Neste tempo de regressos

Correia da Fonseca    17.Ene.12    Colaboradores

O desaparecimento de Pedro Osório deixa vários vazios: um, o da interrupção sem remédio do seu trabalho, que ao longo de décadas enriqueceu a música portuguesa; outro, o da sua participação de cidadão atento e honrado; outro ainda, o de ser menos um talento a contrapor à vaga que, na “música ligeira”, dá corpo ao regresso dessa área à mediocridade sentimental e reaccionária.

1. Uma informação de última hora, inserida em rodapé no ecrã do televisor, anunciou-me a partida de Pedro Osório. Não era propriamente uma surpresa: não sabia do seu internamento hospitalar na antevéspera mas sabia, sim, da doença que há muito tempo o vinha marcando para a morte. Mas sabia mais. Sabia da sua recusa em desistir antecipadamente de tudo, do trabalho que se obstinara em prosseguir através da crescente debilidade física, de pelo menos alguns projectos que mantinha. E sabia o que hoje me aparece como o mais importante: a qualidade do seu trabalho ao longo de décadas, a sua presença na história contemporânea da música portuguesa dita ligeira (sabendo também de que o seu talento não se ficara por essa área e se alargara também para a da música chamada erudita, ou séria, ou clássica, pelos que para ela não encontram melhor designação). E ao que eu sabia quanto a Pedro Osório e a essas matérias se acrescentava o conhecimento da sua condição de cidadão atento e honrado, méritos que por vezes é surpreendente encontrar em quem trabalha em meios escassamente propícios ao reconhecimento desses valores. Por tudo isto, que nem será tudo, fiquei chocado perante aquela legenda que passava em rodapé. Além do mais, já não poderia realizar o meu plano de dar um salto a Oeiras, numa próxima quarta-feira, para dar a Pedro Osório mais um abraço que poderia ser o último e mais uma palavra de admiração e agradecimento que, essa, haveria de ser apenas mais uma.

2. Como se compreenderá, o choque nesse momento sentido prolongou-se por horas, não será excessivo dizer que por dias. Porém, agudizou-se de algum modo no passado sábado, já a tarde declinava, quando por dever de ofício acompanhava um desses programas que são, desde há muito, o amargo pão-nosso de cada dia do telespectador que um dia sonhou com uma televisão portuguesa de qualidade e decoro. Não são, sequer, de uma brutalidade agressiva: também os há desses, mas quase sempre mais lá para a noite. Estes são apenas «ligeiros», concebidos com presumíveis objectivos de anestesia levezinha, muitas vezes injectados com a intenção supostamente patriótica de nos recordarem um País belo e prendado e, é claro, por esse simpático caminho nos fazerem esquecer tristezas, angústias, desesperos. E crimes. É claro que é muito desagradável vir aqui recordar esta última função, porventura exercida muitas vezes com intenções menos más (coíbo-me, por boas e óbvias razões, de usar aqui o velho chavão «com as melhores intenções») mas as coisas são como são, como é costume dizer-se, e a actualidade das coisas portuguesas é de difícil compatibilização com o uso de analgésicos medíocres. Ou, dizendo-o de outro modo e como metáfora por ventura tosca: nem todas as músicas são para todos os momentos.

3. Ora, precisamente, naquele momento da tarde do passado sábado tratava-se de uma questão de música: nos seus minutos finais, o programa decerto concebido para nos tornar bem-dispostos e esquecidos de tristezas rematava com um «momento musical» perfeitamente exemplar do que é costume. Recapitulemos o modelo, para mais claro entendimento: uma jovem ou um jovem, de microfone em punho, exibe as suas qualidades vocais frequentemente efectivas aplicando-as a canções rotineiras nos sons e pelintras nas palavras. Por detrás da (ou do) solista, um pequeno grupo de meninas tendencialmente apetecíveis de olhar completa o momento. Consta haver quem, quando o aspecto visual o propicie, opte por desligar o som e esperar que o pior se dissipe. Há quem, por uma razão ou por outra, aguente firme. E há decerto quem goste. No sábado, porém, o pior de tudo era que aquela cantiga, aquelas palavras tontas e aqueles gargarejos desperdiçados, remetiam a memória para décadas atrás, quando um cançonetismo repetitivo impregnado de um romantismo falso, serôdio e piroso, dominava a «música ligeira portuguesa». Era a música que se situava nos antípodas da música que Pedro Osório fez ou ajudou a fazer.
Neste tempo em que o País está a ser empurrado pelo caminho dos regressos, aquele momento musical parecia ser também a presença de um regresso triunfante. O que não significa que Pedro Osório tenha partido derrotado. O que significa, sim, que é preciso continuar-lhe sonhos e anseios. Musicais e outros.

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