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Nicolás Maduro: “Que sejamos respeitados enquanto soberanos e independentes” (II)

Ignacio Ramonet    10.Ene.19    Outros autores

Nesta segunda parte da entrevista, Nicolás Maduro fala sobre questões económicas e questões internacionais. No conjunto da entrevista, serão possivelmente de destacar dois traços da personalidade do Presidente venezuelano. Um, a frontalidade com que aborda diferentes matérias, algumas das quais bastante delicadas. Outro, a confiança que em todas as circunstâncias manifesta em relação ao seu povo.

Ignacio Ramonet - Vamos passar a abordar, em uma segunda parte, algumas questões económicas. Uma vez superado o cenário da violência política, a batalha económica e, em particular, a luta contra a inflação são apresentadas como as principais tarefas nacionais para 2019. Que balanço faz do “Plano de Recuperação Económica, Crescimento e Prosperidade”, lançado em 20 de Agosto passado E quais são as perspectivas para 2019?

Nicolás Maduro - Acredito que a principal conquista do Programa de Recuperação Económica, Crescimento e Prosperidade é que já temos as rédeas do que é um plano de crescimento e recuperação. Temos as rédeas para a protecção do emprego, a protecção dos rendimentos dos trabalhadores. Temos as rédeas para o crescimento organizado dos sectores fundamentais da economia.

E estamos em melhores condições para enfrentar a duríssima batalha contra as sanções internacionais que fizeram a Venezuela perder, pelo menos, uns vinte mil milhões de dólares só em 2018… São perdas colossais, multimilionárias. Perseguem-nos as contas bancárias. Impedem-nos de comprar qualquer produto no mundo: comida, medicamentos, insumos … É uma perseguição selvagem, um assédio criminoso o que é feito contra a Venezuela.

Sem mencionar o bloqueio financeiro … Que é mais do que o bloqueio … Porque um bloqueio, às vezes, quando te querem bloquear, colocam uma barreira aí, e já não se pode passar cá … Mas o que nos fazem é mais do que um bloqueio, é uma autêntica perseguição … Uma perseguição das contas bancárias, dos negócios que a Venezuela realiza no mundo, do comércio, das compras …

Por exemplo, Euroclear [um dos maiores sistemas de compensação e liquidação de valores financeiros do mundo, cuja sede está em Bruxelas.] sequestrou-os, em 2018, 1400 milhões de euros que já estavam comprometidos para comprar medicamentos, insumos e alimentos. E ninguém responde. Denunciamo-lo nas Nações Unidas, perante o Secretário-Geral da ONU. Denunciei-o para as diferentes organizações internacionais … E ninguém diz nada.

Então, temos uma luta para nos libertar, para nos tornarmos independentes de toda essa perseguição e bloqueio. E isso só é conseguido através da produção de riqueza.

Estou muito envolvido no aumento da produção de petróleo, na elevação da capacidade da Venezuela na sua petroquímica, na produção de ouro, de diamantes, de coltan … Na elevação da produção de ferro, aço, alumínio, etc..

Riquezas abundantes que a Venezuela possui e que, por muita perseguição internacional que os Estados Unidos decretem, são matérias-primas que possuem um mercado internacional sem qualquer tipo de restrição.

Devo acrescentar que os ataques contra nós são constantes, implacáveis e de todos os tipos. E não são apenas económicos. Por exemplo agora, com as festividades do final do ano, chegaram de fora cruzando a fronteira dezenas de comandos terroristas especializados em sabotagem eléctrica. Voam os transformadores voam, cortam cabos de alta tensão, dinamitam centrais eléctricas … Deixam bairros inteiros, por vezes cidades inteiras sem luz, sem energia para indústrias, os congeladores, os transportes, os hospitais … Colocam vidas em perigo … Amarguram as festas de milhares de famílias.

Outros comandos infiltram-se com orientação para causar cortes na distribuição de água. Destroem condutas, sabotam aquedutos, provocam cortes de água … Complicam a vida quotidiana de centenas de famílias. Outros terroristas sabotam os transportes públicos … Outros especializam-se em fazer desaparecer o papel-moeda que levam maciçamente para a Colômbia …

São actos criminosos que chamamos de “terroristas”. As nossas forças de segurança estão espalhadas por todo o país e estão a tornar-se cada dia mais eficazes … Já prenderam dezenas desses comandos mercenários. Mas continuam a chegar porque os recursos dos nossos inimigos são infinitos …

E devo dizer, com admiração, que o povo venezuelano enfrenta todas essas agressões com uma assombrosa consciência política. Muito determinado a resistir, com o apoio decidido de nossas forças de segurança, a ataques tão cobardes.

É por isso que digo que o povo da Venezuela está sendo vítima de uma feroz perseguição que comparei, atrevi-me, à perseguição de Hitler contra os judeus, com a autorização da comunidade judaica mundial. Perseguem-nos sem piedade. Cercam-nos. Assediam-nos a partir dos Estados Unidos com obsessão, com sadismo, e querem prejudica-nos economicamente para nos sufocar, nos estrangular, derrotar-nos.

Não o conseguiram. Nem o vão conseguir. E acredito que com este Programa de Recuperação Económica, Crescimento e Prosperidade haverá em 2019 grandes surpresas muito positivas, no que diz respeito ao aumento da produção, e da criação de riqueza diversa para o país e para a população. Decididamente, a nossa economia vai descolar graças ao controlo da inflação e dos elementos que têm vindo a perturbar a vida dos venezuelanos nos últimos anos.

IR – Segundo as nossas informações, a produção de petróleo da Venezuela é de cerca de 1.200.000 barris por dia, ou seja, abaixo da produção óptima. Qual é a situação real da petrolífera estatal PDVSA?

NM - Empreendemos um processo - e meu governo empenhou-se nisso - de defesa dos preços internacionais do petróleo. Mesmo que uma das formas de agressão multiforme contra as economias da Rússia, Irão e Venezuela - para mencionar alguns dos grandes exportadores - seja através da manipulação de formas perigosas de produção, o chamado fracking do petróleo de xisto, e a especulação financeira em contratos futuros, para baixar artificialmente os preços.

Procuramos e defendemos um preço de equilíbrio que favoreça produtores e consumidores. E continuaremos a agir dessa forma no âmbito do acordo dos países produtores membros da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] e não membros da OPEP.

Sobre sua pergunta específica, confesso: é verdade, a Venezuela está a produzir menos petróleo do que deveria, e essa tem sido uma das minhas maiores preocupações. Lamentavelmente, enquistaram-se no seio da PDVSA [Petróleos de Venezuela Sociedad Anónima] verdadeiras máfias. A maldita corrupção que, como um cancro, minou a nossa força impediu-nos de aumentar a produção de petróleo. Enfrentamo-los com ímpeto, com determinação.

Colocamos à disposição da justiça e estão a ser processados vários gerentes corruptos e altos funcionários que traíram a nossa confiança, a sua palavra de honra e a sua lealdade para se tornarem meros ladrões.

Estou seguro de que 2019 será o ano de recuperação na produção de petróleo, com a ajuda da PDVSA honesta e de empresas privadas que, através da formação de joint ventures e de contratos de prestação de serviços, já estão produzindo e acelerando esse esforço.

IR - O que responde aos media internacionais que fazem campanha contra o seu governo falando de “carência crônica” de alimentos básicos, de “penúria” de medicamentos essenciais, e que denunciam uma “crise humanitária”?

NM - Ficou demonstrada, por parte de pesquisadores sérios da informação, a realidade da brutal e infame campanha psicológica e mediática dos centros imperialistas contra a Venezuela e contra os venezuelanos. Querem quebrar a nossa moral e a nossa decisão inabalável de sermos independentes e livres.

De todas as notícias publicadas sobre a Venezuela nos EUA e nos media europeus, 98% são notícias negativas. 98%!!! Uma barbaridade. Eles não dizem - como já indiquei - que seis milhões de lares venezuelanos recebem, a cada três semanas em suas casas, quase de graça, os alimentos essenciais para a família … Silenciam que estamos a garantir a alimentação para o povo, como foi reconhecido por organizações multilaterais como a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura]. Não mencionam que, nestas semanas de véspera de festas, o nosso governo distribuiu cerca de 14 milhões de brinquedos a crianças de famílias humildes … Silenciam que entregamos - você foi ontem, em parte, testemunha disso - dois milhões e meio de habitações sociais … Em que outro país foi isso feito? …

Escondem que estamos a enfrentar uma duríssima guerra económica e um bloqueio promovido pelo império norte-americano e por alguns países europeus. Omitem indicar que quase toda a população da Venezuela tem acesso a cuidados médicos, gratuitos e de qualidade. Não há um recanto da Venezuela aonde não cheguem os cuidados dos nossos médicos da missão Barrio Adentro. Não dizem - como já assinalei - que toda a população tem acesso a educação gratuita e de qualidade desde a pré-escola até a universidade e a pós-graduação. Efectivamente, neste ano de 2018, na Venezuela aumentaram as matrículas em todos os níveis da educação … Não lhe parece estranho, Ramonet, que tenhamos conseguido aumentar as matrículas escolares no decurso desse suposto contexto “catastrófico” que tentam espalhar?

A resposta a essas patranhas já foi sugerida em 2015 pelo general John Kelly, [actual chefe de gabinete do presidente Donald Trump; Ex-Secretário de Segurança Nacional. Em 2015 era comandante do Comando Sul dos EUA] quando disse que Washington “interviria” na Venezuela no caso de uma “crise humanitária”.

Nós não negamos os problemas que existem em nosso país. Pelo contrário, enfrentamo-los, discutimos com o nosso povo e estamos determinados a resolvê-los. Se os Estados Unidos querem ajudar-nos, podem começar por não serem hipócritas. Poderiam liberar os recursos que Euroclear roubou, 1 400 milhões de euros … Poderiam permitir-nos o acesso ao crédito do sistema financeiro internacional a que todos os Estados do mundo têm acesso … E repare que a Venezuela é boa pagadora … Nos primeiros cinco anos do meu governo pagámos mais de 70 milhares de milhões de dólares … Pois bem, apesar da nossa condição de bons pagadores, é recusado à Venezuela o acesso ao crédito internacional, é perseguida e fecham-lhe contas bancárias de forma ilegal, abusiva, ilegítima, injusta.

IR - Ao longo de 2018, alguns meios de comunicação internacionais transmitiram imagens de venezuelanos “fugindo” do seu país por causa do suposto “colapso económico” e da “crise humanitária”. Falou-se de “milhões de emigrantes”. E vários países vizinhos receptores - incentivados pelos EUA, União Europeia e Canadá - estão a pedir apoio internacional para as supostas “despesas com cuidados” para estes migrantes. Que reflexão lhe merecem estes fenómenos?

NM - Esses fenômenos, como observa, foram construídas em parte com base em “notícias falsas”, “verdades alternativos” e outras desinformações fabricada com a cumplicidade activa de vários conglomerados de meios de comunicação.

Sobre uma base mínima de realidade - que ninguém nega, Ramonet -, alguns hábeis guionistas elaboraram um conto antichavista para multidões. É uma gigantesca operação de “falso positivo” coordenado pelos campeões do mundo em “falso positivo”, ou seja, o governo da Colômbia, acompanhado por alguns países satélites do imperialismo dos EUA.

É uma história muito triste. Dá muita pena- Por um lado, estes ilusionistas vigarizaram um grupo de venezuelanos, cujo número - aproveito para o denunciar - nunca atingiu, nem remotamente, os números que os grandes media repetem mil vezes. Nós, insisto, não negamos que um grupo de venezuelanos saiu do país comprando essa oferta enganosa de “melhores condições de vida e de trabalho”. Foi um grupo atípico, para dizê-lo de alguma forma, porque aqueles que partiam levavam dinheiro: uns dez mil dólares; outros vinte mil dólares, ou inclusivamente quantias ainda maiores … e dirigiram-se a Peru, Colômbia, Equador, Chile … e aí depararam-se com a brutal realidade do capitalismo selvagem, da xenofobia, do ódio racial … A muitos roubaram-lhes o dinheiro, outros maltrataram-nos, vexaram-nos e submeteram-nos a trabalho escravo …

Em paralelo, os propagandistas elaboraram o registo mentiroso da “migração maciça” e da “crise humanitária”. Afirmando coisas francamente absurdas, mentiras flagrantes … Chegaram por exemplo de repetir que no Equador entrava um milhão de venezuelanos a cada mês … Eu fiz um pequeno exercício de aritmética, Ramonet: Sabe quantos autocarros são necessários diariamente para transportar esse número de pessoas para o Equador? Oitocentas viagens por dia! Consegue imaginar oitocentos autocarros entrando diariamente em Quito …? Onde estão as fotos que mostram esse milhão de pessoas? Todo mundo viu os milhares de migrantes caminhando para os Estados Unidos vindos de Honduras. Todos vimos que era uma coluna enorme … E, no entanto, era apenas algo como oito ou nove mil pessoas … Pode imaginar uma coluna de cem mil migrantes? Uma fila de oitocentos autocarros - diariamente! - desmoronando as ruas de Quito?

É incrível que gente pensante tenha podido acreditar em mentiras deste calibre … Mas é esse precisamente o objectivo dos “falsos positivos” e das “notícias falsas,” semear a mentira para que esta se imponha sobre o raciocínio e a verdade.

Além disso, o governo da Colômbia e seu presidente, Iván Duque, numa manobra de insólito descaramento, estão a tentar obter dinheiro da operação … É incrível! Não é? Dinheiro que certamente se vai perder, será roubado … Ainda há quem, no Congresso dos EUA, queira saber o que fez o Governo da Colômbia com os 72 milhares de milhões de dólares que Washington deu para a “luta contra as drogas” … O que fizeram com esses milhares de milhões? Eu posso dizer-lhe de ciência certa: roubaram-no.

A Colômbia continua sendo o primeiro país produtor de cocaína no mundo e as plantações ilícitas não fizeram mais do que aumentar. É incrível que o presidente Duque esteja a procurar defraudar a comunidade internacional e o sistema multilateral com as patranhas que ele próprio inventou. Poderia, por exemplo, começar a preocupar-se com os seus próprios cidadãos, os colombianos, que a pouco mais de cem dias desde a sua tomada de posse já o repudiam amplamente.

Poderia ocupar-se, por exemplo, com os colombianos que vivem na Venezuela … Sabia que aqui, no nosso país, recebemos cerca de seis milhões de irmãos e irmãs da Colômbia? Constituem 12% da população da Colômbia, mas vivem na Venezuela! E aqui lhes demos segurança, trabalho, alimentação, educação, cuidados médicos gratuitos e, acima de tudo, paz, garantimos o seu direito a uma vida digna. Nunca nos ocorreu pedir fosse a quem fosse um centavo para atender aos milhões de irmãos colombianos, peruanos, equatorianos, chilenos, brasileiros, espanhóis, portugueses, italianos, libaneses que vieram para este país. Aqui os recebemos de braços abertos.

Enfim, que toda essa patranha da “migração em massa” já caiu … Eles soltaram a máscara … E ocorreu algo mais insólito … Não me lembro de que tenha acontecido em outro lugar: em meados de 2018, começaram a produzir grandes concentrações dos nossos compatriotas á porta das nossas embaixadas e consulados no Peru, Equador, Brasil, Colômbia, etc. Compatriotas clamando por regressar à Venezuela. Fartos de racismo, de xenofobia, das vigarices, da precarização, da vida ruim, do trabalho escravo …

Foi quando imaginamos o plano “Vuelta a la Patria” … Já vai em mais de vinte mil venezuelanos que regressaram. E continuaremos a facilitar o retorno de todos aqueles que desejem fazê-lo. Aqui os esperamos para continuarmos juntos a construir a nossa pátria bonita.

IR - Vários governos latino-americanos, de esquerda e direita, foram recentemente acusados de estarem envolvidos em importantes esquemas de corrupção ligados em particular, ao “caso Odebrecht”. Qual seria, na sua opinião, o nível de corrupção na Venezuela? Que medidas tomou o seu governo para combater essa corrupção?

NM - Escute bem o que lhe vou dizer, Ramonet: não há, na história da Venezuela, um processo e um governo que tenham combatido a corrupção, no seu carácter estrutural, com maior rigor do que a Revolução Bolivariana e os governos de Hugo Chávez e meus. Não ignoro que uma das frentes de ataque dos nossos adversários contra nós consiste em acusar-nos de frouxidão relativamente à corrupção. Isso é absolutamente falso.

Eu denuncio a corrupção em praticamente todos os meus discursos. Ouviu-me, não mais tarde do que ontem … Sou o primeiro a reconhecer que há muita corrupção, que há muitos bandidos por aí na administração pública, roubando, defraudando e aproveitando-se do povo. Denunciei-o de novo com a maior severidade recentemente, no dia 20 de Dezembro passado, no Congresso Bolivariano dos Povos, onde propus a criação de um Plano de luta contra a corrupção e o burocratismo. O que nunca havia sido feito na Venezuela.

Mas não são apenas palavras ou discursos, Ramonet. Empreendemos, com os instrumentos da justiça e do Estado, uma autêntica cruzada contra a corrupção e contra a indolência. E conseguimos que o Procurador-geral [o procurador-geral do Estado ou da Nação] tenha processado e preso dezenas e dezenas de altos funcionários e altos representantes de empresas privadas que desonraram o seu juramento de lealdade, honestidade e que violaram as leis de República. Para citar apenas o sector de petróleo, por exemplo, mais de quarenta gerentes seniores da PDVSA e da Cito [Citgo Petroleum Corporation] estão presos por actos de corrupção contra a República. E mesmo um ex-presidente da PDVSA se encontra em fuga da justiça por actos muito sérios de corrupção.

De modo que duvido que exista um governo no mundo que enfrente a corrupção com maior energia e zelo do que estamos a fazer. De facto, para o ano de 2019, defini três linhas básicas de acção da revolução e do meu governo no seu novo começo. A saber. Em primeiro lugar, a preservação da paz da República, com estrita adesão à carta constitucional, e salvaguardando a tranquilidade face a ameaças internas ou externas. Em segundo lugar, a consolidação do Programa de Recuperação Económica para conseguir finalmente derrotar a criminosa inflação induzida no primeiro semestre de 2019, e fortalecer o aparelho produtivo do nosso país.

E em terceiro lugar, precisamente: uma luta incansável contra a indolência, a negligência, a preguiça e, acima de tudo, a corrupção. Pedi todo o apoio ao povo nesta cruzada. E conto com seu encorajamento e sua colaboração para me acompanhar. Esta é uma causa eminentemente popular, profundamente apoiada pela, profundamente apoiada pela população. As pessoas sabem que a corrupção é seu inimigo, um inimigo na sombra e um inimigo da revolução. Vamos erradicá-la. Consegui-lo-emos. Será testemunha disso. Vamos derrotar a indolência dos funcionários que não cumprem. E vamos aprofundar a batalha contra a corrupção. Venha de onde vier. Caia quem cair.

IR - Vamos agora abordar, finalmente, algumas questões internacionais. Nos últimos seis anos, em vários países da América Latina, assistimos ao ressurgimento da direita neoliberal. Na sua opinião, este auge das forças conservadoras - confirmado pela recente vitória de Jair Bolsonaro no Brasil - é uma tendência duradoura ou é apenas uma crise passageira?

NM - Bem, a América Latina é um território disputado e, com base na Doutrina Monroe, retomada pelo actual governo dos EUA, tem havido nos últimos anos uma ofensiva brutal contra os movimentos populares, contra as lideranças alternativas que, a partir da década de 1990, confrontaram e desmantelaram o neoliberalismo na América Latina. Lembre-se, por exemplo, o presidente Lula da Silva do Brasil, a ex-presidente Cristina Fernández da Argentina, entre outros líderes. Houve uma perseguição contra esses líderes que promoveu o surgimento de governos e líderes muito à direita, ao extremo da direita.

Houve, é verdade, um ciclo regressivo de conquistas sociais, dos progressos que haviam sido obtidos com lideranças progressistas de grande diversidade. Nós sentimos isso não apenas no impacto dessas políticas sobre os povos, mas também nos processos de privatização. No Brasil, por exemplo, depois de terem derrubado Dilma Rousseff, o petróleo foi privatizado, foram privatizados os serviços públicos, a electricidade, a água etc.. Privatizaram tudo, de um dia para o outro. E agora, com a chegada ao poder - hoje mesmo, 1 de Janeiro - do governo de extrema-direita neofascista de Jair Bolsonaro, bem, praticamente entregam em bandeja de prata o que o Brasil significa na América do Sul, América Latina, as multinacionais norte-americanas. É realmente um triste processo de regressão.

IR - Nessa mesma perspectiva, gostaria de lhe perguntar, após da recente chegada à presidência do México de Andrés Manuel López Obrador, observa-se que existe também que há a possibilidade de um retorno ao poder das forças populares na América Latina.

NM - De facto, na perspectiva do que estava a dizer-lhe, devo acrescentar que todo processo de regressão impulsiona e estimula - sem o querer - as forças internas que o combatem. De acordo com o princípio físico da acção versus reacção. Por conseguinte, constatamos que, ao lado dessa grande regressão actual, está a reforçar-se em vários países hoje governados por equipas neoliberais a capacidade de ação dos movimentos populares e sociais nos bairros, no campo e nas cidades. Movimentos urbanos dos sem-tecto, movimentos camponeses dos sem-terra, movimentos estudantis, de estudantes universitários, de feministas, de afrodescendentes, da diversidade sexual, etc.

Há um poderoso ressurgimento que, para mim, lembra o renascimento dos formidáveis movimentos populares que enfrentaram ALCA [Área de Livre Comércio das Américas] nos anos 90. Aqueles movimentos de resistência não tinham então grande perspectiva de alcançar o poder político. Mas surgiu na Venezuela a Revolução Bolivariana. E então, essa vitória do comandante Hugo Chávez convenceu os movimentos de resistência contra a ALCA de que era possível a conquista do poder político. Fora-o na Venezuela em 1998, e depois no referendo constituinte do ano de 1999.

Essas duas vitórias deram um incentivo especial às lutas sociais na América Latina. E abriram o caminho para mais tarde triunfarem eleitoralmente os governos populares de Lula no Brasil, de Nestor Kirchner na Argentina, de Fernando Lugo no Paraguai, da Frente Ampla no Uruguai, de Rafael Correa no Equador, de Evo Morales, na Bolívia, da Frente Sandinista e do comandante Daniel Ortega na Nicarágua, de Michelle Bachelet e da Coligação de partidos para a democracia no Chile, de Manuel Zelaya em Honduras, de Salvador Sanchez Ceren e da FMLN [Frente de Libertação Nacional Farabundo Marti] em El Salvador …

Todo esse, digamos, brilho das forças populares permitiu à América Latina e ao Caribe desempenharem, no início deste século XXI, um papel preponderante no cenário geopolítico da esquerda mundial. Hoje, paradoxalmente, a situação é semelhante. Houve alguns retrocessos devido, por vezes, a ataques inclementes e a golpes de Estado dos adversários do progresso e da justiça social. Mas as forças populares, em todo o nosso continente, estão novamente em ordem de batalha. E os novos êxitos eleitorais, democráticos, não vão demorar.

IR – Fez recentemente duas visitas importantes a dois parceiros fundamentais da Venezuela. Uma a Pequim em Setembro; e outra a Moscovo em Dezembro. Que conclusões retira dessas viagens à China e à Rússia, duas das principais superpotências mundiais e dois aliados firmes da Revolução Bolivariana?

NM - Bem, desde o início de nossa Revolução, Comandante Hugo Chávez fez um esforço especial na construção de relações de respeito e amizade com todos os povos do mundo e em moldar daquilo a que chamou “anéis aliança estratégica” para um planeta diferente daquele que os polos imperiais nos impunham. Então, com sua prodigiosa criatividade política, e em estreita cumplicidade com Fidel Castro, Chávez foi favorecendo a fundação da ALBA [Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América], da UNASUR [União das Nações Sul-Americanas], do Petrocaribe, da Telesur, da CELAC [Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe] … para concretizar um amplo esforço de integração latino-americana.

A relação de Caracas com a China e a Rússia, dois gigantes económicos e militares, também foi diretamente nutrida por Chávez e pelos líderes dessas potências até a situação actual.

Devo dizer que, com Pequim e Moscovo temos, mais do que uma parceria, uma relação de verdadeira fraternidade entre os nossos governos e os nossos povos. O mesmo se aplica a outros estados nos mundos árabe, muçulmano, iraniano, africano e do extremo oriente.

Eu fui chanceler de Chávez por mais de seis anos e sou testemunha directa dos seus esforços para construir um “mundo multipolar e pluricêntrico”. No momento presente, de agressão brutal do império norte-americano e seus satélites contra nós, vemos os frutos de relações que Chávez soube tecer e desenvolver.

Deixe-me lembrá-lo que, neste momento, a Venezuela preside o MNOAL [Movimento dos Países Não-Alinhados], que é o agrupamento de Estados mais importante do mundo depois das Nações Unidas. Por outro lado, quando esta entrevista for publicada, isto é, em 1º de Janeiro de 2019, estaremos assumindo a presidência da OPEP em Viena. Não é brincadeira. E nas minhas recentes visitas à Rússia e à China, que citou, levamos ao mais alto nível possível as nossas relações económicas, comerciais, políticas, militares e culturais com duas das principais superpotências do mundo.

Com a Turquia unem-nos também verdadeiros laços de amizade, entre o governo do presidente Erdogan e o meu, e mesmo – confesso-o - existe uma verdadeira amizade pessoal entre mim e o líder turco. Nunca antes a Venezuela tivera um intercâmbio económica e comercial tão importante, tão diversa e tão favorável com uma grande potência histórica como a Turquia.

Hoje a Venezuela não está sozinha. Pelo contrário, a cada dia nossos agressores estão mais isolados. Enquanto as nossas relações com o mundo inteiro são mais diversificadas e mais vigorosas.

IR - Esta entrevista será publicada em 1 de Janeiro de 2019, o dia em que se celebra o 60º aniversário do triunfo da Revolução Cubana. Que importância pensa que a revolução teve e tem na América Latina?

NM - A Revolução Cubana marcou profundamente a segunda metade do século XX. Significou e significa uma referência fundamental para todos os povos que lutam pela liberdade, a dignidade, a soberania, a justiça e o socialismo. Várias gerações de revolucionários – a minha sem dúvida - a juventude das décadas de 1960, 1970 e 1980 viu nas façanhas de Fidel, de Raul, de Camilo e do Che um farol que iluminou esperança no meio da longa noite neocolonial em que nosso continente americano foi afundado por mais de um século.

Esse pequeno país que se colocou perante o império mais brutal que a história da humanidade conheceu, resistiu e continua a resistir contra as agressões de seu vizinho do norte e seus lacaios. Um país que transformou em realidade os sonhos de redenção, de igualdade, de solidariedade, da construção heroica do socialismo. Que levou tantos jovens à luta nas ruas com a esperança recuperada.

Uma revolução que defendeu e encorajou a unidade latino-americana, esse grande sonho de Simón Bolívar e José Martí. Sonho de unidade - sem nunca esquecer Porto Rico, ou as Malvinas - que as oligarquias genuflexas do continente tanto temem. Um país que tem sido um exemplo de solidariedade internacional. Quantas vidas salvaram em todo o mundo os médicos cubanos?

Eu celebro este 60º aniversário da Revolução Cubana. E agradeço à vida por tantas madrugadas que passei conversando com Fidel, ouvindo seu verbo cheio de sabedoria, reflexão, de busca da ideia que lhe permitisse agir. Sempre para fazer o bem. Agradeço a Hugo Chávez porque, juntamente com Fidel e Raúl, construíram um novo começo de dignidade para todo o nosso continente.

IR - No passado dia 4 de Dezembro cumpriram-se vinte anos da primeira vitória eleitoral do Comandante Hugo Chávez. E, para concluir, gostaria de lhe perguntar o seguinte: se hoje tivesse a oportunidade de conversar com Chávez sobre sua própria experiência de quase seis anos de governo, o que você diria?

NM - São tantas as vezes, no meio da batalha, na reflexão ao amanhecer, depois da árdua jornada, que me fiz essa pergunta: “O que teria feito Chávez? » «Como teria ele abordado este ou aquele problema?»… São tantas as conversas íntimas, tantas as memórias … Felizmente, e estou certo disto, Chávez estabeleceu connosco, com a sua equipa próxima, um trabalho pedagógico permanente, um processo de formação sobre as imensas dificuldades existentes na construção de um processo revolucionário: seus desafios, seus obstáculos, seus imprevistos … Os ataques, as ameaças, as traições … Isso educou-nos, formou-nos, forjou-nos..

Chávez previu muitos dos acontecimentos que vivemos actualmente. Colocou-nos em guarda. As últimas preocupações que nos transmitiu giravam em torno do que ele imaginou que seria a “guerra económica” - essa expressão é sua - que o inimigo empreenderia contra nós. Uma agressão de novo tipo, com múltiplas frentes, contra o nosso povo. Estava profundamente preocupado com que a produção de petróleo estivesse em declínio …

Assim, a imensa solidão que nos deixou por sua passagem para outro plano é de alguma forma compensada por tantos conselhos que nos deu. E que nunca esquecemos. Tantos exemplos de firmeza e lealdade aos ideais bolivarianos. Essa “bela revolução” com a qual ele sonhava, com democracia e liberdade, para que o analfabetismo desaparecesse, as artes e a cultura se multiplicassem, houvesse plena saúde, pleno emprego, paz, alegria, progresso, prosperidade e amor. Quando penso com quanta crueldade eles o atacaram por ter esse belo sonho … Como hoje me atacam, com ainda maior fúria, se possível, por querer o mesmo, querendo fazer o bem e semear a felicidade …

É por isso que quase diariamente convoco Chávez. Preciso disso, exijo-o, reclamo-o e, como nesse verso do poeta Miguel Hernández, digo: “Temos que falar sobre muitas coisas, companheiro da alma, companheiro”.

(Entrevista realizada em Caracas, no Palácio de Miraflores, em 27 de Dezembro de 2018. As respostas foram relidas e emendadas pelo entrevistado.)

Fonte: http://www.cubadebate.cu/especiales/2019/01/05/nicolas-maduro-que-se-nos-respete-en-tanto-y-cuanto-somos-soberanos-e-independientes/#. XDCplJx4RhE

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