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Correia da Fonseca*    12.Mar.09    Colaboradores

Correia da FonsecaUm no canal informativo pode nem ser uma boa notícia, se for mais do mesmo e este mesmo é a repetição da informação única. A TVI estreou no cabo o TVI24, um canal de notícias.
“Justificadamente ou não, sobre o trabalho informativo da TVI parece planar sempre o sopro de Manuela Moura Guedes, aliás com funções de topo no corpo redactorial da estação. Que esse estilo, ou essa opção, venha a dominar o TVI24, canal de notícias, é, mais que um risco distante, uma ameaça próxima.”

A SIC tinha o SIC-Notícias, a RTP tinha o RTPN, a TVI estreou há dias o seu TVI24, o terceiro canal português de notícias a ser distribuído por cabo. O novo canal começa bem pelo menos no que diz respeito ao título: TVI24 é sugestivo, tem qualquer coisa de código, pode falar subliminarmente à imaginação dos telespectadores. Receio, porém, que as suas vantagens factuais não vão muito mais longe.

É claro que nestes primeiros dias de emissões tem havido um clima de festa, de júbilo, que em maior ou menor grau pode contagiar o público e isso é um factor de ajuda à conquista de audiências, de sedução. Mas as equipas de comentadores e analistas já anunciadas, salvo uma ou outra excepção de facto irrelevante, não são constituídas por personalidades sedutoras. Talvez o que melhor as caracterize seja o casal Vasco Pulido Valente/Constança Cunha e Sá, não por serem dos colaboradores menos jovens, entenda-se, mas sim por se situarem ideológica e politicamente numa área que visivelmente os empurra para uma espécie de convergência entre o azedume maledicente e o reaccionarismo enferrujado. Outros serão diferentes e melhores, mas o balanço global promete ser negativo. E é claro que para um canal noticioso, pela sua própria natureza vocacionado para complementar a notícia com a opinião, isso não permite uma perspectiva optimista.

Entre as primeiras palavras com que o novo canal nos brindou estiveram as que nos prometeram uma prestação «com a qualidade a que a TVI nos habituou». Noutras circunstâncias seria uma informação bem-vinda, mas neste caso concreto nem por isso. É que, mesmo só no aspecto da prestação de serviços noticiosos, a TVI tem ficado longe de merecer o aplauso de quem não olhe e ouça televisão em permanente estado de passividade acrítica, quase beata. Dir-se-á, e não sem razão, que de telespectadores assim, inteiramente crédulos perante os fluxos telenoticiosos e sempre sendo terreno propício a que o populismo demagógico pegue de estaca é que é constituída a generalidade das audiências nacionais. Mas a TVI tem exagerado nesse caminho, aliás desse modo arrecadando parte dos telespectadores que fazem dela campeã de audiências.

Justificadamente ou não, sobre o trabalho informativo da TVI parece planar sempre o sopro de Manuela Moura Guedes, aliás com funções de topo no corpo redactorial da estação. Que esse estilo, ou essa opção, venha a dominar o TVI24, canal de notícias, é, mais que um risco distante, uma ameaça próxima.

É claro, porém, que poderá não ser assim. Não porque o Espírito Santo, descendo sobre as cabeças dos responsáveis do canal, os ilumine e faça compreender que a probidade intelectual e deontológica é uma virtude de primeiríssima grandeza (afinal já vão longe os tempos em que a estação se reclamava de ser «de inspiração cristã»), mas talvez antes por descobrirem que de demagogia e imposturas já estão os telespectadores bem servidos e que, por consequência e para lá de considerações éticas, a isenção e a objectividade humanamente possíveis poderão ser, digamos assim e com perdão da palavra, um filão a explorar.

Se assim acontecer ou se suceder coisa parecida, é claro que a vinda do TVI24 será um bom passo no percurso melancolizante da televisão portuguesa.

Um canal que não queira vir fazer negócio com a espécie de terrorismo noticioso que se tornou moda, que não marginalize sistematicamente uma visão do mundo e do País que é partilhada por muitos milhares de cidadãos portugueses e por milhões de indivíduos em todo o mundo, que não confunda intriga e calúnia com informação, será uma boa coisa.

Para falar com franqueza, esta perspectiva feliz não é a mais provável, mas, como diz o povo, o diabo não está sempre atrás da porta. O pior é que a questão não é essa, mas sim a de que não propriamente o diabo em pessoa, mas porventura um seu delegado, venha a ocupar um gabinete de direcção deste terceiro canal de notícias fornecidas por cabo.


* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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