Notícias falsas ou a hegemonia da censura global (I)

O Wojtyla sul-americano, o papa Francisco I, apoia a direita venezuelana. Aliou-se à moda corporativa e comparou na passada quarta-feira [7 de Dezembro] os meios de comunicação que difundem «notícias falsas» com as pessoas que se deixam enganar. Bergoglio lamentou o auge da «desinformação» e a sua influência nas eleições presidenciais dos EUA.

As consequências das eleições presidenciais nos EUA do passado dia 8 de Novembro ainda não são totalmente perceptíveis. Devido à vitória de Donald Trump, o Partido Democrata com a derrota de Hillary Clinton mostrou-se a meio-mundo como um montão de escombros.

Entre vilões e bodes expiatórios, os democratas estadunidenses aumentaram os ataques contra, entre outros, o perseguido director de Wikileaks, Julian Assange, o presidente russo Vladimir Putin, o director do FBI James Comey, o próprio Colégio Eleitoral. Fazem-no em conjunto com os meios de comunicação que estão na órbitra de Washington (os meios de comunicação do «Beltway», alusão à circunscrição onde se localizam a Casa Branca e o Congresso).

As «notícias falsas» ou fake news foram postas perante o júri dos meios de comunicação e os políticos do establishment. Dizem que diversas páginas web – entre blogs, meios de comunicação alternativos e jornalistas verdadeiramente independentes são «agentes de Putin» - tiveram um papel decisivo nas eleições, sobretudo nas redes sociais como o Facebook, o Twitter, o Instagram, o Tumblr, o YouTube.

Dizem que a desinformação foi simultaneamente juiz e parte nas decisões eleitorais do povo norte-americano, e omitem toda a contradição que os obrigue a confessar a sua conduta errática e os seus próprios erros.

Inclusive disseram, como vós como «peritos», a propaganda russa disseminou-se nas redes, antes e durante as eleições de 8 de Novembro, sob a forma de notícias falsas, alterando o curso da votação em detrimento da candidata Clinton.

Não param de apelar à informação que convém aos que financiam os reais manipuladores da informação: os meios de comunicação corporativos e o seu suporte político, que apenas reconhecem raciocínios, factos e argumentos do campo ideológico e sobretudo político que os rege.

O que não dizem é que foram eles os mais eficientes criadores e divulgadores de notícias falsas.

Um grande censor global?

O que qualificam como «fake news» resume-se ao seguinte: tudo o que não seja informação, facto ou opinião difundida pelos órgãos mediáticos autorizados, leia-se os grandes meios de comunicação corporativos, é «notícia falsa».

Isto é, se não é publicado no The New York Times, The Washington Post ou CNN não pode ser verdade. Esses mesmos meios de comunicação e as grandes plataformas de redes sociais (Google, Facebook, Twitter), simplesmente autorizam ou desautorizam, devido a esse grande conglomerado ser agora juiz e parte da validação informativa.

Google e Facebook anunciaram simultaneamente que a 15 de Novembro desligariam todos os websites que divulguem «notícias falsas» - de acordo com a nomenclatura corporativa do momento – para não contribuírem sem querer querendo para a propagação deste bode expiatório. Isto tem por fim bloquear toda a informação que compromete os objectivos da propaganda ocidental e as agendas político-económicas que manobram na sua sombra.

A aprovação pelo Parlamento Europeu da resolução anti-russa contra meios, como a RT e a agência de notícias Sputnik, é uma amostra do que parece ser uma grande operação mediática que procura desacreditar e deslegitimar todo o esforço para contar e pensar os factos de forma diferente do apresentado pelos meios de comunicação corporativos.

Cartelização global da informação, censura corporativa mundial

Não é um facto qualquer que um poder político de longo alcance como o Parlamento Europeu, poderosa caricatura do Congresso estadunidense do outro lado do Atlântico, resolva balancear-se contra a Rússia e tudo o que pareça, ou seja de facto, um aliado de Putin.

Inclusive, alguns jornalistas informaram que as suas contas no Facebook e no Twitter foram proibidas e canceladas por desde 2014 estarem a informar sobre a Ucrânia e a guerra no Donbass. Simples casualidade?

Todo o tema à volta dos fake news não é tanto o filtro – que já há tempo vem sendo imposto, inclusive desde a abertura da internet ao mundo comercial, o que tira à big web o carácter democrático que lhe atribuem – mas o da função de censor de alcance global que se lhe pretende impor, devido ao ocaso da hegemonia estadunidense e à expansão do mundo multipolar.

Um cartel de notícias falsas

Um estudo do Centro de Investigação Pew revelou que dois terços (66%) dos utilizadores do Facebook lêem notícias através desta rede social, talvez a mais popular mundialmente. Isto quer dizer que o acesso a notícias, opiniões e qualquer tipo de informação tem um alcance maior através das redes sociais, onde a interacção entre utilizadores é contínua e a rotação da informação mas a rotação da informação é consensualizada pelos criadores de estas redes.

A maioria da população que usa diariamente as redes sociais como o Facebook e o Twitter consome notícias sem comprovar qualquer tipo de informação. A apresentação das notícias é como um dogma onde as fontes nunca estão claras, e a edição editorial prevalece acima dos factos.

O que acontece na Venezuela, em que o baixo nível comunicacional e a intoxicação mediática procuram criar a ideia de uma «mudança de regime» no país, também está a acontecer a nível mundial, com a divulgação das «notícias falsas».

A cartelização da informação está ligada aos grandes poderes mediáticos que impõem linhas editoriais aos seus infomercenários, e traz consigo apenas um bombardeamento informativo que demoniza tudo o que possa ser associado a Putin, a Xi Jinping, aos Castro, a Chávez e Maduro, etc.

Se é certo que as redes sociais são um campo de batalha propício ao exercício da hegemonia da censura global, em que os websites como The Vineyard Of The Saker, Sputnik News e Moon Of Alabama poderiam ser vítimas do silêncio cartelizado, também, existe um contrapeso de alcance mundial com, talvez, alguma força para contrapor.

A lista de Ron Paul, político estadunidense que lançou no seu sítio web um rol de comprovados infomercenários às ordens dos Clinton e do establishment durante a campanha eleitoral é uma resposta à pretensão dos impulsionadores de «notícias falsas».

Trata-se de uma guerra 2.0 – que envolve o plano perceptivo, ideologicamente moldável – não só contra todos os que digam «não» aos EUA e aos poderes que estão por trás, mas também contra a população mundial em geral. A sistemática e sistematizada ignorância é a sua ponta de lança.

A nós, pessoas comuns, também nos cabe fazer parte dessa guerra da informação. Caso contrário somos comidos pelo lobo de tanto gritar em falso.

Este texto foi publicado em http://www.lahaine.org/mundo.php/noticias-falsas-o-la-hegemonia

Tradução de José Paulo Gascão

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