmânia aos muçulmanos Rohingya gera a violência, declara: Agora esta política imoral criou uma reacção violenta. As últimas notícias da reacção muçulmana demonstram o apoio dos sauditas aos militantes dos Rohingya contra os birmaneses. Enquanto as tropas governamentais se vingam nos civis, arriscam-se a levar mais Rohingyas a juntar-se à luta.

O artigo afirma também: o chamado «Grupo da Fé» responde perante uma comissão de emigrados Rohingya em Meca num quadro de comandos locais com experiência em luta de guerrilhas no exterior. A sua campanha recente — que continuou em Novembro com ataques e raides que mataram muitos agentes de segurança — foi ordenada por fatwas de clérigos na Arábia Saudita, Paquistão, Emirados e outros.

Os Rohingya nunca foram uma população radicalizada. E a maioria da comunidade, os anciãos e os líderes religiosos apontaram sempre a violência como contraproducente. Mas isso está a mudar rapidamente. Harakah al-Yaqin estabeleceu-se em 2012 após ataques étnicos em Rakhine matarem cerca de 200 Rohingya e calcula-se que existam agora centenas de combatentes treinados.
Enquanto muitos observadores notam que a violência a que os Rohingya têm sido submetidos era destinada a provocar um reacção violenta - pois levantamentos armados não surgem espontaneamente - actos de violência isolados, gangues organizados com capacidades muito limitadas são possíveis, mas a violência que o Wall Street Journal descreve não é uma «reacção negativa» mas sim militância politicamente motivada de fundo estrangeiro a operar sob a cobertura de «reacção negativa».

Aung San Suu Kyl e os militantes «Rohingya»: Gasolina e fogo, não o Bem contra o Mal

O actual regime vassalo que existe em Myanmar — criado e perpetuado pelo apoio dos Estados Unidos - está a colidir com uma militância financiada e organizada pelo maior aliado dos Estados Unidos na Ásia — a Arábia Saudita.
É uma combinação de gasolina e fogo — as ferramentas de um incendiário deliberado criado para provocar uma conflagração geopolítica conveniente — note-se que o estado de Rakhine é o ponto inicial de um dos vários projectos da China — um cinturão, uma estrada que liga Sittwe Port ali localizado para criar uma infra-estrutura que leva de Myanmar à cidade chinesa de Kunming
Este mapa vindo da VOA acompanha artigos do Departamento de Estado que anunciam como a violência está a opor-se ao projecto chinês OBOR.
A violência em Rakhine não só ameaça os interesses da China, como também ajuda a criar um pretexto para o envolvimento directo norte-americano — quer sob a forma de apoio contraterrorista como está a ser oferecido às Filipinas para combater os militantes do estado islâmico apoiados pela Arábia Saudita - quer sob a forma de uma «intervenção humanitária».
Em qualquer dos casos, o resultado será a instalação de grupos militares americanos numa nação directamente nas fronteiras da China — no Sudeste da Ásia, como os fazedores de politica americanos tentam há décadas.

Por exemplo, o Projecto para um novo século americano (PNAC), num artigo de 2000 páginas intitulado Refazer as Defesas da América (PDF) declara abertamente as intenções de estabelecer uma presença militar maior e permanente no Sudeste da Ásia.

O relatório também afirma que: está na hora de aumentar a presença das tropas norte-americanas no sudeste da Ásia, e avança com mais detalhes: no sudeste da Ásia as forças americanas encontram-se dispersas demais para responder adequadamente a necessidades de segurança que surjam. Desde a sua retirada das Filipinas em 1992, os Estados Unidos não tiveram uma presença militar permanente no Sudeste da Ásia. Nem as forças americanas que trabalham no nordeste da Ásia podem operar facilmente ou deslocar-se para o Sudeste da Ásia — e certamente não sem colocar as suas forças na Coreia em risco. Excepto por patrulhas de rotina navais e marines, a segurança desta região de significado estratégico e cada vez mais tumultuada tem sido negligenciada.

Perante a dificuldade de colocar tropas americanas onde não são desejadas, o PNAC afirma: será uma tarefa difícil que pede sensibilidade a sentimentos nacionais diversos, e que se torna cada vez mais competitiva pela emergência de novos governos democráticos na região. Ao garantir a segurança dos nossos aliados habituais e novas nações democráticas no Sudeste da Ásia, os Estados Unidos podem ajudar a garantir que a ascensão da China seja pacífica. Mas, a seu tempo os americanos e seus aliados na região, podem dar um estímulo ao processo de democratização dentro da própria China.

Devemos notar que a referência no artigo à emergência de novos governos democráticos na região é uma referência a estados-clientes criados pelos Estados Unidos em favor dos seus próprios interesses e de modo algum a verdadeiros «governos democráticos» representantes dos interesses dos próprios povos que, em primeiro lugar, possuem «sentimentos nacionais» opostos à presença militar dos Estados Unidos na região.

Em 2000, os Estados Unidos tinham alguns clientes em perspectiva como Aung Suu Kyi em Myanmar, Thaksin Shinawatra na Tailândia, e Anwar Ibrahim na Malásia. Destes só Suu Kyi permanece — enquanto Shinawatra e a irmã fugiram para o estrangeiro e Ibrahim está na prisão.

Conclusões:
É importante que os leitores e analistas entendam os pontos-chave a respeito da crise em Myanmar:
1. Aung San Suu Kyi e o seu partido político são criações dos interesses americanos e europeus.
2. os Rohingya vivem em Myanmar há gerações
3. os militantes Rohingya «apoiados pelos sauditas» representam tanto os Rohingya como o estado islâmico representa os sunitas da Síria e do Iraque.
4. Estes militantes são apoiados e dirigidos a partir da Arábia Saudita e não representam uma «luta» legitimada contra a violência anti Rohingya e
5. os Estados Unidos não procuram uma «mudança de regime» em Myanmar, procuram atacar os interesses chineses, desfazer os laços da China com Myanmar e se possível colocar forças militares norte-americanas nas fronteiras da China.

Quanto mais os analistas se distanciarem destes factos mais se afastam da verdade, pois o conflito de Myanmar continua a desenrolar-se. Leitores e analistas devem desconfiar de histórias baseadas em ideologia retórica ou construída sobre analogia geopolítica em vez da evidência presente sobre finanças, logística e motivações socioeconómicas.
Em Myanmar o movimento de Suu Kyi, a violência anti Rohingya e as alegadas «reacções» vêm todos acompanhados por pegadas estrangeiras muito obvias e significativas. É um testemunho da escala e da complexidade de manipulação que o Ocidente ainda é capaz de empreender, e a forma como os norte-americanos continuam a procurar a hegemonia na região coloca em risco essencialmente a maior parte do povo de Myanmar — os budistas, os Rohingya que desejam viver em paz, e toda a nação.

Tradução: Manuela Antunes

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