Nicarágua: face à “contra colorida” e seus disfarces, o nosso lugar é o anti-imperialismo consequente

Red Roja    12.Ago.18    Outros autores

A situação na Nicarágua exige uma firme solidariedade anti-imperialista. Solidariedade antes de mais com o povo que resiste à tentativa de golpe desencadeada pela reacção interna e pelo imperialismo. Já aqui publicámos textos que manifestam essa solidariedade, mas que exprimem também reservas à acção do governo de Ortega. Os seus autores são lutadores de sólidos princípios, que não podem por essa posição ser misturados com o outro lado da barricada.

A Red Roja ratifica o seu firme apoio ao governo nicaraguense face à violência criminosa desta nova “contra” que, com inigualável desvergonha, nos é apresentada como “progressista” por parte dos media.

Fazemo-lo, além disso, num contexto em que determinada esquerda ocidental, uma vez mais, decidiu alinhar com os cantos de sereia da manobra imperial. Como exemplo, chegam agora da Nicarágua vozes de indignação ante o posicionamento assumido no conhecido programa Fort Apache contra o governo e a favor dos “rebeldes”.

A gravidade deste posicionamento é ainda maior se consideramos que a estratégia destes “golpes brandos” promovidos pelos EUA, seus aliados oligárquicos locais, os meios de comunicação e inclusivamente pela equipa das “ONG” se repete já em numerosos países (Líbia, Síria, Ucrânia, Venezuela e agora Nicarágua). Em todos os casos, estes sectores da esquerda de que falamos tomaram posições que poderíamos qualificar de absurdas, se não fossem algo pior: traição e pura claudicação.

Contudo, o mais perigoso é que, como a Red Roja vem afirmando desde que estabeleceu o seu critério anti-imperialista (1), estes claudicantes partem de “grãos de verdade”… para acabar defendendo a pior das mentiras, a atitude mais reaccionária possível no plano da confrontação mundial em curso. A nossa organização não se cansará de repetir que o imperialismo dos países centrais é o principal limite para a liberdade dos povos e inclusivamente para um desenvolvimento mais profundo dos seus processos sociais, pelo que nenhuma crítica ou “exigência” pode entrar em contradição com a nossa tarefa principal. No que nos toca, a nossa responsabilidade é debilitar a retaguarda imperialista, aqui, no coração da besta.

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O presidente Ortega ganhou as eleições acedendo a um terceiro mandato em 2016, com 72,4 por cento dos votos e uma altíssima participação de 66%. O seu governo pertence à Aliança Bolivariana das Américas e tem apoiado Cuba e Venezuela.

Um dado de crucial relevância geoestratégica é que Ortega estabeleceu acordos com a China para um importantíssimo projecto de canal interoceânico, tal como com a Rússia en matéria de segurança; razões pelas quais os Estados Unidos necessitam de derrubar o seu governo e instalar um mais dócil em seu lugar.

A patronal nicaraguense convocou os protestos depois de Ortega ter aumentado 3,5% as contribuições patronais para os fundos de pensões. As contribuições dos trabalhadores apenas foram aumentadas 0,75%! Além disso, o governo lançava esta proposta para desobedecer às recomendações do FMI, que exigia elevar drasticamente a idade da reforma. O governo sandinista sentia-se com força para rejeitar as reivindicações de austeridade do lobby empresarial e do FMI; podiam aprender com isso alguns governos tão gabados pela progressía espanhola, como os da Grécia e Portugal, máxime quando ninguém ignora que a Nicarágua não só não está na primeira divisão dos países desenvolvidos como tem sido histórica e secularmente vítima deles.

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O imperialismo é inteligente e procura aplacar a rebeldia ante os seus desmandos. Desde há anos, o governo dos EUA compreendeu que os partidos da oposição nicaraguense estavam desacreditados e que faria melhor financiando sectores da “sociedade civil” e as ONG. As doações a este tipo de oposição superam desde 2014 os 5 milhões de dólares.

Entretanto, uma análise minimamente seria dos actores que secundam e hegemonizam politicamente os protestos na Nicarágua deixa as coisas bem claras a quem tenha a honestidade de as aceitar. Desde Piero Cohen, o homem mais rico da Nicarágua, que incitou os estudantes, até à Igreja Católica. Passando pela família Chamorro (de apelido tristemente célebre no país e representante da oligarquia terratenente tradicional) e pelos filhos da burguesia do chamado Movimento de Renovação do Sandinismo, cada vez mais próximo do Partido Republicano ianque.

Ou a líder feminista Azalea Solís, directamente financiada pelo governo dos EUA. Ou o líder camponês Medardo Mairena, também dependente do financiamento do Pentágono. Ou Félix Maradiaga, integrante do Fórum Económico Mundial e beneficiário da chamada Bolsa Gus Hart, instrumento norte-americano para financiar lacaios do calibre de Yoani Sánchez ou Henrique Capriles.
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Os jornalistas de investigação norte-americanos Kevin Zeese e Nils McCune documentaram ampla e rigorosamente, na web Popular Resistance, qual foi o guião da violência na Nicarágua. Foi, na realidade inspirado pelas guarimbas venezuelanas de 2014 e 2017 contra o presidente Nicolás Maduro e contra a Revolução Bolivariana.

Os meios de comunicação ocidentais esforçam-se por apresentar a situação como “repressão desproporcionada” contra uma oposição “pacífica” e “democrática”. Outro insulto mais à sua profissão. Apesar de tanto vídeo vitimista publicado na Internet, a realidade é que foram organizados ataques armados contra edifícios governamentais, 60 dos quais foram queimados. Também foram atacadas escolas, hospitais e inclusivamente ambulâncias. Morreram 15 estudantes e 16 polícias. 200 sandinistas foram sequestrados e muitos deles foram atroz e publicamente torturados. ¡Os meios de comunicação não pararam de desinformar, vendendo tudo isto como repressão governamental! ¡Quando os sandinistas, os polícias ou os transeuntes são assassinados, fala-se falsamente de repressão estatal!

O roubo de automóveis, os incêndios e os assassínios para criar caos e pânico têm sido uma constante desde há meses. A Falsimedia não explicará a realidade da oposição: mercenários pagos, com um largo historial delinquente. Equipados com cocktails molotov. Com lançadores de granadas de morteiro, pistolas e espingardas. Narcotraficantes, em muitos casos.

Entretanto, quando veteranos da guerrilha sandinista lideram a autodefesa dos bairros e se criam barricadas contra os ataques da oposição, ¡os media ocidentais etiquetam-nos falsamente como forças paramilitares! Além disso, fala-se-nos como se todos os estudantes nicaraguenses estivessem contra o governo, quando a Unión Nacional de Estudiantes Nicaragüenses defendeu Ortega, o que a converteu em um dos mais ensanguentados alvos da violência opositora.

¿Acaso vamos esperar um par de décadas para que os media imperiais nos dêem autorização para denunciar a montagem imperialista? Seria un exercício inútil muito típico nas nossas “democracias retardadas”.

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Nesta situação a Red Roja, ao lado dos governos de Venezuela e Bolívia, do Fórum de São Paulo reunidos nestes dias em Havana, e de forças anti-imperialistas de todo o mundo, manifesta a sua repulsa face a este “golpe brando” e o seu apoio ao governo nicaraguense. Todos estes actores merecem-nos muito mais respeito que determinadas “ONG, ecologistas e feministas”.

Acusar-nos-ão de seguidismo aqueles que praticam o seguidismo do império criminoso e das piores falacias de uma suposta “sociedade civil” com notas de dólar nos bolsos. Não importa. Sabemos que o nosso papel não é fazer “exigências” ao país agredido ou olhá-lo à lupa para destacar os seus defeitos. Evidentemente que saberemos salvaguardar as nossas necessárias críticas às linhas que os processos revolucionários e progressistas sigam da sua utilização criminosa por parte do ogre imperial; esse em que estamos imersos e com o qual nos negamos a ter a mínima cumplicidade. É que, no plano estrito da solidariedade anti-imperialista, o nosso papel (a nossa responsabilidade) é debilitar a ofensiva em curso e denunciar os objectivos evidentes que se escondem por detrás de tanta “revolução colorida”.

Os mesmos que, com a oposição venezuelana, ou com os assassínios de sindicalistas na Colômbia, ou com a perseguição judicial contra Rafael Correa no Equador, ou com as acusações de corrupção que na Argentina e Brasil atingem já inclusivamente a esquerda moderada. Porque os acontecimentos na Nicarágua devem se inseridos de contexto de uma vaga reaccionária que percorre a América Latina e que é promovida pelo imperialismo e seus meios de comunicação.

Fique pois para outros a simpatia de uns media que, desde logo, na luta entre povos e impérios não estão de modo nenhum “no meio”. Fique para outros uma falsa neutralidade que apenas beneficia o bando mais poderoso: esse que financia e promove a partir de Washington ou Berlim uma sedição feita à sua medida. Nem por acção nem por omissão: nós não seremos cúmplices.

Notas:
1- http://www.redroja.net/index.php/comunicados/758-desinoculandonos-la-paralisis-antiimperialista

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