Na Grande Guerra Pátria, a música – guerreira da paz


Passou há poucos dias o 75º aniversário da parada que celebrou em Moscovo a vitória soviética na Grande Guerra Pátria. É oportuno recordar o lugar desempenhado pela cultura artística nessa heroica acção colectiva: a música, aqui referida, mas igualmente todas as outras artes. Recordar e homenagear os artistas fisicamente presentes enquanto tal na frente de combate, muitos dos quais aí morreram, como sucedeu com cerca de 400 escritores. Um exemplo para todos os que, nos dias de hoje, se interroguem acerca do lugar da cultura na luta dos povos.

Nas guerras e nas pazes, são as cantigas conforme os guerreiros. Armas também – e não menos importantes do que as feitas de aço – as canções fixam na História os versos e as melodias que sobreviverão ao fragor e ao sofrimento. Ao rumor das cantigas da guerra regressam os combatentes à sensação do cheiro a pólvora e do silêncio nas trincheiras; e os que só viveram o bem da paz percebem-lhes o traço de Humanidade na justa luta contra o ódio. Porque às canções do ódio nem a lembrança lhes vale – a menos que, como em Lili Marleen, tenham a lucidez de trocar de trincheira.

Em 22 de Junho de 1941 a Alemanha nazi invadiu a União Soviética, sem aviso e em força, dando início à Operação Barbarrossa. Logo a 26 de junho, as tropas soviéticas que partiram da Estação Bielorusskaya para a frente de batalha, despediram-se de Moscovo ao som de Svyashennaya Voiná (Guerra Sagrada), de Vasily Lebedev-Kumatch (texto) e Aleksandr Aleksandrov (música). A canção foi ali estreada pelo grupo musical militar que viria a dar origem ao mundialmente famoso Ensemble Aleksandrov. Enquadradas na música de combate, as palavras «ergue-te, País imenso / ergue-te para a batalha mortal» eram, simultaneamente, mobilizadoras e esclarecidas: «que a fúria nobre / ferva como uma onda! / Esta é a guerra do povo, / esta é a guerra sagrada».

A Pátria tem nome de mulher

São as cantigas conforme os guerreiros – ficou ali dito. E se a ofensiva nazi inaugurou um tempo novo para o horror, tão bem retratado em Vem e Vê, de Elem Klimov, a garbosa encenação fascista não prescindiu das marchas guerreiras ao gosto de Goebbels, que eram a banda sonora do triunfo anunciado. Confiança vã. O exército invasor vestido por Hugo Boss confundiu a sua sorte com a dos deuses, mas no campo de batalha encontrou a determinação de Katyusha, levada para a Front (a frente da batalha) nas concertinas dos soldados, canção-metáfora que era saudação e encargo: «que ele [o soldado] recorde a rapariga simples / que ele escute o seu cantar / que proteja a terra-mãe / que Katyusha protege-lhe o amor». Katyusha depressa revelaria aos soldados da Wehrmacht a sua condição mortal e, logo, de derrotados por um nome de mulher que era canção, lança-foguetes (também conhecido como «órgão de Stalin») e guerreira como Katya Pastushenko, artilheira, uma entre as muitas mulheres que levariam o nazi-fascismo à capitulação.

A música rompendo o bloqueio

A 9 de Agosto de 1942, um dos 900 dias do bloqueio nazi a Leningrado, todos os lustres da Sala da Filarmónica foram acesos – a Orquestra da Rádio de Leningrado, dirigida por Karl Eliasberg, iria apresentar a Sinfonia n.º 7 de Dmitri Shostakovitch. Apenas 15 dos músicos da Orquestra chegaram àquele dia, sobreviventes à fome e aos bombardeamentos, pelo que foi necessário chamar aos ensaios músicos militares. O concerto foi um ponto alto da guerra de resistência ao bloqueio: o Exército Vermelho lançou ataques de artilharia destinados a suprimir os pontos de tiro do exército nazi, para que a sala se iluminasse. Viktor Kozlov, clarinetista, recordou mais tarde que «a luminosidade solene da sala entusiasmou todos os presentes – a sala estava a abarrotar. A emoção era tanta, que fez com que os músicos interpretassem aquela obra com a alma».

A sinfonia foi transmitida pela rádio e através dos altifalantes da cidade. Um soldado alemão que ouvia a música no seu posto de sitiador viria a testemunhar que «em 9 de agosto de 1942, percebemos que perderíamos a guerra. Sentimos o poder da música e do povo que a defendia. E que, também com ela, superava a fome, o medo e até a morte».
Svyashennaya Voina, Katyusha, Leningradskaya Simfonya, Tyomnaya Notch, Klyatva Partizan, Frontovaya Doroga, Sinhi Platotchek, V Smelhanke. Músicas como passos entre Moscovo e Berlim, testemunhas de sofrimento e gesta, argumentos de humanidade na guerra contra a Humanidade, arma maior da vitória do Exército Soviético sobre o nazi-fascismo, instrumento agora de luta pela Paz em tempo de ameaça. E toada que há-de acompanhar o drapejar de todas as bandeiras vermelhas que havemos de hastear.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2430, 25.06.2020

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