Na Índia, a maior greve geral do mundo: 180 milhões cruzaram os braços

Vijay Prashad*    03.Oct.16    Outros autores

No dia 2 de Setembro espalhavam-se na Ásia notícias sobre a maior greve geral que já havia ocorrido no continente. Dias depois, os números: 180 milhões de trabalhadores paralisaram os seus trabalhos e cruzaram os braços na Índia. Trata-se da maior paralisação da classe no mundo.

Desde que a Índia adotou a sua nova política econômica em 1991, o país viveu uma onda de greves. Neste mês de setembro, chegou a 17ª greve geral desde então. O diferencial é o número: 180 milhões cruzaram os braços desta vez, fechando as fábricas, o transporte público, universidades, e ocupando as ruas.

Os grandes meios de comunicação do país — que não são favoráveis à greve — informaram que o número de grevistas superou 150 milhões de trabalhadores. Porém, segundo os sindicatos, o número chega a 180 milhões de pessoas que abandonaram o trabalho. Trata-se da maior greve geral já registrada na história do mundo.

Porém, essa mobilização quase não teve eco nos meios de comunicação. Poucos artigos de primeira página, ainda menos fotos de trabalhadores manifestando-se  — seja nas fábricas ou nos bancos, plantações de chá ou estações de comboio. A sensibilidade dos jornalistas raramente consegue passar por cima do muro de cinismo, construído pelos proprietários da imprensa. Para eles, a luta dos trabalhadores é um inconveniente para o dia-a-dia.

Uma das principais empresas de consultoria de negócios internacionais informou que 680 milhões de indianos vivem na pobreza. Estas pessoas — metade da população da Índia — são privadas dos fundamentos da vida, como alimentos, energia, habitação, água potável, saneamento, saúde, educação e segurança social. A maioria dos trabalhadores e camponeses indianos estão entre os pobres. Cerca de 90% dos trabalhadores da Índia estão no sector informal, onde a protecção no local de trabalho é mínima e o direito a formar sindicatos praticamente inexistente.

Estes trabalhadores existem nas condições actuais justamente pela necessidade ideológica e económica do governo do país. Em 2002, a Comissão Nacional do Trabalho concluiu que “a principal fonte de trabalho futuro para todos os indianos seria o sector informal, que já produz mais da metade do Produto Interno Bruto”. O futuro da mão-de-obra indiana é, então, o sector informal com poucos direitos reconhecidos ocasionalmente para evitar violações grotescas da dignidade humana. A melhora das condições dos trabalhadores da Índia simplesmente não faz parte da agenda de prioridades actuais do país.

O primeiro-ministro Narendra Modi não prestou atenção à paralisação. O seu objectivo é aumentar a taxa de crescimento da Índia, que — a julgar pelo exemplo de quando era primeiro-ministro do Estado de Gujarat — se pode conseguir mediante a canibalização dos direitos dos trabalhadores e das condições de vida dos pobres. A venda de bens do Estado, as concessões enormemente lucrativas para as empresas privadas, e a abertura da economia da Índia ao investimento directo estrangeiro são os mecanismos escolhidos para aumentar a taxa de crescimento. Nenhuma destas estratégias, como até o Fundo Monetário Internacional reconhece, contribuirá para a igualdade social. Esta estratégia de crescimento provoca uma maior desigualdade, menos poder para os trabalhadores e mais privações.

Apenas 4% da força laboral da Índia está sindicalizada. Se estes sindicatos apenas lutassem para defender os seus débeis direitos, o seu poder diminuiria ainda mais. O poder sindical sofreu muito desde que a economia da Índia se liberalizou em 1991, com as sentenças do Supremo Tribunal contra a democracia sindical e com a cadeia de produção mundial lançando os trabalhadores indianos contra os trabalhadores de outros países. O grande mérito dos sindicatos indianos é que têm feito suas — em diferentes alturas — as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e dos camponeses no sector informal. O que resta de poder sindical só poderá aumentar fazendo o que já estão fazendo. Isto é, virar-se para a imensa massa de trabalhadores e camponeses informais e atraí-los para a cultura dos sindicatos e da luta de classes.

Na Índia, a primeira greve ocorreu em abril e maio de 1862, quando os trabalhadores ferroviários da estação de comboio de Howrah pararam para reivindicar o direito a uma jornada de 8 horas. Os inconvenientes que a greve possa ter para a classe média têm que ser ponderados com os ‘inconvenientes’ quotidianos que os trabalhadores sofrem como consequência da maior parte da sua produtividade ser apropriada pelos capitalistas. Aqueles trabalhadores, em 1862 não queriam turnos intermináveis de dez horas porque os deixavam sem tempo para ter vida própria. A sua greve permitiu-lhes dizer: não vamos trabalhar mais de oito horas. Os que criticam as greves vão argumentar, certamente, que há outras maneiras de conseguir que a sua voz seja escutada. Mas os trabalhadores não têm nenhuma outra, porque não têm nem o poder político para fazer lobby, nem o poder económico para controlar os meios de comunicação. Não lhes resta mais do que o silêncio, à excepção dessa festa da classe trabalhadora que é a greve.

O que a greve expressa é que os trabalhadores da Índia continuam a ser um sujeito activo na luta de classes. Não se renderam à ‘realidade’. Em 1991, quando o governo decidiu abrir a economia aos turbulentos interesses do capital global, os trabalhadores rebelaram-se. Em agosto de 1992, os trabalhadores têxteis de Bombaim saíram à rua, porque a nova ordem queria deixá-los na miséria. O seu gesto simbólico é a realidade actual.

*Vijay Prashad é professor de relações internacionais no Trinity College em Hartgord, Connecticut, EUA; publicado originalmente no site Alternet
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