Nova Nakba?*

Jorge Cadima    22.May.19    Outros autores

O martírio do povo palestiniano dura há 71 anos, e está longe de ter terminado. Os falcões da guerra estão ao ataque. Os governos dos EUA e Israel rasgam ostensivamente todos os acordos, as resoluções da ONU, a legalidade internacional. No Médio Oriente, o Irão é anunciado como novo alvo de uma política assassina que ameaça arrastar todo o mundo a uma monstruosa catástrofe.

Nos 71 anos da Nakba, a limpeza étnica que acompanhou a criação do Estado de Israel, adensam-se nuvens negras sobre a Palestina, o Irão, e não só. Os falcões da guerra estão ao ataque. Os governos dos EUA e Israel rasgam ostensivamente todos os acordos, as resoluções da ONU, a legalidade internacional. Os EUA deitaram para o caixote do lixo o Acordo Nuclear (multilateral) com o Irão, reconheceram Jerusalém como capital de Israel e a anexação israelita dos Montes Golã sírios, cortaram os financiamentos à UNRWA, a Agência da ONU para os milhões de refugiados palestinos. Israel bombardeia sistematicamente território sírio e a Faixa de Gaza e massacra manifestantes indefesos. Netanyahu anuncia a anexação formal dos ilegais colonatos israelitas nos territórios palestinos ocupados.

Um colunista do Financial Times (D. Gardner, 8.5.19) diz que «os EUA estão numa ulterior escalada» contra o Irão e «substituíram um dos raros trunfos da diplomacia por um detonador, numa das mais inflamáveis regiões do planeta». O embargo já montado contra Cuba, a Venezuela e a Faixa de Gaza, com consequências dramáticas, está agora a ser estendido ao Irão «com o objectivo declarado de reduzir a zero as exportações petrolíferas iranianas e fazer colapsar a sua economia». Um ano após os EUA rasgarem o acordo nuclear, «o Irão tem honrado o acordo, apesar do Sr. Trump ter reimposto sanções e ameaçado aliados, além de adversários, que não cessem os seus negócios com o Irão». A UE geme, mas submete-se. Os EUA e seus aliados preparam também um salto qualitativo para destruir as promessas de criação dum Estado Palestiniano soberano, consagradas em décadas de resoluções da ONU. Mas a UE só encontra firmeza para condenar os palestinianos de Gaza, cercados, massacrados e bombardeados.

Devemos estar preparados para provocações. Os tambores de guerra são acompanhados por avalanches de mentiras. Oficiais e gabadas. Falando no dia 15 de Abril na Universidade texana A & M, o ex-Director da CIA e actual MNE dos EUA, Pompeo, afirmou, para gáudio e aplausos da assistência: «Qual era a palavra de ordem dos cadetes [na Academia Militar] de West Point? Não mentirás, não vigarizarás [cheat], não roubarás […]. Eu fui director da CIA. Nós mentíamos, vigarizávamos, roubávamos. Fazíamos cursos inteiros de formação [nisso]». E rematava, com ar mais sério: «Isto faz-nos pensar na glória da experiência americana»(!). Palavras para quê? A comunicação social de regime não difundiu, mas o vídeo está disponível na Internet. Deveria ser visto após cada peça dos telejornais sobre a Venezuela.

Pompeo acrescentou a sua visão do cargo que desempenha hoje: «Diplomacia e ataques [strikes] militares vão de mãos dadas». Mote repetido à CNN (23.4.19) pelo Embaixador dos EUA na Rússia, a bordo de um porta-aviões dos EUA no Mediterrâneo e falando para a segunda potência nuclear do planeta: «quando temos 200 000 toneladas de diplomacia a cruzar o Mediterrâneo – isto é o que eu chamo diplomacia […] – não é preciso dizer mais nada». A bazófia belicista foi pronunciada poucos dias antes do aniversário da Vitória na II Guerra Mundial, que custou o sacrifício de mais de 20 milhões de soviéticos. O imperialismo sempre teve a guerra como companheira natural. Mas o imperialismo em decadência parece querer arrastar tudo consigo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2372, 16.05.2019

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