Não é Netanyahu. É o país

Gideon Levy    03.May.18    Outros autores

Este texto responde a uma interrogação justificada: que fazem os israelitas progressistas e minimamente humanos perante a barbaridade sionista, agora desencadeada de novo em Gaza e complementada com a «limpeza étnica» do sul de Telavive? A amargurada resposta que o texto oferece não deve constituir motivo de desânimo, mas sim motivo para a intensificação da solidariedade internacional ao martirizado povo de Gaza, e da condenação dos crimes do regime sionista, fascista e racista de Israel.

Podemos atirar-nos ao primeiro-ministro tanto quanto quisermos – ele merece-o. Mas é em absoluto necessário recordar que não é Benjamin Netanyahu. É o país. Ou pelo menos a maior parte do país. Todo o estendal de ferocidade destes últimos dias e toda esta farsa foram concebidos para dar satisfação aos desejos ais perversos e aos instintos mais baixos dos israelitas. Os israelitas queriam sangue em Gaza, tanto quanto fosse possível, e queriam expulsões de Telavive, tantas quantas fossem possíveis. Não existe qualquer forma de o disfarçar; evitemos baralhar os factos. Netanyahu – fraco, patético, malvado ou cínico – era movido por uma única razão: satisfazer os israelitas e concretizar os seus desejos. E o que eles queriam era sangue e expulsões.

Que o problema residisse apenas em Netanyahu e no seu governo. Se assim fosse, numa eleição ou talvez em duas o problema poderia ser resolvido. Os gentios retomam o controlo, Gaza e os que procuram asilo seriam libertados, a provocação fascista cessará, a probidade dos tribunais será garantida e Israel será de novo um lugar do qual nos podemos orgulhar. É uma quimera. É por isso que a campanha contra Netanyahu é importante, mas não é seguramente decisiva. A verdadeira batalha é muito mais desesperada e o seu âmbito é muito mais alargado. É uma batalha pela nação, e mesmo por vezes contra ela.

Mesmo os críticos de Netanyahu admitem que ele sabe identificar os desejos da população. Ele reconheceu que a maioria desejava a limpeza étnica em Tel-Aviv, o ultranacionalismo, o racismo e a crueldade. Netanyahu, não sendo tão perverso como os seus apoiantes, tentou de momento uma outra via – mais humana e mais racional. Mas quando se sentiu queimado e se deu conta de que tinha dado insuficiente atenção ao desejo do povo, arrepiou caminho em tempo record e voltou a ser ele próprio. A base, o eleitorado, a maioria desejam o mal. Foi isso que ele lhes proporcionou, e trata-se de algo que nenhuma eleição modificará. A verdadeira calamidade não é Netanyahu – é o facto de que qualquer sinal de humanidade em Israel é um suicídio político.

Da fronteira de Gaza até Telavive estende-se uma linha recta de malvadez e racismo. Em ambos os casos, os israelitas não vêm seres humanos perante si. O natural de Gaza ou da Eritreia são uma e a mesma coisa: sub-humanos. Não têm qualquer sonho nem qualquer direito, e a sua vida nada vale.

Em Gaza os atiradores de elite do exército israelita abateram manifestantes desarmados como se estivesse numa carreira de tiro, saudados por um concerto de felicitações por parte dos media e das massas. No sul de Telavive, retomam as prisões e as expulsões - também isso ao som festivo das celebrações.

É isso que a nação pede, e é o que vai obter. Mesmo que os soldados matem centenas de manifestantes em Gaza, Israel não pestanejará. Razão para isso: a malvadez e o ódio em relação aos árabes. Gaza não é nunca vista como aquilo que verdadeiramente é, um lugar habitado por seres humanos, uma enorme e terrível prisão, um imenso local de experimentação humana. A maior parte dos israelitas, que – como o seu primeiro-ministro - nunca falaram com um único natural de Gaza, apenas sabem que a faixa de Gaza é um ninho de terroristas. É por essa razão que é conveniente fuzilá-los. É chocante mas é verdade.

A mesma coisa ao sul de Telavive. Quando se fala dos «residentes do sul de Telavive» entende-se por isso apenas os judeus racistas que aí residem. Os Negros que aí vivem não são considerados mais residentes dos que os ratos que aí vivem. O grau de ódio acumulado contra eles manifestou-se na reacção ao compromisso apresentado por Netanyahu. Porquê expulsá-los para a Europa ou o Canadá? Porque não para África? Porque não pela força? Trata-se de um sentimento difícil de entender. Netanyahu não fez mais do que surfar a onda destes sentimentos desprezíveis. Não foi ele que os gerou. É evidente que um dirigente com suficiente estatura os teria combatido, mas um tal dirigente não existe no horizonte de Israel. Substituir a nação também não é, de momento, uma opção viável.

Há também seguramente israelitas que se opõem a esta malvadez. Não há motivo para não os designar pelo bom nome: melhores, mais humanos, cheios de compaixão, conscienciosos, morais. Não são uma minoria insignificante, mas a guerra promovida contra eles pela maioria e pelo governo paralisou-os. O facto de apresentador de um programa de rádio, Kobi Meidan, ter pedido desculpa por se ter sentido envergonhado indica que este campo está derrotado. Se o massacre de Gaza e as expulsões do sul de Telavive não fazem com que eles manifestem nas ruas a sua cólera, tal como no massacre da Sabra e Chatila, então são uma espécie em vias de extinção.

Continuamos a ser um país de maioria.

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