Não, não #VaiFicarTudoBem

António Santos    27.Mar.20    Outros autores

À medida que evolui a crise vai-se tornando mais flagrante a hipocrisia do “estamos todos no mesmo barco” e do “toca a todos”. As desigualdades e a exclusão não dizem respeito a um ou outro aspecto particular da realidade. E, da saúde aos despedimentos em massa, e ao grande capital a pôr-se na fila para arrebanhar os “apoios” do governo, ficam cada dia mais à vista.

Não, não #vaificartudobem. Ou melhor, só #vaificartudobem para alguns. Porque quando António Costa disse que “nesta guerra estamos todos do mesmo lado”, não explicou que, como em todas as guerras, há soldados rasos, que nestas coisas vão sempre à frente, mas também há, do mesmo lado, mas não mesmo ao lado, e com isto quero dizer lá bem atrás, financeiros e industriais, que levam confortavelmente a mesmíssima bandeira à lapela dos seus paletós Ermenegildo Zegna. Acto contínuo, Costa explicou que “nesta guerra não há o Partido do Vírus e o Partido Contra o Vírus” mas, vamos lá ver, também não havia o “Partido da Crise e o Partido Contra a Crise” e todos sabemos como é que correu esse “grande esforço patriótico”.

Nesta frente da «guerra contra o vírus», multiplicam-se às dezenas de milhares os despedimentos, assumidos ou encapotados, no privado e no público. E são os mesmos de sempre a servir a carne aos canhões das crises, das pandemias e das guerras menos metafóricas: centenas de milhares de trabalhadores atirados para o desemprego e para a miséria. Também vai ficar tudo bem para eles?

É que em vez de proibir os despedimentos e ir buscar o nosso dinheiro aos bolsos da banca, o Governo oferece facilidades no lay-off e créditos às empresas que prefiram (prefiram!) não despedir, como se, nestas circunstâncias, muitas empresas fossem preferir mesmo tal coisa. Em vez de suspender os pagamentos das contas da luz, da água, do gás e dos empréstimos do povo, o governo oferece moratórias às empresas para aliviar o IVA, IRS e TSU. Em vez de controlar os preços que o povo vai deixar de conseguir suportar, o governo promete que, dê lá por onde der, vai ajudar as empresas a suportar o custo da crise. Em vez de obrigar os hospitais privados a salvar vidas e cumprir a sua parte, o Estado continua pagar-lhes para recambiarem para o público doentes infectados com COVID-19. Nesta guerra contra o vírus, os generais só olham para retaguarda e nós vamos quase todos mesmo à frente.

Aqui, na frente da guerra contra o vírus, estão os trabalhadores obrigados a tirar férias na Vista Alegre, na Simoldes, na Fucoli, no Hotel Conde de Águeda, no McDonalds, no Grupo Pestana, na Hutchinson, no Intermarché, na Hom, na Triumph, na Benetton, na Portugália, nos Hotéis Minor, nos Hotéis Vila Galé, no Barraqueiro, na Decathlon, na Tezenis, na DHL, na Climex, na Caetano Aeronautic, na Essilor, na Renault Cacia, na Bosch.

Estamos todos do mesmo lado, mas quem é obrigado a trabalhar sem as mínimas condições de protecção são os operadores no callcenter da MEO, nos Centros de Inspecção Automóvel, nos CTT e na Transtejo/Soflusa, no Continente, no Pingo Doce, na Visabeira, na EDP, Yazaki Saltano, na maioria dos lares de idosos e na Randstad.

Por isso diz-me lá, também #vaificartudobem para os trabalhadores despedidos na Randstad, na Benetton, na Fnac, na Bourbon, na Printglass, na Gestamp, na Faurécia, na Delphi, na Portway, na Carris Tur, no Palace Chiado, na Ok Sofás, na Tifossi, na Fertagus, na Carl Zeiss, na Imprensa Nacional Casa da Moeda, na Fillwork, na Visteon, na TAP e na Continental?

Achas mesmo que #vaificartudobem, quando o grupo Aquinos perguntou aos trabalhadores quem precisava de dar apoio aos filhos para depois incluí-los, aos que se acusaram, na lista para despedir? Achas mesmo que #vaificartudobem na casa de quem trabalha para a Ansiel ou na SBSI/SAMS que simplesmente decidiram que ali não se aplica a lei pelo que não há assistência aos filhos, ponto final parágrafo?

Achas mesmo que #vaificartudobem para a malta empurrada pelo governo para o lay-off na Sacoor, na Agência Abreu, no Corinthia, no Cliff Hotel, no Itau, na Gertal, na Leganza, na Decathlon, na PSA Peugeot Citroen Mangualde, na Huff?

E não me chamem pessimista, nem alarmista: eu também concordo que é possível ver esta tragédia por uma lente positiva. A parte boa é que o capitalismo surge novamente nu, a desfilar nas nossas ruas desertas e nas nossas vidas suspensas: a lei do mais forte em todo o seu esplendor, com os mais fortes a aproveitarem-se dos mais fracos, e os mais fracos agora ainda mais fracos porque é a eles que vai faltar o ventilador porque entregaram a saúde entregue aos privados; os privados a pensar no lucro; os lucros indiferentes à urgência de nos salvarmos; a urgência dependente de um Estado feito impotente pelos mercados livres; os mercados livres a tentarem vender-nos garrafinhas de álcool a 30 euros; nós no meio disto tudo, que pagámos a puta das crises todas desde que o mundo é mundo, a termos de decidir se queremos comprar a garrafinha e álcool ou os medicamentos dos nosso pais.

Não adianta o teu pensamento positivo, nem os teus hashtags espirituais, nem bandeirinhas à janela como no Euro2004: a verdade é que isto não vai ficar mesmo nada bem e isso não vai mudar só por tu acreditares com muita força. Mas só por termos de manter os olhos abertos não quer dizer que nos deixemos paralisar pelo medo: agora é tempo de ficar em casa, mas mais cedo do que tarde vai chegar o dia em que vamos mesmo ter de sair à rua. Ainda achas que #vaificartudobem? Eu no fundo até acho, mas só porque também acho que por mais feias que as coisas fiquem, o nosso povo acabará por vencer.

Fonte: https://manifesto74.blogspot.com/2020/03/nao-nao-vaificartudobem.html

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